Quantos hidratantes labiais uma criança precisa? – 26/08/2025 – Joanna Moura

0
11
Quantos hidratantes labiais uma criança precisa? - 26/08/2025 - Joanna Moura

“O que é isso, mamãe?”, me perguntou minha filha de seis anos enquanto passamos por um dos corredores da farmácia a caminho do balcão lá nos fundos da loja, onde uma farmacêutica com expressão entediada olhava alguma coisa na tela do computador.

Seu dedinho infantil, apontava para um totem colorido, com desenhos de personagens em formato de frutas que abrigava dezenas de tubinhos coloridos, um diferente do outro.

“É hidratante labial, filha. Pra quem tem o lábio ressecado”. “Eu quero”, disse ela, tentativamente. “Você tem lábio ressecado?”, perguntei a ela. “Não…”, ela respondeu e seguiu andando ao meu lado conformada com a resposta.

Alguns dias depois, num encontro de família, sua prima de pouco mais de sete anos, sacou da pequena bolsa de glitter que carregava à tiracolo dois dos tais hidratantes, um de cada cor. “Quer um, prima? Eu tenho coleção. Esse aqui é de amora.” Minha filha olhou para mim e depois para ela e disse que não precisava.

O diálogo inocente e até certo ponto fofo entre as duas crianças foi apenas mais um de uma série de eventos que me fizeram arrepiar os pelos ali na base das costas.

Eu fui uma criança que pensava muito em consumir e que provavelmente consumia mais do que a média. No meu livro “E se eu parasse de comprar?” conto sobre como as tarde de sábado no shopping com a minha mãe tatuaram o consumo como uma demonstração de afeto e conexão no meu cérebro infanto-juvenil.

O amor por estojos coloridos, a dopamina de aumentar a coleção de canetas e borrachas que depois evoluiu para a diversão de ver vitrines e a satisfação de voltar para casa com uma sacolinha em punho foram as sementes do que se tornou uma compulsão.

Durante anos batalhei em vão contra meu consumismo, até que, finalmente, consegui estancar o sangramento na minha conta bancária e pude pela primeira vez me sentir no comando do meu cartão de crédito e não sob o comando dele. Mesmo assim, mais de uma década depois de ter virado o jogo, não me considero curada. Meu consumismo em remissão exige atenção contínua, exames periódicos de mim mesma, e o ocasional tratamento contra recaídas.

Mas nada me tornou tão atenta ao consumo quanto testemunhar minha filha, ainda tão nova, ser constantemente bombardeada pelo apelo sedutor de comprar qualquer coisa. De Labubus, a bebê reborn, de esmaltes para unhas a hidratantes colecionáveis com cheiros artificiais de balas de goma entupidas de açúcar. No intervalo do programa de televisão, no vídeo do Youtube na tela do celular da prima, nas prateleiras da farmácia a caminho de comprar remédio para ouvido inflamado.

Lá em 2021, quando terminei de escrever meu livro, voltei ao início do arquivo e incluí uma dedicatória: “para Stella, para que você cometa outros erros.”

Sei que nenhum pai nem mãe deseja ver seus filhos crescerem com a ideia de que precisam comprar para pertencer ou para se sentirem felizes, plenos, aceitos. Também tenho plena consciência de que não conseguirei blindá-la da sedução do consumo. Mas proponho que possamos refletir sobre como nossas ações servem de exemplo para eles, para que possamos criar uma nova geração que entende que afeto não é medido em dinheiro gasto nem sacolinhas cheias. E que, por mais divertido que o consumo possa ser (ou parecer), ele não define quem somos.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte ==> Uol

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui