‘Labirinto dos Garotos Perdidos’ une horror e fantasia – 07/06/2026 – Ilustrada

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'Labirinto dos Garotos Perdidos' une horror e fantasia - 07/06/2026 - Ilustrada

O cinema fantástico possibilita uma série de brincadeiras visuais que em outros gêneros poderiam se tornar excessivas. O diretor paulistano Matheus Marchetti já havia mostrado, em filmes de baixo orçamento, um olhar criativo para a construção de imagens instigantes. O fantástico foi justamente sua escola.

“Labirinto dos Garotos Perdidos” é uma espécie de ponto de virada em seu cinema, o momento em que finalmente encontra um público maior, graças à distribuição da plataforma de streaming Filmicca, que começou a exibir seus filmes, ainda que continue trabalhando com orçamento modesto.

O longa tem elementos de horror e fantasia, mas é anunciado e apresentado como uma comédia romântica queer, de encontros desastrados em busca do parceiro ideal. Como sempre em seu cinema, o filme também é muito musical.

Um jovem chamado Miguel, personagem de Giuliano Garutti, chega a São Paulo para o vestibular numa universidade de música. Ele planejava estudar bastante, mas o interesse maior se desloca para outro lugar, e por isso marca encontros por aplicativo.

Nenhum dos rapazes que encontra corresponde ao seu ideal, mas isso ele só descobre depois de um tempo, e continua tentando, pois, como diz, São Paulo é uma cidade em que sempre tem alguma coisa acontecendo.

A cada encontro, Miguel parece envolvido com tipos cada vez mais sinistros, de gostos e caprichos que ele não entende, como se a normalidade, seja lá o que for, não existisse mais nas aventuras amorosas em uma cidade grande.

O primeiro deles, com quem encontrou no aquário da cidade, passa a ignorá-lo depois de pouco tempo, mesmo inicialmente apaixonado. Um outro, vivido pelo próprio diretor, é insuportavelmente pegajoso e leva a mãe para os encontros. Tem ainda o que prefere transar com a ajuda de legumes pontiagudos.

Paralelamente, o que no início parecia sonho vai se tornando cada vez mais real: um assassino em série mata seus parceiros depois da transa, numa espécie de ameaça à homossexualidade. Seria o conservadorismo atual, violento e intolerante, à espreita?

Com esses encontros, de todo modo, o filme adquire aspectos artísticos familiares. Podemos pensar num “Alice no País das Maravilhas” urbano e noturno; em “Parceiros da Noite”, de William Friedkin; e em “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, filmes que, aliás, já foram comparados à fábula de Lewis Carroll.

As soluções visuais continuam sendo o forte do diretor, tanto no uso inventivo do espaço, privilegiando reflexões e composições geométricas, quanto no trabalho com as cores. Tem até um momento típico de Brian De Palma, durante um flerte numa festa, quando a câmera deixa de ser objetiva e se torna subjetiva sem que haja um corte para facilitar a mudança.

Por outro lado, os diálogos em seu cinema sempre foram problemáticos, por vezes até sofríveis, tanto na escrita quando na encenação, um problema que, aliás, afeta boa parte do cinema paulistano há muito tempo —basta lembrar dos diálogos empolados que prejudicavam vários filmes da Vera Cruz.

O modo como esse cinema retrata o jeito de falar de um jovem de classe média paulistana, portanto, não ajuda. O encontro com o rapaz que gosta, literalmente, de um pepino sofre muito com o tipo de entonação do cinema feito em São Paulo.

Não é só um problema para outras regiões, pensando no preconceito que se tem no Brasil com sotaques distintos. É um problema de artificialismo. O filme parece procurar o naturalismo, mas o que ouvimos é o tipo de entonação que só se ouve no cinema ou nas novelas ambientadas na capital paulista. Se for uma busca, torna-se ainda pior. É como falar “tiras” para se referir a policiais.

Evidentemente, é um problema que pode ser atenuado, dependendo do ator ou atriz que estiver em cena. O rapaz estranho que Miguel encontra em cima de uma árvore, por exemplo, tem as falas mais naturais, o que acentua a estranheza do encontro até o final.

Apesar desses problemas, “Labirinto dos Garotos Perdidos” é mais um exemplo de interesse no jovem cinema paulistano. Embora tenha mais acertos e mais problemas que a outra estreia recente, “Love Kills”, indica um bem-vindo interesse na convergência de gêneros distintos.



Fonte ==> Uol

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