“O Melhor Design é Invisível”: Como Conectar Pessoas, Inovação e Negócios de Impacto? Entrevista com o professor e pesquisador Luiz Salomão Ribas Gomez (TXM / UFSC)

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Luiz Salomão Ribas Gomez

Luiz Salomão Ribas Gomez é professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e idealizador do Cocreation Lab e fundador da TXM Methods. Nesta entrevista, o professor e pesquisador traz seu interesse pela interseção entre criatividade, design e mercado para criar novos negócios. Graduado em Desenho Industrial pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Salomão direcionou seus estudos de mestrado e doutorado para a Engenharia de Produção na UFSC, tendo seu doutorado revalidado pela Universidade da Beira Interior (UBI), em Portugal, na área de Engenharia e Gestão Industrial.

Ao longo de sua trajetória na UFSC, coordenou iniciativas pioneiras que transformaram a cultura de inovação no ecossistema catarinense e nacional, como o Laboratório de Orientação da Gênese Organizacional (LOGO) e o projeto Centro Sapiens, focado no desenvolvimento do distrito criativo de Florianópolis. Em 2009, realizou estágio pós-doutoral junto ao UNIDCOM/IADE, em Lisboa, aprofundando pesquisas no tema ‘Brand DNA’, e posteriormente realizou estágio sênior na Saxion University of Applied Sciences, na Holanda, investigando os ecossistemas de economia criativa, inovação aberta e maker spaces.

Atualmente, o professor Salomão é a liderança à frente do Cocreation Lab (metodologia TXM Business), reconhecido como a maior rede de laboratórios de pré-incubação de negócios inovadores da América Latina. Editor da e-Revista LOGO e consultor ad hoc de diversas instituições de fomento e ecossistemas de inovação, acumula vasta experiência na orientação de centenas de novos empreendedores e na formulação de metodologias que conectam o saber científico e criativo às demandas reais do setor produtivo.

À esquerda, está o Prof. Dr. Marcos Costa; ao centro, Prof. Esp. Érika Gadelha; e, à direita, o Prof. Dr. Luiz Salomão. Fonte: Arquivo próprio.

A entrevista com o pesquisador foi realizada presencialmente em 7 de outubro de 2026, nas instalações do Capital Lab, em Brasília, Distrito Federal, e conduzida por dois pesquisadores. O primeiro, Prof. Dr. Marcos Rogério Martins Costa, é doutor e mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio pós-doutoral em Letramento Científico pela Universidade de Brasília (UnB) e atuação em pesquisa pós-doutoral na área de Vigilância Sanitária e Inteligência Artificial, vinculada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). É professor efetivo da Universidade Estadual de Goiás (UEG), colaborador do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Física da UnB e pesquisador nas áreas de linguagem, educação, inovação e tecnologias digitais. Também é sócio-fundador da Escrita com Ciência, iniciativa voltada ao desenvolvimento de competências de escrita acadêmica e científica.

A segunda entrevistadora, Prof.ª Esp. Érika Gadelha, é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Potiguar, especialista em Tecnologia de Alimentos pela Universidade de Brasília (UnB) e mestranda em Biotecnologia na mesma instituição. Possui experiência em gestão ambiental, planejamento estratégico, educação empreendedora e inovação, com atuação na Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal, no Instituto Brasília Ambiental (IBRAM) e como Agente Local de Inovação (ALI) pelo Sebrae-DF. É também sócia-fundadora da Escrita com Ciência e desenvolve atividades relacionadas à gestão pedagógica, à inovação educacional e ao desenvolvimento de projetos. Sua participação na entrevista contribuiu para uma abordagem interdisciplinar, articulando perspectivas das ciências biológicas, da educação e da inovação.

ENTREVISTA

Prof. Dr. Marcos Costa: Conte-nos, por gentileza, Prof. Salomão,  como ocorreu a sua trajetória profissional e o que o levou a integrar o Design com a Inovação e o Empreendedorismo Criativo, observando a evolução desses conceitos no Brasil e no exterior.

Luiz Salomão Ribas Gomez: A minha trajetória sempre foi pautada pela busca de conexões entre a prática do projeto e o impacto real na sociedade. Santa Catarina construiu uma tradição muito forte nas áreas de design, materiais e desenvolvimento industrial. Quando observamos o papel do design frente à inovação, percebemos que houve uma mudança conceitual profunda nas últimas décadas.

