Apenas Coisas Boas usa sexo para buscar afeto gay no campo – 25/06/2026 – Ilustrada

0
2
Apenas Coisas Boas usa sexo para buscar afeto gay no campo - 25/06/2026 - Ilustrada

Ao cruzar uma estrada na paisagem rural de Catalão, interior de Goiás, Antônio se depara com o corpo de um motoqueiro estirado no asfalto, colorido de vermelho sangue. Ele leva o rapaz para casa, o desnuda e passeia com um pano das feridas em seu ombro aos pelos da virilha.

Em “Apenas Coisas Boas”, a nudez não é castigada. Aquela interação entre os desconhecidos preenche o vazio dos personagens, que passam a protagonizar um amor gay numa parte do país que não costuma servir de cenário para esse tipo de narrativa.

Daniel Nolasco, em seu novo filme, mais uma vez desloca o sexo e o afeto homossexuais dos grandes centros urbanos. Por metade de “Apenas Coisas Boas”, ele acompanha Antônio e Marcelo se banhando nus numa lagoa ou deitando na grama sob o sol, num cenário rural que evoca o faroeste.

“Existe uma recorrência de associar Goiás ao meio-oeste americano. Então eu queria me apropriar desse gênero, construído para reforçar a heterossexualidade masculina, e contar a história de personagens gays. E o faroeste fala desse homem solitário, algo importante para entender quem é o Antônio”, diz Nolasco.

“Apenas Coisas Boas” é tão explícito e parece tão controverso quanto todos os outros trabalhos do goiano. Seu último longa, “Vento Seco”, promoveu uma imersão sensorial ao pôr o espectador num vestiário habituado à prática do “banheirão” —pegação em banheiros públicos— e de uma orgia dominada por calças de couro e máscaras de “pet play” —quando o parceiro simula o comportamento de um cão.

Mas se antes as luzes néon e o troca-troca contribuíam para um ritmo frenético, em “Apenas Coisas Boas” as paisagens rurais e inóspitas ditam o ritmo, marcado por silêncios e takes longos, a fim de ressaltar a solidão de Antônio, isolado pela homofobia ao redor. “Eu precisava me apropriar do tempo da roça para construir o protagonista”, diz Nolasco sobre o dilatamento das cenas.

Nem por isso o diretor abandonou o caráter hiperssexual de sua obra. Na cena em que Antônio e Marcelo consumam sua nova relação, o protagonista observa o forasteiro no banho. Após uma troca de olhares breve e intensa, ele desabotoa a camisa, abre o zíper e vai para baixo do chuveiro.

Ali, estatelado contra a parede, ele recebe um oral de cerca de um minuto —mas não é seu rosto de prazer que câmera enquadra, como é o costume. As lentes se preocupam em registrar o duelo entre seu membro ereto e os lábios do parceiro, numa sequência declaradamente pornográfica.

Gravar cenas do tipo, de sexo não simulado, envolve muito diálogo entre os envolvidos, antes mesmo da ida ao set, diz Nolasco, que não usa coordenadores de intimidade para mediar o enlace de corpos de seus trabalhos. Para ele, cenas do tipo são irrevogáveis, mesmo que isso signifique receber classificação indicativa para maiores de 18 anos.

“Existe uma forma protocolar de mostrar o sexo no audiovisual, e o fato de muita gente fazer dessa forma esvazia a potência que uma cena de sexo poderia ter —para construir personagem, narrativa, atmosfera”, diz Nolasco.

“A gente tem essa mania de desassociar o sexo do afeto. Eu acho que o sexo é um gesto de amor. Contar como esses personagens vão se apaixonar envolve o momento em que eles vão fazer sexo. E se eu estou trabalhando com dois ícones do imaginário erótico gay, o caubói e o motoqueiro, eu preciso abordar a sexualidade de maneira frontal. É uma estética de confronto, de questionamento da sexualidade vigente.”

Mais uma vez, Nolasco espalha menções a Tom of Finland no filme. O finlandês, pioneiro no retrato do sexo gay nas artes, trabalhava principalmente com a figura do “biker” —motoqueiros de bigode e roupas de couro—, mas caubóis, marinheiros e policiais também eram frequentes.

Essa última categoria se faz presente na segunda parte de “Apenas Coisas Boas”, quando Nolasco muda a voltagem do longa para se apropriar de outro gênero ligado ao universo do homem heterossexual, o filme policial.

Nela, Antônio surge mais velho, instalado confortavelmente num belo apartamento, após o desaparecimento de Marcelo. A incerteza quanto ao paradeiro do marido obriga a história de amor a recalcular a rota.

Sai de cena Lucas Drummond, a versão jovem e padrão de Antônio, e entra Fernando Libonat, na versão sexagenária, que, com a guinada de suspense do filme, parece ainda mais entregue aos prazeres da carne.



Fonte ==> Uol

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui