Em “A Sombra do Meu Pai”, pelo menos duas histórias se superpõem. A primeira diz respeito ao militarismo, que é a essência do legado colonial das nações europeias na África. Aqui, estamos na Nigéria, junho de 1993, logo após Moshood Abiola, mais conhecido como MKO, ter sido eleito à presidência.
Mas a proclamação que se esperava foi abortada por uma declaração dos militares sobre fraude, corrupção etc. Mais ou menos o habitual. É nesse dia fatídico que Folarin, vulgo Kapo —papel de Sope Dirisu, ótimo— viaja com seus dois filhos pequenos da aldeia onde vive a família para Lagos, capital do país, em busca do salário que o patrão lhe deve há quatro meses.
É durante essa viagem que o filme de Akinola Davies Jr. informa o seu espectador sobre o que era o país naquele momento. Vemos a miséria e o mar, as cores, a fé, o parque de diversões, o restaurante popular. Acompanhamos a batalha do homem para receber seus salários num país onde mais ou menos tudo é desarrumado —a começar pela energia—, ao mesmo tempo em que se ocupa dos filhos.
Na verdade, Kapo mora longe da mulher e dos filhos. Não os vê com frequência. E é nessa medida que a história familiar encontra a história política. Kapo espera pelo resultado eleitoral tanto quanto pelo pagamento a que tem direito. Enquanto isso, precisa entreter os filhos. Há o sorvete, a praia e tal.
Mas há, sobretudo, a história da perda do irmão de Kapo, quando ele era pequeno. Momento em que se introduz a magia e certo poder dos pequenos objetos que as pessoas carregam. No caso, um colar que Kapo legará a seu filho maior e que selará a ligação entre as gerações.
A história que o pai conta ao filho precede, claro, o momento traumático em que se anuncia a anulação da eleição e, evento não menos traumático, o filho descobre que o pai tem uma outra mulher em Lagos.
O filme aproxima o documental do dramático. Isto é, por um lado descreve as condições de vida numa Nigéria que anseia pela eleição direta como se ela fosse, em si, determinar o destino nacional. Isto é, existe nisso uma parte de razão e outra de paixão, e ambas remetem à enorme ansiedade pelo fim do governo usurpado pelos militares.
Por outro lado, trata, numa família, dos reflexos do tipo de orfandade em que o país foi deixado pelos colonialistas. A perda do irmão por Kapo é um sintoma marcante dessa ausência de proteção de que as pessoas se ressentem: é como se cada um estivesse entregue a si próprio no ambiente pobre e hostil da ditadura militar.
Não só por isso veremos que os antepassados assombram e lançam luz no presente de seus descendentes. Assim, “A Sombra do Meu Pai” aborda também, ainda que sutilmente, certas transformações culturais que acontecem naquele momento, como a passagem da poligamia do pai de Kapo à monogamia —com amante secreta—, que aliás acompanha a aparente invasão do país por pregadores cristãos.
Não esperemos que esse filme nigeriano com produção basicamente britânica revele um novo Ousmane Sembene ou um Glauber Rocha. Não é disso que se trata. Mas de um filme que nos apresenta um país célebre pela multidão de filmes produzidos precariamente e consumidos avidamente por uma população que até algum tempo atrás pouco ligava para Hollywood. Esses produtos, se circularam por aqui, meio clandestinamente, mas justificaram o nome Nollywood dado à farta produção nigeriana.
Hoje, existe ao alcance dos dedos uma produção Netflix que traz uma visão, para dizer delicadamente, turística desse país que produz petróleo e desigualdade em quantidades industriais e enfrentou um surto de ebola alguns anos antes de encarar a pandemia do coronavirus.
Pode-se dizer que este filme autobiográfico de Akinola Davies Jr. —e de seu irmão e corroteirista Wale Davies— escapa bem da teia Netflix, enquanto consegue associar com desenvoltura o drama nacional nigeriano ao drama familiar de Kapo.
Fonte ==> Uol