Eu costumo compartilhar uma reflexão que sintetiza a minha visão: o melhor design é aquele que não é notado, é aquele que se torna imperceptível no cotidiano. Almoçando recentemente com um designer de sinalização em Brasília, ele comentou que, quando ninguém reclama, nem elogia uma placa, é porque o trabalho de sinalização cumpriu perfeitamente sua função. O design eficiente integra-se de tal forma à vida das pessoas que se torna invisível. Da mesma maneira, a inovação precisa fazer parte do cotidiano natural. Quando a inovação se posiciona de forma ostensiva ou espalhafatosa, ela gera percepção de perigo, estranhamento e rejeição. Veja o exemplo da Inteligência Artificial: como ela se apresentou de forma muito perceptível e alardeada, gera receio de que vai dominar o mundo. Se ela transformasse o cotidiano sem essa ostentação, seria muito mais efetiva e causaria menos atrito.

Trazendo isso para os novos negócios, a inovação deixou de ser um mero diferencial para se tornar uma condição de sobrevivência. No passado, ter qualidade era um diferencial; hoje, se você não tiver qualidade, nem entra no mercado. Com a inovação ocorre exatamente o mesmo. O grande erro que testemunhei nos últimos 20 ou 30 anos foi a tentativa de fazer do design o protagonista isolado do processo. O design não pode ser o protagonista; ele deve ser um grande personagem, um estruturador. Quando o design busca o protagonismo e a inovação é tratada apenas como rótulo mercadológico, surgem os factoides — empresas supervalorizadas no papel que não possuem inovação real por trás e acabam ruindo.

Ao meu ver, o design é o elo que aproxima o ser humano do resultado técnico e o resultado técnico do ser humano. O seu papel estratégico não é buscar o protagonismo isolado, mas atuar como o grande produtor de Mínimos Produtos Apaixonantes (MLPs).

Profa. Esp. Érika Gadelha: Professor, de que maneira o design atua no desenvolvimento prático de produtos e serviços? Como surge o conceito de Mínimo Produto Apaixonante (MLP) em contraposição ao tradicional Produto Mínimo Viável, conhecido como MVP?

Luiz Salomão Ribas Gomez: O design atua justamente como a ponte de tradução: ele aproxima o ser humano do resultado técnico e o resultado técnico do ser humano. A técnica pura, sem o olhar do design, permanece distante, fria e de difícil apropriação.

Por isso, afirmo que o design é o grande produtor de MLPs (Minimum Lovables Products ou, em português, Mínimos Produtos Apaixonantes), e não apenas de MVPs (advindo da expressão inglesa Minimum Viable Products). O MVP foca no que é apenas viável e funcional. O MLP vai além: é o produto que funciona, é viável, mas é também amigável, útil e gera uma conexão genuína de paixão com o usuário. Veja o caso da Inteligência Artificial: os algoritmos e modelos matemáticos de IA já existiam há 50 ou 60 anos nas universidades e laboratórios, mas o público leigo não tinha acesso ou interesse. Foi preciso o design intervir e criar a interface conversacional do ChatGPT, uma interação homem-computador simples, intuitiva e amigável, para que a tecnologia se tornasse massiva e apaixonante. Esse é o verdadeiro poder transformador do design. Como se vê, o design traduz o que o produto faz na superfície do invisível.

Prof. Dr. Marcos Costa: A partir de sua vasta experiência à frente do Cocreation Lab e da TXM Methods, quais são os principais gargalos enfrentados pelos empreendedores na fase de pré-incubação no Brasil?

Luiz Salomão Ribas Gomez:  A rede Cocreation Lab hoje está presente em diversos estados brasileiros, e o que percebemos é que as dificuldades do empreendedor no Brasil são muito homogêneas. Existe por vezes um marketing excessivo em torno de determinados ecossistemas, fazendo parecer que em alguns lugares tudo é mais fácil. Em Santa Catarina, por exemplo, temos a vantagem de ter o ecossistema “em casa”, mas os desafios estruturais são tão grandes lá quanto em Brasília, no Norte ou no Nordeste.

No Brasil, o empreendedor de fase inicial geralmente precisa “vender o almoço para pagar a janta”. Ele não pode abandonar sua fonte de renda principal porque não dispõe de um investimento anjo ou capital semente adequado para se manter durante a fase de ideação. E aqui reside a pergunta de milhões e a resposta de milhões sobre o fracasso ou o sucesso na pré-incubação: o grande gargalo é que os empreendedores costumam se apaixonar pela sua SOLUÇÃO, e não pelo seu PROBLEMA.

