Amazônia registra redução de 41,8% na área desmatada e Cerrado, de 23,8%; avanço amplia o debate sobre fiscalização, planejamento territorial e o papel da gestão ambiental nas decisões econômicas
O Brasil encerrou o ciclo de monitoramento de agosto de 2025 a julho de 2026 com uma redução expressiva do desmatamento nos dois maiores biomas florestais e savânicos do país. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em 16 de outubro, a Amazônia Legal registrou 3.335 quilômetros quadrados de área desmatada, queda de 41,8% em comparação com o período anterior. No Cerrado, a supressão de vegetação nativa recuou 23,8%, passando de 7.235,27 para 5.516,69 quilômetros quadrados. Ambos alcançaram os menores índices de suas séries históricas.
O resultado representa um avanço relevante para a política ambiental brasileira, mas não encerra o problema. Mesmo com a redução, milhares de quilômetros quadrados de vegetação nativa foram perdidos em apenas um ano, e a distribuição territorial dos registros mostra que a pressão sobre determinados estados e regiões permanece elevada. A questão agora é compreender como sustentar a trajetória de queda, fortalecer a capacidade de resposta das instituições e evitar que os ganhos registrados se tornem temporários.
A discussão tem implicações que vão além da conservação dos ecossistemas. A gestão do território influencia a expansão agropecuária, a implantação de infraestrutura, o desenvolvimento imobiliário e a segurança dos investimentos. Para empresas e governos, o desafio é conciliar atividade econômica, cumprimento da legislação e proteção dos recursos naturais em um ambiente no qual as decisões precisam considerar riscos ambientais cada vez mais complexos.
A engenheira ambiental Jamili Naiara Pereira de Souza, profissional com 18 anos de experiência entre a administração pública e a iniciativa privada, acompanha essa relação a partir de uma trajetória que inclui gestão ambiental municipal, consultoria técnica, licenciamento de empreendimentos de grande porte e presidência da Fundação do Meio Ambiente de Camboriú, a FUCAM, função que deixou posteriormente em razão de sua mudança para os Estados Unidos.
Na avaliação de Jamili, o avanço dos indicadores precisa ser acompanhado por uma mudança na maneira como a gestão ambiental participa das decisões públicas e privadas. “A redução do desmatamento é um resultado importante, mas a efetividade de uma política ambiental não pode ser medida apenas pelo número divulgado ao final do período. É preciso entender o que permitiu essa redução, identificar onde a pressão continua e garantir que as ações de prevenção e fiscalização tenham continuidade”, afirma.
Os números nacionais escondem desafios regionais distintos
A queda registrada pelo INPE não ocorreu de maneira uniforme. Na Amazônia Legal, o Pará apresentou a maior área desmatada, com 1.130 quilômetros quadrados, seguido por Mato Grosso, com 849 quilômetros quadrados, e Amazonas, com 525 quilômetros quadrados. Embora os três estados tenham registrado reduções expressivas em relação ao ciclo anterior, os números mostram que a concentração territorial do problema continua sendo um fator determinante para a formulação das políticas públicas.
Roraima, por sua vez, registrou uma pequena elevação, de 285 para 286 quilômetros quadrados. A variação é reduzida em termos absolutos, mas ilustra por que a melhora de um indicador nacional não significa que todas as regiões estejam avançando na mesma velocidade. O acompanhamento precisa considerar as características de cada território, as atividades econômicas envolvidas e a capacidade dos órgãos responsáveis de responder às ocorrências identificadas.
No Cerrado, o cenário também apresenta diferenças importantes. Maranhão e Tocantins registraram as maiores áreas de supressão, com 1.718,59 e 1.263,06 quilômetros quadrados, respectivamente. Junto com Piauí e Bahia, os dois estados integram o Matopiba, região de expansão agropecuária que concentrou 74,3% do desmatamento identificado no bioma durante o período.
Essa distribuição evidencia uma das principais dificuldades da gestão ambiental brasileira: desenvolver respostas adequadas às diferentes dinâmicas territoriais. Áreas submetidas à expansão da fronteira agropecuária enfrentam pressões distintas daquelas observadas em regiões de crescimento urbano ou implantação de grandes obras. Uma estratégia eficiente precisa combinar monitoramento nacional com capacidade de atuação local, considerando os fatores que impulsionam a perda de vegetação em cada contexto.
