Acredito no amor: Bayard do Coutto Boiteux 

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Arquivo pessoal

Em tempos de afetos descartáveis, solidariedade exibida e personagens cuidadosamente construídos para parecer aquilo que não são, acreditar no amor tornou-se quase um ato de resistência. Eu resisto. Continuo acreditando no amor, na humanidade, na amizade, na diversidade e na capacidade de reconhecer o valor do outro. Não por ingenuidade, muito menos por desconhecer as vaidades e pequenas misérias humanas. Já encontrei algumas pelo caminho. Acredito porque me recuso a aceitar que o cinismo seja sinal de inteligência, que a indiferença seja sinônimo de força ou que viver de aparências tenha se tornado uma virtude.

Aprendi muito porque nunca deixei de estudar. Estudar, para mim, nunca foi apenas frequentar universidades, conquistar títulos ou acumular conhecimentos. Foi conservar a curiosidade e aceitar que sempre existe alguma coisa a aprender, inclusive quando imaginamos saber bastante. Aprendi nos livros, nas salas de aula, nas viagens, nas conversas, nos encontros e até nas decepções. Talvez uma das maiores conquistas da maturidade seja perceber que conhecimento não serve para nos colocar acima de ninguém, mas para ampliar nossa capacidade de compreender o mundo e as pessoas.

E aprendi também a amar de muitas formas. Com o tempo, deixei de tentar enquadrar o amor em parâmetros sociais ou excessivamente racionais. O coração nem sempre consulta convenções antes de escolher seus caminhos, e talvez seja exatamente aí que esteja sua beleza. Amei pessoas, amigos, lugares, projetos, ideias e momentos de maneiras diferentes, porque não acredito que exista uma fórmula única para o afeto. O amor que me interessa é livre, respeitoso e verdadeiro. Não precisa corresponder ao roteiro que a sociedade escreveu para ser legítimo. Precisa apenas não ferir, não aprisionar e não retirar de ninguém o direito de ser quem é.

Viajei muito e encontrei mundos que pensavam, viviam e se relacionavam de maneiras completamente diferentes. Essa foi uma das minhas maiores escolas. Aprendi que nossas verdades não são universais, que nossas certezas podem ser frágeis e que ninguém se torna menor por ouvir o pensamento do outro. A diversidade não me ameaça; ao contrário, ela me alimenta intelectualmente. O que me preocupa é a unanimidade sem reflexão, a opinião copiada e a incapacidade de questionar. Gosto de gente com espírito crítico, que pergunta, discorda, argumenta e pensa, inclusive quando pensa diferente de mim. Uma divergência inteligente pode ser muito mais enriquecedora do que uma sucessão de elogios protocolares.

Talvez por isso eu seja tão avesso a personagens. Há pessoas que criam uma versão imaginária de si mesmas e passam a viver dentro dela. Precisam ser sempre as mais importantes, competentes e admiradas. A vida transforma-se num palco permanente e todos ao redor acabam reduzidos a figurantes. É uma existência cansativa, porque exige aplausos contínuos e uma plateia disposta a alimentar fantasias. Mais preocupante ainda é quando essa necessidade de protagonismo vem acompanhada da incapacidade de reconhecer o esforço e o mérito dos outros.

Admirar o talento de alguém não diminui o nosso. Elogiar uma conquista não nos torna menos importantes. Celebrar sinceramente o sucesso de um amigo deveria ser uma das expressões mais bonitas da amizade. Sempre me causou estranheza quem encontra enorme facilidade para apontar defeitos, mas enfrenta uma dificuldade quase insuperável para pronunciar um elogio. Quem precisa diminuir o outro para crescer talvez ainda não tenha compreendido que grandeza não se mede pela quantidade de luz que conseguimos apagar ao nosso redor.

Na vida pública, na universidade, no turismo, na cultura e nos inúmeros projetos coletivos dos quais participei, aprendi justamente o contrário. Sempre procurei reunir pessoas e valorizar aquilo que cada uma sabia fazer melhor. Muitos dos trabalhos que coordenei e integrei foram reconhecidos exatamente por essa construção coletiva. Nunca tive dificuldade em dizer quem teve uma boa ideia, quem realizou um excelente trabalho ou quem foi decisivo para determinado resultado. O mérito deve ser reconhecido, e saber reconhecê-lo é também uma demonstração de segurança e generosidade.

Acredito igualmente na solidariedade, embora confesse certa desconfiança diante daquela que precisa ser permanentemente anunciada. O bem não necessita obrigatoriamente de plateia. Existem gestos extraordinários realizados todos os dias sem câmeras, discursos ou publicações nas redes sociais. A verdadeira solidariedade nasce da capacidade de perceber o outro, e não da necessidade de sermos percebidos enquanto ajudamos.

Com a amizade acontece algo semelhante. Amigo não é quem concorda conosco o tempo inteiro, nem quem distribui elogios por conveniência. Amizade verdadeira suporta divergências, atravessa dificuldades e consegue celebrar sinceramente nossas conquistas. Prefiro pessoas imperfeitas e verdadeiras às que passam a vida representando uma perfeição inexistente. Admiro quem consegue reconhecer um erro, pedir desculpas ou mudar de opinião diante de novos argumentos. Isso não é fraqueza; é maturidade.

Depois de tantas estradas, experiências, encontros e desencontros, continuo acreditando na humanidade. Não porque a considere perfeita, mas porque ainda encontro gente que vale a viagem. Acredito no amor porque aproxima, na solidariedade porque humaniza, na diversidade porque ensina, na amizade porque sustenta e no espírito crítico porque nos liberta.

Não me impressionam títulos, personagens cuidadosamente construídos ou discursos sobre a própria importância. Impressionam-me pessoas capazes de reconhecer outras pessoas, de compartilhar, agradecer, admirar, aprender e amar sem pedir autorização às convenções. Quanto mais conheço o mundo e quanto mais estudo, mais percebo quanto ainda tenho para aprender. E quanto mais vivo, mais compreendo que o coração também possui sua inteligência.

Talvez por isso eu continue escolhendo o amor. Não aquele que obedece a manuais, expectativas ou conveniências, mas o que nasce verdadeiro e encontra sua própria maneira de existir. Em uma sociedade cada vez mais fascinada pelas aparências e pelas regras sobre como devemos sentir, ser genuinamente humano — e ter coragem de amar de acordo com o próprio coração — talvez seja uma das formas mais bonitas de liberdade.

Bayard Boiteux é  escritor, pesquisador, professor universitário e luta diariamente pela Democracia e Diversidade  www.bayardboiteux.com.br

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