Enquanto a safra 2026/27 do setor sucroenergético brasileiro se aproxima com início oficial em abril, um deslocamento estratégico no mix produtivo já se desenha com nitidez entre os grandes players da indústria: o etanol, mais do que o açúcar, virou protagonista das estratégias das usinas. A nova realidade reflete tanto condições de mercado quanto mudanças regulatórias que estão transformando o papel do biocombustível na matriz energética nacional. Mas o mesmo tamanho da safra que abre a oportunidade carrega um risco importante: o de que o excesso de oferta, capitalizado em etanol, corroa os preços que tornam o biocombustível atrativo.
UMA SAFRA GUIADA PELO ETANOL
Nas projeções das principais consultorias do agronegócio, a moagem da próxima temporada deve situar-se na faixa de 615 a 629 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no Centro-Sul a SCA Brasil estima 629 Mt, a Pecege Consultoria projeta 628,6 Mt, e a StoneX aponta 620,5 Mt, todas convergindo para o que seria a terceira maior safra da história. Nesse volume, o etanol hidratado e anidro de cana deve representar mais de 51% do mix industrial, com a Pecege estimando produção de etanol de cana em 26,5 bilhões de litros para 2026/27. Somando-se o etanol de milho, cuja participação no mercado doméstico deve alcançar 11 a 11,4 bilhões de litros no ciclo, a oferta total nacional pode superar 37 bilhões de litros na próxima temporada.
Esse reposicionamento não é por acaso. Nos mercados de arbitragem, a remuneração do etanol hidratado está atualmente 30% acima da paridade de preço do açúcar nos contratos negociados na Bolsa de Nova York um diferencial histórico e incomum, já que nos últimos anos esse prêmio oscilou entre 10% e 15%, raramente ultrapassando 20%, segundo Maurício Murici, analista da Safras & Mercado. A combinação de estoques de etanol na entressafra cerca de 30% menores que o mesmo período do ano anterior, com preços firmes acima da média histórica, explica esse diferencial. Em Paulínia, o litro do hidratado (sem impostos) oscilou entre R$ 3,45 e R$ 3,80 em fevereiro de 2026.
O ambiente favorece o mix mais alcooleiro: a SCA Brasil estima que a participação do açúcar no mix recue de 51% para 48% na nova safra. Contudo, um mecanismo financeiro importante atenua essa tendência: muitas usinas travaram preços de açúcar próximos a 19 centavos por libra-peso no quarto trimestre de 2025, via operações de hedge, garantindo rentabilidade superior ao mercado à vista atual onde as cotações caíram abaixo de 14 centavos/lb. Sem essa proteção, parte do setor operaria abaixo do custo de produção, estimado entre 13,50 e 13,80 centavos/lb. Por isso, o mix esperado de 47% açúcar e 53% etanol reflete tanto o apelo do biocombustível quanto o compromisso com contratos já fixados.
DEMANDA INTERNA EM EXPANSÃO: O PAPEL DO ANIDRO
Um dos principais vetores da mudança é a política de combustíveis. A mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, o E30, passou a valer em agosto de 2025, elevando o percentual de 27% para 30%. O impacto sobre a demanda interna é estrutural: a demanda adicional estimada de anidro gerada por esse ajuste regulatório é de 1,85 bilhão de litros por ano, acima da previsão inicial de 1,65 bilhão, segundo análises da Safras & Mercado e do Rabobank. Para 2026, a projeção é de consumo de 14 bilhões de litros de etanol anidro, acima do padrão histórico de 12,5 a 13 bilhões de litros.
O E30 reforça a relevância do anidro como produto de demanda garantida: além de servir como insumo obrigatório na gasolina comercializada em todo o país, ele eleva a demanda agregada por etanol produzido internamente, contribuindo para manter os estoques relativamente apertados mesmo em um cenário de crescimento de oferta.
O DILEMA DO MIX: O RISCO QUE AS PROJEÇÕES ESCONDEM
A maior dor de cabeça da safra 2026/27, como nomeia o RaboResearch, não está nos preços deprimidos do açúcar está no próprio sucesso do etanol. Se a safra atingir 620 Mt ou mais e as usinas migrarem fortemente o mix para o biocombustível atraídas pelo prêmio histórico de 30% sobre o açúcar, a oferta adicional de etanol pode derrubar os preços que tornam essa estratégia atrativa. Com a demanda de combustíveis de ciclo Otto crescendo cerca de 2% ao ano, um aumento de oferta nacional de 9% a 14% gera desequilíbrio relevante. Em 2023/24, um aumento de 14,8% na oferta nacional de etanol provocou queda de 20% no preço médio do hidratado, segundo o Rabobank.