O sujeito cria uma ideia e se convence de que seu produto é a melhor coisa do mundo, que vai resolver todos os males. Quando ele entra em um programa de pré-incubação ou pré-aceleração rigoroso e submete sua ideia a testes reais de validação de mercado, percebe que a solução dele ainda não está validada ou precisa ser totalmente modificada. Se ele for apaixonado pela solução, fica chateado, rejeita as críticas, perde o entusiasmo e abandona o projeto. Por outro lado, se ele for apaixonado pelo problema, ele encara as críticas como dados valiosos, ajusta a proposta quantas vezes forem necessárias e desenvolve um negócio de alto impacto. O segredo é ter paixão pela dor do cliente, não pela ferramenta.

Profa. Esp. Érika Gadelha: Quais características fundamentais uma proposta inovadora deve apresentar para despertar o interesse real de investidores, empresas parceiras e agentes de fomento?

Luiz Salomão Ribas Gomez: Voltando ao ponto central: a proposta precisa ter um problema real devidamente validado. Muitas vezes o próprio público consumidor ainda não tem consciência clara da existência desse problema, mas cabe ao empreendedor demonstrar essa dor por meio de testes empíricos rigorosos. Não existe milagre nem obra do acaso em empreendimentos sustentáveis.

Para atrair investimentos e parceiros estratégicos, o projeto precisa apresentar clareza em quatro pilares vitais, a saber: primeiro, tem que haver validação de mercado, isto é, a prova concreta de que o mercado demanda a solução; segundo, a transparência financeira, porque todo investidor quer o quê? Demonstrativos com precisão do quanto custa para o projeto acontecer e quanto custa para continuar rodando e dando certo; terceiro, um método de execução, ou seja, um processo definido e validado com um cronograma claro de marcos, desenvolvimento e entregas; e quarto, a estimativa de retorno, pois quem investe quer saber quando o dinheiro vai voltar para sua mão e o quanto o monte será maior. Por isso, deve-se ter em mente o seguinte: qual é a projeção realista de retorno para o investidor? E para o cliente pagante?

Para alcançar essa maturidade, o empreendedor precisa de suporte contínuo, capacitação técnica e mentorias qualificadas. Posso citar o exemplo a startup Escrita com Ciência que eu mesmo mentorei. O projeto iniciou com ideias dispersas, dando tiros para todos os lados. A partir de um acompanhamento focado e metodológico, definiram-se objetivos claros e hipóteses testáveis. O projeto foi validado, passou por readequações necessárias e hoje caminha com consistência para o desenvolvimento de novas tecnologias. Nada acontece por acaso; tudo precisa ser pensado, testado e colocado no mercado.

Prof. Dr. Marcos Costa: O senhor frequentemente aborda o conceito da “Era do Nexo” e o profissional “Nexialista”. Qual é o papel da cocriação e da diversidade no ecossistema de inovação?

Luiz Salomão Ribas Gomez: Para explicar o momento presente, eu gosto de fazer um resgate histórico e recorrer à ficção científica de 1952, no livro A Viagem da Espaçonave Beagle,  de Alfred Elton van Vogt. A trama relata uma expedição interplanetária em que a Terra corre risco e, para salvar a missão, colocam na mesma nave pessoas altamente especialistas e pessoas hiper-generalistas. O resultado foi o caos: os especialistas não conseguiam conversar entre si, pois cada um só entendia do seu nicho, e os generalistas também não se conectavam. A missão só funcionou quando trouxeram um profissional capaz de criar conexões, de estabelecer o nexo, os quais foram chamados: NEXIALISTAS.

Nós vivemos hoje exatamente na Era do Nexo. O mercado está saturado de hiper-especialistas isolados em suas bolhas. O profissional mais requisitado e valioso do século XXI é o nexialista: aquele indivíduo que consegue realizar pontes entre diferentes campos do conhecimento. Ele pode ser um especialista que aprendeu a fazer conexões amplas ou um generalista que domina a capacidade de articulação.

Por meio de metodologias de design, workshops imersivos e trabalho colaborativo, o Cocreation Lab promove exatamente essa sinergia. Juntamos a competência técnica em linguagem e programação de um pesquisador, com a capacidade de interação humana de um designer e a força de articulação política e empresarial de um gestor. Sem a cocriação e essa diversidade de olhares, é impossível transformar ideias em produtos complexos com real valor de mercado.

Prof. Esp. Érika Gadelha: Como as universidades, governos e empresas podem se articular melhor para acelerar o desenvolvimento tecnológico e o financiamento de novos empreendimentos?

Luiz Salomão Ribas Gomez:  Como ensinava a estratégia clássica evocada por Maquiavel, é preciso “dividir para conquistar”. Mas nos ecossistemas de inovação contemporâneos, dividir não significa separar ou isolar, mas sim dividir domínios de conhecimento para somar competências complementares. A universidade não pode querer fazer o papel da empresa, e o governo não deve tentar gerir a inovação diretamente.

A universidade traz a pesquisa científica de ponta, o método e o rigor; o setor produtivo traz a leitura das dores reais do mercado, o alcance comercial e a capacidade de investimento; o governo entra com a infraestrutura, marcos regulatórios e políticas públicas de incentivo. Quando esses três vértices, à partir de pessoas, se conectam de forma harmônica, criamos um ambiente fértil para a tração de novos negócios.

Prof. Dr. Marcos Costa:  Estamos chegando ao final de nossa entrevista e nós queremos que o senhor deixe, aqui, uma mensagem, ou talvez, alguns conselhos para os nossos leitores que estão iniciando suas carreiras como empreendedores, designers ou pesquisadores?

Luiz Salomão Ribas Gomez: Eu gostaria de deixar duas recomendações fundamentais que sintetizam décadas de experiência em orientação acadêmica e empresarial.

Em primeiro lugar: NUNCA TRABALHE SOZINHO. O tempo do inventor solitário fechado em uma oficina acabou. O sucesso nos dias de hoje depende intrinsecamente de trabalhar em rede, estabelecer conexões multidisciplinares e promover o trabalho colaborativo.

Em segundo lugar: TENHA UM ÓTIMO MENTOR. E quando digo mentor, não estou me referindo a esses “coaches de internet” que cobram fortunas para vender fórmulas mágicas e superficiais. Refiro-me ao mentor real, àquela pessoa com história de vida, trajetória consistente e bagagem acumulada. Um bom mentor é aquele que ajuda você nas horas difíceis, que aponta onde você está errando com base nos erros que ele próprio já cometeu no passado, e que orienta com generosidade. Tenha a humildade de buscar esse mentor e, acima de tudo, tenha a sabedoria de ouvi-lo.

Se você se apaixonar pelo problema real do mercado, não trabalhar sozinho e contar com a orientação de um bom mentor, sua ideia certamente se transformará em um grande negócio sustentável. Trabalhem, portanto, com seriedade, dedicação e paixão. Enfim, façam o design de seu sucesso fazendo o invisível se tornar incrível!

Entrevistado e entrevistadores. Fonte: Arquivo próprio.

Foto Capa: Prof. Dr. Luiz Salomão no Capital Lab, Brasília-DF. Fonte: Arquivo próprio.

SAIBA MAIS

Para conhecer as iniciativas, metodologias e instituições vinculadas ao ecossistema de inovação e empreendedorismo científico, acesse:

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Marcos Rogério Martins Costa
Marcos Rogério Martins Costa é doutor e mestre em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), com dois estágios pós-doutorais em letramento científico pela UnB e em uso de inteligência artificial na Vigilância Sanitária pela Fiocruz. Professor efetivo da Universidade Estadual de Goiás (UEG), atua na interseção entre linguagem, educação e tecnologia, com ênfase na aplicação da IA à produção do conhecimento. É sócio-fundador, cotista, da edtech Escrita com Ciência, dedicada à formação acadêmica e ao desenvolvimento de competências para o século XXI, e já contribuiu para a captação de mais de R$ 10 milhões em recursos de subvenção para projetos educacionais, científicos e tecnológicos no Distrito Federal e em outros estados. Integra a Academia Contemporânea de Letras (cadeira 21, patrono Érico Veríssimo) e a Academia Nacional de Ciências, Letras e Artes – ANACLA (cadeira 7, patrono José Saramago), desenvolvendo pesquisas em análise do discurso, semiótica e impactos da inteligência artificial na sociedade. Em sua coluna, aborda tecnologia, inovação e educação com olhar crítico e orientação para transformação.

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