Crítica | RJ
Lilia Restaurante
Quatro estrelas (Muito bom)
R. do Senado, 45, Centro, Rio de Janeiro. @lilia.restaurante
Além da fábrica dos gloriosos biscoitos Globo e de dezenas de antiquários, a rua do Senado, no centro do Rio, oferece boas e variadas opções gastronômicas. Eleita pela Time Out britânica a via “mais cool” do mundo em 2025 (um certo exagero, mas tudo bem), ela abriga desde 2017 um premiado restaurante da cidade: o Lilia —pronuncia-se Lilía.
Manga com farelo de leite queimado, ganache de iogurte, calda de maracujá, gochugaru (pimenta coreana) e suspiro
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Cleo Guimarães/Folhapress
Ele está instalado num sobrado histórico, com fachada discreta e portinha onde a primeira visão é a de uma escadaria íngreme e estreita, pouco convidativa. Releve, a não ser que você tenha problemas de locomoção. O casarão do século 19, infelizmente, não oferece acessibilidade alguma. É encarar os muitos degraus, e vamos que vamos. Vi velhinhos ofegantes ao fim da jornada, preciso dizer.
Em se tratando de comida, o Lilia já é altamente promissor se levarmos em conta o responsável pela cozinha: o jovem chef Yan Ramos, que por dois anos fez parte da brigada do Lasai, um dos cinco restaurantes do Brasil com duas estrelas Michelin.
O preço não chega a ser assustador na hora do almoço. O menu em três etapas sai a R$ 129, mas o valor pode aumentar consideravelmente caso a escolha recaia sobre pratos classificados como especiais. Foi o caso do tartare de cavaquinha com vinagrete de pimentas, ovas de capelin, emulsão de cavaquinha e limão-siciliano (acréscimo de R$ 41).
Esse foi um dos meus pedidos de entrada e nele já deu para sentir a habilidade culinária do chef e seu domínio de técnicas de cozinha. A cavaquinha crua do tartare tem o seu sabor exaltado pelo óleo feito com as suas cascas, e ainda é ladeada por uma emulsão do crustáceo. Finas fatias de rabanetes de três cores diferentes trazem textura e uma elegância cromática ao prato, que tem sua salinidade reforçada pelas ovas.
Fui entusiasmada para outra entrada, pela qual também tive que deixar um cascalho a mais na conta (acréscimo de R$ 38). O polvo grelhado com farofa de pão, emulsão de vôngole, gremolata com talos de cebolinha, de coentro e de salsa, e folha de mostarda. Nota-se o pendor do chef para emulsões e também para a utilização de PANCs, as plantas alimentícias não convencionais, como a folha de mostarda e o almeirão.
Sobre o polvo, ao cortar o tentáculo, ele ofereceu resistência e achei que estaria borrachudo, mas não: era a faca que estava um pouco cega. Ele veio macio, e mais uma vez a crocância apareceu nos detalhes —na gremolata e na farofinha.
Os principais não decepcionaram, e de novo gastei um pouco além (R$ 72) para pedir o que mais me apeteceu: o ancho na brasa com molho de espinafre, batata, pesto de nirá, tomates coloridos e couve. Ruim não estava, mas um pouco pesado, assim como o copa lombo defumado com purê de cenoura e café, brócolis, mini cenouras, pasta de alho assado e almeirão. Saborosos, mas não excepcionais como as entradas.
A sobremesa seguiu a linha criativa do chef. Experimentei o bolo de ameixa com passas, coulis de amora, dill e hortelã, e também a manga com farelo de leite queimado, ganache de iogurte, calda de maracujá, gochugaru (pimenta coreana) e suspiro
São vários ingredientes, e o segredo aqui me parece saber dosar a ousadia para que não briguem entre si. O Lilia consegue fazer isso com rara competência
Fonte ==> Uol