Esse risco é amplificado pelo etanol de milho: a SCA Brasil estima que a produção de milho deva aumentar a oferta em cerca de 4 bilhões de litros adicionais no mercado doméstico a partir da safra 2026/27. A Datagro já projeta queda expressiva dos preços do hidratado em Paulínia: de R$ 3,80/litro na entressafra de fevereiro para cerca de R$ 2,52/litro em maio com o biocombustível se mantendo em torno dessa marca até novembro. Não por acaso, desde dezembro de 2025, o etanol perdeu competitividade frente à gasolina no varejo em todos os estados brasileiros quadro sazonal que tende a se normalizar com o início da safra, mas que antecipa a direção dos preços.
MERCADO DE AÇÚCAR SOB PRESSÃO
O açúcar atravessa ciclo de excedente global persistente. O mercado internacional convive com superávit próximo de 11 milhões de toneladas, cenário que vem pressionando as cotações. Em Nova York, os futuros encerraram 2025 próximos de 15 centavos/lb, queda de cerca de 15% em relação ao fim de 2024. O cenário reduz a atratividade financeira de manter grandes volumes destinados ao açúcar exportável e reforça o apelo do etanol como âncora de rentabilidade. A expectativa é de que o superávit global recue para 6 a 8 Mt em 2027, com potencial de recuperação dos preços para a faixa de 16 a 18 centavos/lb ao longo desse ciclo.
VISÃO DO MERCADO

Márcio Peixoto
Para Márcio Peixoto, executivo veterano com experiência em grandes players do agronegócio como a Usina Coruripe e o Grupo Farias, o momento representa uma transição histórica no setor:
“O setor sucroenergético brasileiro está redesenhando sua produção em função de demandas que vão além das tradicionais. O açúcar já não dita sozinho as estratégias industriais; o etanol, especialmente o anidro, virou uma peça-chave para o equilíbrio comercial e energético. A combinação de volatilidade nas commodities, maior consumo interno e regras como o E30 faz com que a cana seja vista de maneira mais flexível: cada tonelada agora é alocada estrategicamente segundo o melhor retorno disponível.”
Peixoto ressalta ainda que a evolução tecnológica das usinas e a crescente participação do etanol de milho permitem que o Brasil ajuste seu mix com mais agilidade, respondendo tanto às dinâmicas de preço quanto às exigências regulatórias. “A indústria está mais resiliente e orientada pelo valor agregado do produto final”, observa ele. “Mas essa flexibilidade também exige disciplina: o prêmio atual do etanol atrai o mix, mas um volume excessivo pode corroer esse mesmo prêmio ao longo da safra.”
DESAFIOS E OPORTUNIDADES À FRENTE
A safra 2026/27 começa com três riscos estruturais no radar. O primeiro é climático: modelos meteorológicos já apontam nova ocorrência de El Niño, com potencial de irregularidade hídrica nas regiões produtoras do Centro-Sul e impacto sobre a produtividade agrícola da cana. O segundo é de mercado: o excesso de oferta de etanol com a produção de milho crescendo 17,5% e a cana redirecionando mix para álcool pode gerar pressão baixista sobre os preços ao longo da safra, especialmente na segunda metade. O terceiro é financeiro: usinas sem proteção de hedge de açúcar enfrentarão margens mais estreitas em 2026, com cotações abaixo do custo de produção no mercado à vista.
Por outro lado, a consolidação do E30, o crescimento consistente da demanda por combustíveis renováveis, o avanço do RenovaBio como mecanismo de remuneração pela descarbonização e o crescimento da produção de etanol de milho ampliam o espectro de oportunidades de longo prazo. A safra 2026/27 pode ser o palco de uma nova fase em que o Brasil reforça seu papel como protagonista global na bioenergia, desde que o setor gerencie com disciplina o dilema entre capitalizar o prêmio atual e evitar a autossabotagem por excesso de oferta.


