Flip 2026: Julieta Correa escreve sobre demência da mãe – 23/06/2026 – Ilustrada

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Flip 2026: Julieta Correa escreve sobre demência da mãe - 23/06/2026 - Ilustrada

Em “Por que São Tão Lindos os Cavalos?”, de Julieta Correa, a demência materna em plena pandemia de Covid-19 é ponto de partida para um embate com as palavras: as perdidas para a doença e as encontradas na tentativa falha de reconstituição dos precedentes do colapso.

Há um desejo de agarrar o presente por meio da escrita, de manter aceso o que insiste em se apagar em cada branco, inclusive o das páginas de quem lê este romance de estreia da escritora argentina, convidada da programação principal da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho. “Um testemunho. Um texto que vai ficando sem palavras.”

A partir de trechos dos cadernos de Sari, a mãe de Julieta —que não só escrevia, como desenhava e fotografava—, de anotações, consultas e exames médicos, diálogos curtos, listas de lembranças, citações, os 19 capítulos do livro são compostos por partes que raramente preenchem a metade de uma página. Ou menos que isso, ao conter, por exemplo, o apelido da protagonista com meras quatro letras ou uma pergunta que, tal como o título, não encontrará resposta.

O primeiro capítulo de “Por que São Tão Lindos os Cavalos?” termina com uma dessas interrogações: “Estamos no fim ou no começo?”.

É um esforço de ordenação que, como é próprio do romance, busca a representação do ser no tempo, sabendo-o de cara irrepresentável. Nós, contemporâneos do surto da pandemia, reconhecemos aquele tempo como nosso, mas ele também é apenas dos membros daquela família portenha em seu isolamento singular: “Sari nasceu em 2 de janeiro de 1963 em Buenos Aires. Agora tem 61 anos e um diagnóstico de demência”.

“Parece que começou outro capítulo, mas os capítulos têm menos relevância agora […]. Chamamos a ambulância”, lemos, para no parágrafo seguinte a noção cronológica confirmar sua falácia. Já não é a primeira ambulância e, na sala de espera de um hospital, vestida para um coquetel de trabalho, a narradora se reconhece “a séculos de distância”.

Quando se contam quatro anos, a narradora que sempre esteve em busca de um tema —”Agora o tema veio e vejam o que o tema fez comigo”— avalia que “se tivesse imaginação, podia ter tirado um romance de todas essas horas”. Ao mesmo tempo, não reivindica o gênero, uma estratégia tanto antiga quanto renovada diante da suposta ausência de enredo e de conflito. “O sentido não se revela porque não existe.”

Diante de sua dura matéria, Julieta Correa faz escolhas formais que, de um lado, honram a mãe, mulher de letras e imagens, que gostaria de ser lida, de outro, mais decisivo, jogam em favor de sua própria criação diante do vivido.

O título “Por que São Tão Lindos os Cavalos?” é retirado de um dos diários de Sari, como lemos em uma das epígrafes. A outra é de “Eisejuaz” (1971), romance brilhante de sua tia Sara Gallardo, em que um indígena alfabetizado em espanhol, com o apagamento de sua língua materna, insiste em enunciar seu não dizer.

Quando a mãe já não reconhece a filha, dá-se ainda um distanciamento oportuno para se pensar a personagem de si, em uma troca de papéis: “Quando vem minha amiga Julieta?”, pergunta Sari. Uma outra, já não identificada com o pronome “eu”.

Destaca-se o uso recorrente, desde a abertura do livro, da primeira pessoa do plural. “Aquela que guarda as lembranças desta família perdeu a memória e, desde então, nos encontramos todos em uma espécie de pausa.”

É uma conjugação que ecoa em situações que passam a ser corriqueiras, como em “vamos tomar banho”, sempre existenciais: “Na verdade, deveria dizer ‘nos perdemos todos’”.

Ou ainda, para voltar à mãe e à filha, sem encerrar as aspas do dizer de um terceiro: “Como as palavras ousam nos dar as costas, a nós duas, que sempre nos sentimos as favoritas?”.



Fonte ==> Uol

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