Para Jamili, esse é um dos pontos centrais do trabalho técnico. “Não existe uma única resposta capaz de resolver todos os problemas ambientais. É necessário compreender a realidade de cada região, avaliar as características da ocupação do território e identificar quais medidas são mais adequadas. Sem esse diagnóstico, corre-se o risco de estabelecer metas gerais sem enfrentar as causas que mantêm a pressão sobre determinadas áreas”, observa.
A experiência profissional da engenheira inclui diferentes perspectivas dessa relação. Ela iniciou a carreira na gestão ambiental municipal ainda durante a graduação, passou por funções de direção em Camboriú e Balneário Camboriú e, posteriormente, empreendeu na área de engenharia e consultoria. Em 2025, retornou ao serviço público como presidente da FUCAM. A passagem por ambientes distintos ampliou seu contato com os desafios de aplicar normas, organizar procedimentos e conciliar interesses econômicos com responsabilidades ambientais.

Fiscalização é indispensável, mas precisa funcionar junto com prevenção
O monitoramento por satélite permite identificar alterações na cobertura vegetal e direcionar a atuação dos órgãos ambientais. No entanto, detectar o desmatamento não equivale a impedir sua continuidade. A efetividade do sistema depende da capacidade de transformar alertas em providências, aplicar a legislação e acompanhar os resultados das ações realizadas.
A estratégia federal de prevenção e controle do desmatamento combina monitoramento, fiscalização, ordenamento territorial e estímulo a atividades produtivas sustentáveis. Entre os instrumentos estão o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm, e o plano voltado ao Cerrado, o PPCerrado, ambos restabelecidos em 2023.
Essas iniciativas procuram articular diferentes frentes de atuação, mas sua execução exige coordenação entre órgãos federais, governos estaduais e municípios. A continuidade administrativa também é decisiva, porque políticas ambientais envolvem processos de longo prazo, que não se encerram com um ciclo de monitoramento ou uma mudança de gestão.
Além da fiscalização, a prevenção depende de informações territoriais confiáveis, planejamento do uso do solo e capacidade institucional para acompanhar atividades econômicas. A responsabilização por infrações é necessária, mas não substitui medidas que permitam identificar riscos antecipadamente e reduzir as condições que favorecem a degradação ambiental.
“Fiscalizar é fundamental, mas a gestão ambiental não pode funcionar somente depois que o problema acontece. O planejamento territorial, a análise dos impactos e o acompanhamento das atividades precisam fazer parte da rotina das instituições. Quando a prevenção é tratada como prioridade, existe mais possibilidade de evitar danos e direcionar os recursos públicos para ações efetivas”, afirma Jamili.
A continuidade dessas medidas depende também da estrutura disponível para executá-las. Equipes qualificadas, recursos, procedimentos claros e integração entre instituições são condições importantes para que as políticas produzam efeitos concretos. Sem esses elementos, mesmo instrumentos bem formulados podem enfrentar dificuldades na implementação.
A gestão ambiental também influencia a segurança dos investimentos
A discussão sobre desmatamento costuma ser associada à conservação da biodiversidade e à proteção climática, mas seus efeitos alcançam diretamente a economia. A maneira como o território é ocupado e os recursos naturais são utilizados pode influenciar a viabilidade de empreendimentos, a segurança regulatória e a relação das empresas brasileiras com compradores e investidores.
Na construção civil, na infraestrutura, na energia e na agropecuária, por exemplo, a avaliação ambiental pode interferir na escolha de áreas, na elaboração de estudos, nos procedimentos de licenciamento e na organização dos cronogramas. Quando essas questões são consideradas tardiamente, ajustes podem gerar retrabalho, custos adicionais e mudanças em decisões que já envolvem capital, contratos e fornecedores.
A experiência de Jamili na iniciativa privada oferece uma perspectiva prática sobre esse processo. Por meio da JWJ Engenharia e Consultoria, ela trabalhou com projetos, estudos ambientais e licenciamentos relacionados a loteamentos e empreendimentos de grande porte. Esse contato permitiu acompanhar como as exigências ambientais se relacionam com as decisões de quem precisa estruturar um projeto e assegurar sua conformidade com a legislação.
“Quando a análise ambiental acontece desde o início, o empreendedor consegue compreender melhor as condições do terreno, as exigências aplicáveis e os riscos que podem interferir no projeto. Quando essas questões ficam para o final, algo que poderia ter sido planejado pode se transformar em atraso, custo adicional ou necessidade de rever decisões importantes”, explica.
