Estou bem ou só aguentando?

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Karine Laini

À primeira vista, parece fácil dizer se alguém está bem: a pessoa trabalha, sabe se portar numa conversa, tem rotina. Para muita gente, isso basta, como diz a piada da internet, “não morri, nem fui presa, nem internada”. E estar funcionando é, sim, motivo de orgulho. Mas muita gente se pergunta algo mais incômodo: estou bem ou só aguentando? Porque funcionar à custa de lutar o tempo todo contra si mesmo não parece exatamente saúde.

Para começar, vale desfazer uma confusão: saúde e doença não são as duas pontas de uma mesma régua. Dá para não ter transtorno nenhum e, ainda assim, sentir que a vida não tem sentido, não conseguir se relacionar e passar a maior parte dos dias angustiado. E o contrário também existe: gente com diagnósticos crônicos que lida tão bem com eles que pode ser considerada muito saudável. A pergunta que importa é se a vida ainda faz sentido para quem a vive, e só a própria pessoa pode responder.

Saúde, nesse sentido, é menos um estado e mais uma margem. Duas pessoas no sofá parecem igualmente descansadas; é ao subir uma escada que se vê qual delas fica sem fôlego. Com a mente é igual: a saúde aparece quando a vida exige algo, um conflito, uma perda, um emprego que acaba, na capacidade de se recompor e sair um pouco mais preparado para o próximo golpe. E essa margem muda de tamanho. Passar a sexta-feira sozinho em casa significa uma coisa numa semana comum e outra, bem diferente, na semana em que você terminou um relacionamento de anos. A cena é a mesma; o que muda é tudo em volta dela.

Às vezes, o cansaço vem de marcas antigas: experiências mal guardadas na memória que, quando algo parecido acontece, disparam no corpo como se estivessem acontecendo de novo. É o que chamamos de gatilho. Entender de onde isso vem ajuda muito, mas não basta. Você pode saber por que tenta agradar todo mundo e, ainda assim, quando alguém importante se decepciona, a vergonha chega antes da explicação. Mudar hábitos ajuda, mas não desliga o motor. Muita gente aprende a parecer segura por fora enquanto, por dentro, nada contra a correnteza: consegue nadar, mas precisa fazer força o tempo inteiro para não ser arrastada de volta.

E não se trata de desligar as emoções. Elas nos orientam: a irritação que sobe quando alguém fura um combinado pode estar avisando que um limite foi ultrapassado. Por isso desconfio de promessas como “eliminar a ansiedade”. Melhorar de verdade é outra coisa: as emoções continuam aparecendo, mas deixam de decidir sozinhas o que você faz depois. Dá para sentir ansiedade e não fugir, sentir vergonha e seguir na conversa, sentir-se frágil e ainda assim dizer não. Às vezes a dor continua do mesmo tamanho, nós é que crescemos em volta dela.

Como perceber esse crescimento? Alguns sinais ajudam. Coragem: dizer o que pensa mesmo sabendo que pode incomodar alguém importante, sem virar agressivo. Autonomia: construir a vida a partir do que faz sentido para você, não do que impressiona de fora, ninguém, nem um profissional, deveria saber mais sobre a sua vida do que você. Clareza: trocar o genérico “tô mal” ou “tô com preguiça” por algo mais preciso, como “tenho medo de fazer errado”, porque um sentimento nomeado vira informação que se pode usar. Profundidade: chegar perto do que dói em vez de narrar tudo à distância, com voz neutra, é esse contato que permite à dor ser atualizada, em vez de ficar intacta. E flexibilidade: ter mais de um jeito de lidar com as dificuldades e saber trocar quando um deles para de funcionar.

Ninguém vive assim o tempo todo. O que sustenta esses sinais é voltar, sempre, à pergunta do início, estou bem ou só aguentando? Cada vez que a vida cobra algo novo. Fazê-la a sério já é a parte mais importante: parar e olhar para dentro. O resto se constrói devagar, tentativa por tentativa, e quase sempre na companhia de alguém.

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