Em seu primeiro longa como diretora, Kristen Stewart faz um mergulho radical na biografia e nos textos de Lidia Yuknavitch. Com uma estética que combina estrutura fragmentária e um olhar sensorial, “Cronologia da Água” conta a história da escritora estadunidense, dos abusos que sofreu do pai à morte da primeira filha, dos relacionamentos amorosos à vida junkie.
Adolescente infeliz em casa, Lidia passa muito tempo na piscina, tornando-se campeã de natação; ao mesmo tempo em que se afunda no álcool e nas drogas, começa a colocar no papel suas experiências. Para a protagonista, escrever e nadar são gestos de sobrevivência, tão fundamentais quanto respirar. Ao tornar-se professora de inglês, Lidia passa a “oferecer palavras”, estendendo seu colete salva-vidas a outras pessoas.
Embora o título do filme e o parágrafo anterior deem uma ideia de linearidade, a narrativa de Stewart é marcada pelos vaivéns da memória. Traumas e sensações do passado não se diluem e seguem repercutindo em momentos futuros. A atriz britânica Imogen Poots entrega-se de maneira impressionante ao papel de Lidia, não apenas parecendo mais jovem ou mais velha, mas transformando-se entre alegria e tristeza, fúria e sobriedade, vitalidade e ruína.
O uso abundante de close-ups, a textura das sequências filmadas em película de 16 mm e as minúcias da banda sonora conferem ao filme uma dimensão quase tátil, como se pudéssemos sentir o encontro da pele de Lidia com a água da piscina, ou o atrito do lápis que tenta dar contorno às palavras que jorram sobre o papel.
Conhecida mundialmente pelo papel de Bella Swan em “Crepúsculo”, Kristen Stewart chega à realização depois de ter atuado com realizadores importantes do cinema de autor, como o francês Olivier Assayas, o chileno Pablo Larraín e o canadense David Cronenberg. Mas a influência desses cineastas não basta para explicar as escolhas de “Cronologia da água”, muito experimental na montagem e na exuberância das imagens.
Considerada por alguns críticos como “maneirista” ou “excessiva”, a radicalidade de “Cronologia da Água” faz sentido diante do mergulho que o filme propõe no livro de memórias de Yuknavitch, ainda sem tradução no Brasil.
Em um de seus contos, a autora manda Virginia Woolf à merda, numa crítica contundente à ideia de que, para escrever, as mulheres precisam de dinheiro e “um quarto todo seu”. E diz preferir outra linha de Woolf, aquela, de seu diário, em que fala que é preciso organizar as peças que surgem no caminho, sem esperar por condições perfeitas para escrever.
Stewart adota, em seu filme, essa lógica de quebra-cabeças presente na literatura de Yuknavitch, herdeira de Woolf da mesma forma que outras escritoras contemporâneas, como a mexicana Valeria Luiselli e a francesa Clara Schulmann. Afinal, a combinação de fragmentos tem a ver com a vida das mulheres, marcada pela interrupção e por ondas criativas em meio a cotidianos de opressão, cuidado, caos. Por outro lado, os planos próximos da pele e de detalhes dos ambientes
buscam traduzir o olhar de Yuknavitch, sempre interessada por coisas mínimas, tão pequenas quanto as palavras.
Extremamente bem-sucedida nessa estreia nada tímida na direção, Stewart faz uma ode à literatura e, através da protagonista, homenageia também a arte da atuação, a entrega de um corpo às palavras de outro.
Fonte ==> Uol