Essa antecipação não significa flexibilizar regras para acelerar investimentos. Significa incorporar as condições ambientais à análise técnica e econômica antes que as decisões estejam consolidadas. Estudos consistentes, documentação adequada e comunicação clara entre empresas e órgãos públicos podem tornar os processos mais previsíveis, preservando o rigor necessário à proteção ambiental.
A questão também tem relação com a governança corporativa. Empresas que identificam riscos, definem responsabilidades e acompanham seus impactos possuem melhores condições de organizar decisões e demonstrar conformidade. Em cadeias produtivas expostas a exigências de rastreabilidade e comprovação de origem, a qualidade das informações ambientais pode influenciar a confiança de parceiros comerciais e o acesso a mercados.
Sustentabilidade não se resume a metas ou declarações públicas
O avanço da agenda ambiental também ampliou a cobrança por coerência entre compromissos institucionais e resultados verificáveis. Relatórios, metas e declarações públicas podem contribuir para a transparência, mas precisam estar associados a procedimentos capazes de demonstrar o que foi efetivamente realizado.
O problema aparece quando a comunicação ambiental se distancia das práticas operacionais. A divulgação de iniciativas sem critérios claros de acompanhamento pode produzir uma percepção de avanço que não corresponde aos impactos reais. Por isso, a governança ambiental exige indicadores consistentes, responsabilidades definidas e disposição para corrigir falhas.
Na administração pública, a mesma lógica se aplica à avaliação das políticas. A redução dos índices de desmatamento é um dado relevante, mas precisa ser acompanhada por informações sobre a distribuição territorial dos registros, as medidas adotadas e a evolução dos resultados. A qualidade da gestão depende da capacidade de utilizar esses dados para ajustar prioridades, identificar fragilidades e aperfeiçoar a execução.
A atuação de profissionais especializados é importante nesse processo, mas o conhecimento técnico precisa estar conectado às decisões administrativas. Questões ambientais envolvem planejamento, legislação, infraestrutura, atividade econômica e interesses coletivos. Quando essas áreas trabalham de maneira isolada, aumenta a possibilidade de que informações importantes não sejam consideradas no momento adequado.
“Uma política ambiental precisa ser avaliada pelo que consegue produzir na prática. Os indicadores são indispensáveis, mas devem orientar decisões, permitir correções e ajudar a identificar onde ainda existem dificuldades. A gestão não termina quando uma meta é anunciada ou quando um resultado positivo é divulgado”, avalia Jamili.
Essa visão reforça a importância de integrar planejamento, execução e acompanhamento. Para empresas, significa considerar os impactos ambientais ao longo de toda a operação. Para o poder público, envolve manter capacidade técnica, transparência e continuidade das ações. Nos dois casos, a responsabilidade ambiental precisa fazer parte das decisões cotidianas, em vez de permanecer restrita a documentos ou campanhas institucionais.
O próximo desafio é sustentar os resultados
Os menores índices históricos registrados na Amazônia e no Cerrado representam um marco relevante para o Brasil, mas a permanência dessa tendência dependerá da capacidade de manter as políticas de prevenção e fiscalização, responder às pressões territoriais e assegurar que as instituições continuem preparadas para executar suas responsabilidades.
Os dados mostram avanços importantes, mas também apontam onde a atuação precisa permanecer concentrada. A perda de vegetação nativa continua significativa, e as diferenças entre estados demonstram que uma redução nacional não elimina a necessidade de respostas específicas. A continuidade do monitoramento será essencial para avaliar se a queda se mantém e quais fatores precisam ser enfrentados para aprofundar os resultados.
Para o setor empresarial, o cenário reforça que a gestão ambiental deve integrar o planejamento de investimentos, a avaliação de riscos e a organização dos processos produtivos. Para a administração pública, evidencia a importância da coordenação institucional, da qualidade técnica e da continuidade das políticas. Em ambos os casos, os resultados dependem de decisões fundamentadas e da capacidade de transformar diretrizes em ações concretas.
A trajetória de Jamili Naiara Pereira de Souza atravessa diferentes dimensões desse debate, da gestão municipal à consultoria e ao licenciamento de empreendimentos. Sua experiência permite observar como a responsabilidade ambiental se relaciona com decisões administrativas e econômicas, sem reduzir a preservação a um obstáculo ao desenvolvimento.
A queda do desmatamento é um avanço que merece reconhecimento. O teste de sua consistência, porém, virá da capacidade de mantê-la ao longo dos próximos anos e de transformar os indicadores em referência para políticas duradouras, investimentos mais bem planejados e uma relação responsável com os recursos naturais do país.


