“Perdi o costume de ser pontual na correspondência nas primeiras semanas de casamento porque a gente brigava tanto, e brigava realmente feio, que pensei em economizar tempo e escrever uma carta só para todo mundo depois de concretizado o assassinato ou a separação.”
Eileen O’Shaughnessy, a autora dessa carta, é pouco conhecida na literatura. O marido, por sua vez, é George Orwell.
Os dois foram casados de 1936 até a morte dela, em 1945, por complicações de uma cirurgia de endometriose. A figura da esposa, também escritora, passou décadas enterrada pelos biógrafos de Orwell, mas vem à tona com o livro “A Vida Invisível da Sra. Orwell”, da australiana Anna Funder.
Funder diz, em entrevista por videoconferência, que se atraiu pela forma como o autor do distópico “1984” e do satírico “A Revolução dos Bichos” via os sistemas de poder. Mergulhou na obra de Orwell, nas sete grandes biografias do autor e em sua correspondência. Foi só aí que descobriu Eileen O’Shaughnessy.
As cartas da esposa, que vieram à luz em 2005, estavam endereçadas à melhor amiga dela, Norah Symes Myles.Funder se encantou pelo senso de humor irônico, típico dos britânicos, nas correspondências. E se intrigou também pelo fato de não ter lido sobre a esposa antes.
“Quanto mais eu descobria sobre ela e o papel que ela desempenhou na vida dele, mais eu voltava e relia as biografias. Ficou claro o quanto os autores se esforçaram para deixá-la de fora, como foi deliberado.”
O apagamento beirava o absurdo. Depois que Orwell e O’Shaughnessy se casaram, a escrita dele foi da água para o vinho.
A mudança não passou despercebida pelos amigos dele e até por seu editor, Fred Wahlberg. Os biógrafos creditaram a melhora ao sexo regular que o recém-casado agora fazia. Não entrou na conta que seus manuscritos passaram a ser lidos por uma mulher que estudou literatura em Oxford sob J.R.R. Tolkien.
O’Shaughnessy foi crucial também para tirar Orwell de roubadas. O casal foi para a Espanha durante a guerra civil —ele no front, ela em Barcelona, na sede do Partido Trabalhista Independente. Do escritório, ela escrevia propaganda e cuidava do abastecimento das trincheiras. Oficiais stalinistas espionavam o casal, e coube a O’Shaughnessy conseguir os documentos para que eles saíssem da Espanha.
Em uma longa biografia de 2023, D.J. Taylor diz que O’Shaughnessy foi para a guerra para seguir o marido e garantir que ele recebesse chocolate e cigarros no front. Segundo o biógrafo, a mulher não era uma pessoa politizada.
Nas correspondências, O’Shaughnessy diz que Orwell tinha “notável simplicidade política”. Bernard Crick, outro dos biógrafos do escritor, interpretou o comentário como um elogio à “notável simpatia política” do marido.
A escritora australiana começou a notar que a voz passiva era frequente nessas biografias. “Os vistos foram obtidos, o manuscrito foi datilografado, a refeição foi preparada. Essa é a forma mais comum pela qual tudo o que uma mulher faz é representado sem que uma mulher esteja fazendo.”
Para ela, isso é uma ficção criada para dar a impressão de que os homens fizeram tudo sozinhos.
Embora seja baseada em fatos reais, “A Vida Invisível da Sra. Orwell” mistura ficção às cartas de O’Shaughnessy. Funder coloca, ainda, a própria experiência, imprimindo um tom de ensaio ao livro.
“É uma questão técnica, mas também política. Eu quis mostrar que as questões sobre as quais estou falando não estão terminadas. O patriarcado ainda existe.”
O mecanismo autobiográfico não é novidade para Funder. