Clínicas e consultórios perdem meses, e pacientes, por falhas que acontecem antes de o pedido chegar à operadora. A especialista Rebeca Noag aponta os sete erros mais comuns e como evitá-los.
O credenciamento é a porta de entrada para um mercado de 53,1 milhões de beneficiários de planos médico-hospitalares, segundo a ANS. Mas, para a operadora, credenciar é decisão de rede: ela abre vaga onde falta oferta e fecha onde a rede está saturada. O pedido bem instruído entra na análise; o pedido com falha vai para o fim da fila e, muitas vezes, nem recebe resposta.
Segundo a especialista Rebeca Noag, sócia fundadora e CEO da Clínica Servir e mentora de donos de clínicas em todo o Brasil, o primeiro erro é de mentalidade. “A operadora não está avaliando se o profissional é bom. Ela avalia se o pedido chegou completo e se precisa daquele prestador naquele endereço. Quem entende isso para de brigar com a burocracia e começa a jogar o jogo dela”, afirma.

CNES desatualizado
Nenhuma operadora credencia nem paga honorários sem CNES ativo e atualizado. O erro clássico: a clínica muda de endereço, pede o credenciamento, e o CNES ainda aponta para o consultório antigo, sem o profissional vinculado ou sem o serviço cadastrado. Qualquer divergência entre o formulário e o CNES trava o pedido. Confira o cadastro antes de qualquer contato com a operadora.
Médico sem RQE
Para se credenciar como especialista, o médico precisa do RQE registrado no CRM. Residência concluída ou título da sociedade, sozinhos, não bastam. Sem RQE, a operadora credencia como generalista ou nega o pedido. Registre o título antes de protocolar; o trâmite no conselho leva semanas.
Escolher a operadora sem olhar a carteira
Cada operadora tem perfil regional. Credenciar-se em um plano com poucos beneficiários na cidade é cumprir toda a burocracia por meia dúzia de pacientes por mês. A ANS publica o número de beneficiários por operadora e município: comece pelas maiores carteiras da região e pela rede menos densa na sua especialidade. “Credenciamento se escolhe com o dado da ANS na mão, não com quem aceita primeiro”, diz Rebeca Noag.
Cadastrar só a PJ, ou só a PF
Clínica precisa dos dois cadastros: o da empresa (CNPJ, contrato social, CNES, conta PJ) e o de cada profissional (registro no conselho, RQE, vínculo no CNES). Só o CNPJ aprovado significa clínica “credenciada” sem ninguém autorizado a atender. Só pessoa física significa carnê-leão de até 27,5% e cada vez menos operadoras dispostas a aceitar.
Assinar o contrato sem ler
Pelo Painel de Indicadores de Glosa da ANS, o tempo médio de pagamento do setor é de 33,6 dias e a glosa inicial, de 7,3% do faturado; entre os hospitais da Anahp, passa de 14%. Antes de assinar, leia a tabela, o valor da consulta, a cláusula de reajuste (exigida pela Lei 13.003/2014), o prazo de pagamento e o rito de recurso de glosa. “Tabela aceita ‘só para começar’ é tabela para o resto da vida. Se a consulta não paga o custo da cadeira ocupada, aquele convênio é prejuízo com agenda cheia”, alerta a especialista.
Tratar a visita como formalidade
A vistoria da operadora, hoje muitas vezes feita por vídeo, confere alvarás, responsável técnico, equipamentos declarados e licenças. Alvará vencido, sala sem o equipamento que consta no formulário e documentação divergente reprovam, e a reprovação custa meses. Só agende quando tudo bater, item por item.
Desistir no primeiro “não”
“Rede suficiente na região” é a resposta padrão, mas não é definitiva: prestadores saem, operadoras ganham contratos em novas cidades e a ANS exige a substituição de quem se descredencia. Protocole, guarde o número, cobre a cada 15 ou 30 dias, peça o motivo da negativa por escrito e reapresente com argumento. “O ‘não’ da operadora tem data de validade. Quem mandou um e-mail e esperou nunca fica sabendo que a vaga abriu”, diz Rebeca Noag.
Depois do “sim”
Credenciada, a clínica troca de problema: faturamento no padrão TISS, guias, autorização prévia, prazo de envio e recurso de glosa. Glosa inicial só vira perda se ninguém recorre. Defina quem fatura, em que dia e quem recorre antes do primeiro paciente de convênio. “Credenciamento sem processo de faturamento é atender de graça com atraso”, conclui.
Rebeca Noag é Sócia Fundadora e CEO da Clínica Servir, Mentora de Donos de Clínicas em todo o Brasil e Autora do Livro Minha Clínica Milionária.


