Não é a primeira vez que um artista latino se apresenta no Super Bowl, a principal celebração esportiva dos Estados Unidos —por isso mesmo transformada, ao longo dos anos, em mastodonte midiático-cultural de alcance global.
Gloria Estefan, J Balvin, Shakira e Jennifer Lopez são alguns dos nomes dessa lista. Bad Bunny, porém, é o primeiro artista que desafia ser latino no principal palco do mundo.
Neste domingo (8), Benito Antonio Martinez Ocasio levou sons, cores e histórias da América Latina a todo o planeta enquanto os Estados Unidos de Donald Trump fazem seu povo de alvo.
O presidente empreende uma das mais repressivas políticas da história moderna mirando essa mesma região, seja operando sua polícia anti-imigração em solo local, seja jogando com sua armada no mar do Caribe.
É nesse palco carregado de simbolismo, enredado pelos canaviais da empresa colonialista, em que surge a audácia do cantor porto-riquenho. Ante ao “Make America Great Again” trumpista, ele subverteu o mote da nação em alto e bom inglês, “God Bless America”, seguido de uma lista de países que formam o continente de norte a sul —Brasil incluso.
A performance girou essencialmente em torno de seu último álbum. Um dos discos mais ouvidos de 2025, laureado como álbum do ano pelo Grammy —primeira vez para um disco cantado em espanhol—, “Debí Tirar Más Fotos” é um tour de force de música pop que conecta o próprio Caribe, sob espírito latino-americano, ao mundo inteiro.
No show de menos de 15 minutos, Bad Bunny encaixou cerca de dez músicas que se equilibram entre os dois polos que domina. Houve a música de pista, de rebolar e perrear, e houve a música de salão, de dançar e agregar —uma festa latina que ele faz com personalidade, sem parecer pastiche, como deveria ser para uma das figuras mais interessantes da música atualmente.
De um lado, o reggaeton. Resultado das circulações sonoras entre Panamá, Jamaica e Porto Rico, o gênero nascido nos anos 1990 é hoje uma das principais forças do pop. Bad Bunny é um dos responsáveis por esse poder todo ao atualizar, com flow e caneta versáteis, uma história formada por nomes como Ivy Queen, Don Omar e Daddy Yankee —cujo hit “Gasolina” apresentou essas batidas ao mundo.
Em seu ataque reguetonero coube muito do universo do som, da rapidez do dembow aos toques da bachata e a palheta estética e discursiva do hip-hop. O artista dançou entre boxeadores e barracas de coco em “Tití Me Preguntó” e, em “Yo Perreo Sola”, festejou na sua “casita” ao lado de outras personalidades do pop latino, como Cardi B e Karol G.
Já a segunda parte do show foi norteada pela salsa. Concebida na Nova York dos anos 1970, ela tinha então a força que o reggaeton teve em seus princípios, ao representar uma comunidade apartada, vista tão somente como força de trabalho.
Com seu conjunto vestido a caráter como grandes bandas salseiras, Bad Bunny cantou “Baile Inolvidable” e “Nuevayol” —renovando a tradição de grandes porto-riquenhos do gênero.
Prova de que entende a salsa também como uma amálgama diaspórica das culturas latinas, o artista ainda levou plena e bomba, gêneros tradicionais de Porto Rico, ao palco. Benito cantou “El Apagón” e “Lo que le Pasó a Hawaii”, músicas que tratam da disputa agrária na ilha, com ajuda do conterrâneo Ricky Martin —minutos depois de uma participação um tanto deslocada de Lady Gaga.
A ausência de participações especiais representativas do reggaeton e da salsa foi o maior senão do espetáculo. Kendrick Lamar conseguiu reunir alguns dos maiores nomes do rap no Super Bowl de 2025. Seria memorável ver nomes como Tego Calderon ou Rubén Blades em um palco deste tamanho.
As faltas não apagam o trunfo do coelho, que estava cercado de gente usando pavas —chapéus do camponês porto-riquenho—, cumprimentou a senhora Toñita —ícone da comunidade porto-riquenha em Nova York— e fez menção a uma criança detida pelo ICE nos Estados Unidos —o pequeno ganhou um dos gramofones do Grammy que Bad Bunny recebeu recentemente.
A chegada do artista ao Super Bowl não é necessariamente um ato de progressismo da NFL. Segundo o levantamento mais recente da Universidade da Califórnia em Los Angeles, latinos correspondem a 20% da população americana e são responsáveis por 30% do crescimento econômico do país. A parcela representa cerca de US$ 4 trilhões, cerca de R$ 21 trilhões, do PIB americano —valor de países como Japão e Índia.
É essa população que busca a liga de futebol americano, assim como os milhões de fãs de Bad Bunny pelo mundo. Os ganhos em audiência, alcance e expansão para a organização são muitos se comparados com os efeitos da postura reivindicativa do artista frente aos mais conservadores. Ao contrário da partida da final, nesse espetáculo todos saíram ganhando.
Quem perdeu mesmo foi Trump, que figurou no show mais como uma sombra de uma história que avança, a despeito dele, na música de artistas como Bad Bunny. Tão logo o espetáculo acabou, o presidente postou um texto raivoso em suas redes sociais. “Ninguém entende uma palavra do que ele está dizendo”, escreveu o presidente, comprovando que, de fato, não entendeu nada.
Fonte ==> Uol


