Quando o custo por treinamento desaparece, a empresa treina 3 vezes mais

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Katia Albany

Dados de uma base com mais de 300 mil treinamentos por ano mostram que trabalhadores em empresas que operam universidade corporativa em SST fazem em média três treinamentos anuais. O obrigatório, sozinho, seria um. Para a engenheira Katia Albany, o número expõe a diferença entre treinar para cumprir tabela e treinar para construir cultura

O treinamento de segurança do trabalho no Brasil tem um comportamento previsível. A empresa treina quando a fiscalização aperta, quando a norma exige ou quando o certificado vence. Emite o documento, arquiva e esquece o assunto até o próximo susto. É o que a engenheira eletricista Katia Albany, fundadora da Anak, chama de treinamento como evento.

“Segurança não funciona assim. Pessoas entram e saem das empresas, certificados vencem, normas mudam, riscos mudam. Treinamento é um fluxo, e quem trata fluxo como evento vive apagando incêndio”, afirma.

A Anak, empresa catarinense fundada em 2021, opera a infraestrutura de treinamento de mais de 700 clientes, entre consultorias de SST, clínicas de medicina ocupacional, revendas e indústrias, somando mais de 300 mil treinamentos por ano. Esse volume permite enxergar um padrão que uma empresa isolada não vê. E o padrão é este: quando o custo por treinamento deixa de existir, o trabalhador passa a fazer, em média, três treinamentos por ano. Alguns chegam a quatro ou cinco.

“Quando o treinamento era pago um a um, a empresa fazia o obrigatório e parava. Quando o custo por treinamento desaparece, a mesma empresa passa a treinar liderança, integração, SIPAT, riscos psicossociais, reciclagem antes do vencimento. Isso é mudança de comportamento, não de fornecedor”, diz Katia.

O que é uma universidade corporativa em SST

O modelo que sustenta esse dado é o que a Anak chama de universidade corporativa em SST. Em vez de comprar treinamentos avulsos, a empresa, ou a consultoria que a atende, contrata uma capacidade anual de pessoas treinadas e monta a própria universidade, com marca própria, catálogo amplo e trilhas por função. O treinamento deixa de ser uma compra reativa e vira uma operação planejada para o ano inteiro.

Na prática, isso muda a ordem das coisas. O novo funcionário entra na trilha de integração no dia da admissão. O vencimento dos certificados é monitorado automaticamente e a reciclagem é acionada no prazo certo. O gestor tem visão da conformidade em tempo real. E o catálogo, com mais de 200 treinamentos, permite ir além da série de normas regulamentadoras: SIPAT, liderança, comunicação de risco, fatores psicossociais.

Há uma escolha de método por trás disso. “Cultura vem do topo”, diz Katia. “Treinar a pirâmide inteira, do líder ao chão de fábrica, é o que separa uma universidade corporativa de uma pilha de certificados. O operador treinado e o supervisor que não foi treinado convivem na mesma frente de trabalho. Adivinha quem define o comportamento.”

Katia Albany

Katia Albany

Certificado não é evidência

O segundo eixo da tese é jurídico. Com o gerenciamento de riscos ocupacionais da NR-1 e a inclusão dos fatores psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos, a empresa passou a ter que comprovar, e não apenas declarar, o que faz em segurança. Treinamento entrou nessa conta como evidência.

“Numa fiscalização ou num processo trabalhista, ninguém pergunta se a empresa tem o certificado. Perguntam se ela consegue provar que o treinamento aconteceu de verdade, dentro do que a norma exige”, afirma Katia. “O certificado tem que ser consequência de um processo comprovável, não um papel que se emite.”

A comprovação, na leitura dela, é a jornada completa registrada: matrícula, progresso, avaliações, carga horária, conclusão, emissão e validade do certificado, e a etapa presencial documentada, com instrutor, data e lista de presença. É exatamente o que o Anexo II da NR-1 exige do EAD e o que boa parte das estruturas improvisadas do mercado não entrega. “A maioria das plataformas genéricas entrega vídeo e matrícula. A norma pede a operação inteira.”

Katia faz questão de uma ressalva: atender a NR-1 não é diferencial, é o mínimo. “Quem usa isso como argumento de venda começa a relação enganando o cliente. O problema é que o mínimo não está sendo entregue.”

Online, presencial e a régua que subiu

O ano de 2026 trouxe dois marcos que reforçam o argumento. A Portaria MTE 737/2026 publicou a nova redação da NR-10, com seis novos treinamentos iniciais, transição de um ano e parte prática presencial obrigatória a partir de 1º de junho de 2027. A Portaria MTE 1.259/2026 tornou o treinamento da NR-35 totalmente presencial, encerrando o modelo híbrido.

Para quem via o online como atalho para baratear treinamento, é uma má notícia. Para Katia, que formou mais de mil instrutores de NR-10 antes de fundar a Anak, é a norma dizendo o que ela repete há anos. “A teoria ganha muito no online: padronização, qualidade de conteúdo, alcance, registro de tudo. Uma aula teórica bem produzida no EAD é melhor do que uma aula presencial improvisada, dada às pressas para cumprir tabela. Mas a prática é insubstituível. Tem competência que só se desenvolve com o equipamento na mão e um instrutor qualificado ao lado.”

O modelo da universidade corporativa integra as três modalidades: teoria a distância, prática presencial com instrutores e agenda gerenciada, e o semipresencial como encontro das duas. A parte prática, historicamente o ponto em que a operação se perde, passa a ser documentada com o mesmo rigor da teoria. “O erro do mercado foi transformar modalidade em atalho. A tecnologia serve para elevar a régua das duas pontas, não para esvaziar uma delas.”

Treinamento não é custo

Nas indústrias que operam a própria universidade corporativa, algumas há quatro anos na plataforma, a mudança de vocabulário acompanha a mudança de prática. Treinamento sai da linha de despesa e passa a ser tratado como ativo: cultura que evita acidente, comprovação exigida pela norma e argumento de marca empregadora.

“Treinamento não é custo, é ativo. E um ativo precisa de comprovação”, resume Katia. “O papel não protege ninguém. O que protege é a competência instalada e a prova de que ela foi construída.”

A tese que amarra tudo cabe em uma frase, que ela repete como mantra: cultura de segurança se constrói com educação. “E cultura não se constrói em um evento. Se constrói todos os dias.”

Cinco perguntas para saber se o treinamento da sua empresa é de fachada

1. Você consegue provar a jornada, ou só o certificado? Matrícula, progresso, avaliação, carga horária e conclusão precisam estar registrados e auditáveis. Certificado sem lastro não é evidência.

2. Quem sabe quando o certificado vence? Se a resposta é “o RH descobre na fiscalização”, o controle não existe.

3. A parte prática está documentada? Instrutor, data, presença e conteúdo. É a etapa em que mais operações se perdem.

4. A liderança foi treinada antes do chão de fábrica? Cultura vem do topo. Supervisor sem treinamento anula o treinamento do operador.

5. O que sua empresa treinou além do obrigatório neste ano? Se a resposta é nada, o treinamento é evento, não cultura.

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Katia Albany é engenheira eletricista formada pela UTFPR, começou a carreira como instrutora de NR-10 e formou mais de mil instrutores da norma pelo Brasil. Fundou a Anak em 2021, em Blumenau (SC), empresa que opera a infraestrutura de treinamento de mais de 700 clientes, com mais de 300 mil treinamentos por ano. Preside a regional Sul da ABRACOPEL, associação brasileira de conscientização para os perigos da eletricidade.

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