Como estreante ganhou o prêmio Jabuti com ‘conto de fadas’ – 16/01/2026 – Ilustrada

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Como estreante ganhou o prêmio Jabuti com 'conto de fadas' - 16/01/2026 - Ilustrada

Quando foram divulgados os semifinalistas do prêmio Jabuti, em setembro, o gaúcho Rafael Zoehler clicou na lista só para ver se reconhecia o nome de algum colega de oficina literária. Tomou um susto. Ali estava seu primeiro romance, “As Fronteiras de Oline”, publicado pela independente Patuá.

Demorou para se recompor. Imagine então como foi quando, na grande noite do Jabuti, o romancista estreante de 39 anos ouviu seu nome ser chamado ao palco para receber o troféu, eleito contra nomes mais populares como Raphael Montes e Lorena Portela.

A categoria era romance de entretenimento, uma chancela que não incomoda nem um pouco o despretensioso escritor nascido em Porto Alegre. “Achei a outra categoria muito séria”, diz. “Quando você fala em romance literário, eu penso no ‘Grande Sertão: Veredas’. E meu livro não é isso. Eu chamo de um conto de fadas para adultos.”

“As Fronteiras de Oline”, que também foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, conta a história de um homem cujo trabalho —cuja única e primordial função— é guardar os limites entre países, em uma vida solitária de checagem de documentos e permissões burocráticas.

Severo e bigodudo, ele herdou do pai o posto situado na fronteira entre a Sérvia e o Cazaquistão —que o autor sabe muito bem que não são próximos no mundo real. É o tipo de intervenção esquisita na realidade com que o romance brinca o tempo todo.

Certo dia, Oline tem o impulso de jogar, com toda a força, uma pedra que pertence a um país no território do outro. E aí se desespera. Sai em busca daquela rocha em um périplo alucinado que o transforma num viajante involuntário pelos cenários mais inventivos, do salar de Uyuni na Bolívia aos fiordes noruegueses, de um ritual de ayahuasca na Amazônia à sala de um oráculo grego.

“Eu tinha uma lista de países e coisas curiosas”, conta Zoehler. “Quando esbarrava em algo, pegava um post-it e grudava na parede. Aí eu conseguia ir montando a história, daqui ele vai para lá, daqui ele vem para cá. O livro foi andando pelos lugares que eu achava mais legais ou divertidos.”

Quem espera um comentário pernóstico sobre geopolítica ou imigração não vai encontrar nem no livro nem no autor. Zoehler não sente que é apropriado entrar em assuntos sérios que não domina. Na entrevista, pede desculpas com frequência caso algo que disse tenha “parecido idiota”.

A postura humilde torna mais surpreendentes os capítulos sublimes do livro, como o encontro do protagonista com o Refugiado, por exemplo. O homem sem nome conta a Oline que o lago onde mora “também era, em partes, um fugitivo”, já que resultou do choque de um “meteorito que escapou dos céus”.

“O meteorito foi destruído com o impacto e se tornou poeira, que se misturou com a terra, que se misturou com a água, que se tornou parte do todo. Talvez, se eu ficar aqui tempo o suficiente, também me aceitem como parte de algo, disse o Refugiado.”

Ou o capítulo em que Oline fica sabendo que, após um movimento geológico inesperado, uma das Coreias decidiu mudar de nome para Coreia do Oeste —e a outra declara guerra, porque não quer trocar para Coreia do Leste. Seria muito caro mudar todos os registros oficiais.

O romance é um compilado de levezas e despretensões como essas, histórias humanas sobre o que é viver em um mundo que tenta botar regra em tudo. Zoehler nunca quis fazer uma obra política. “Começou como um livro sobre trabalho e obsessão, sobre como, se você não tomar cuidado, o trabalho vira toda a sua vida.”

Quando Oline sai de seu posto, todo um mundo insólito se abre aos seus olhos. E dá para dizer que algo parecido aconteceu com o autor, que se formou em engenharia em Manaus, capital onde passou a juventude. Entendeu rápido que trabalhar como engenheiro não era para ele. “É muito rígido, é muito horário, é muita regra. Entrei querendo inventar coisas, construir uma ponte, um avião.”

Foi em direção ao marketing e à publicidade. Fez carreira nisso e se mudou para São Paulo, cidade em que nunca tinha pisado, quando apareceu uma proposta tentadora. Morou em um motel enquanto não conseguia trazer a mulher, Raquel, e o filho, Vitor, que tinham ficado no Amazonas.

O garoto tem hoje 19 anos, e “As Fronteiras de Oline” nasceu da vontade do pai de lhe dar um presente de aniversário criado do zero. Já fazia tempo que Zoehler notava que a publicidade também não o preenchia. “Eu escrevo muito para os outros, dependo da aprovação dos outros. Precisava fazer algo para mim.”

Começou a ter ideias para livros em torno de 2015. Escreveu um conto, “Para Quando Eu me For”, que viralizou tanto na internet que produtores gringos compraram os direitos para transformar em filme —o que nunca se concretizou, mas Zoehler embolsou cerca de 2.000 dólares no processo.

A história é sobre um pai que deixa cartas para o filho após a morte, misturando tom sensível com bem-humorado, sementes que se identificam com clareza no vencedor do Jabuti. Com a popularidade do conto, Zoehler achou por bem aprender mais sobre ser escritor.

Fez oficinas com autores como Marcelino Freire, Ronaldo Bressane, Carol Bensimon e Joca Reiners Terron, de quem ouviu máximas que ainda ressoam nele. “A primeira versão de qualquer coisa raramente é palatável”, diz uma. “A gente escreve o livro que a gente pode escrever”, diz outra.

Foram lembretes fundamentais para seguir adiante. Publicou seu primeiro livro, a coletânea de contos “Testado em Animais”, pela Patuá, editora de Eduardo Lacerda conhecida por dar oportunidade a bons escritores de primeira viagem. Um dos contos era sobre Oline, que, quatro anos depois, ganhou um romance só para ele.

Na orelha do livro, Joca Reiners Terron protesta contra os contornos pejorativos que costumam contaminar a palavra “fantasia” e os “livros fantasiosos”. O romance de Zoehler, diz ele, “explora todos os desdobramentos dessa palavra”.

O autor diz que sempre foi, mesmo, leitor de literatura fantástica acima de tudo. Ainda hoje ressalta ter um gosto especial por “livros que não se levam muito a sério”. E, pelo jeito, as premiações estão tomando nota.



Fonte ==> Uol

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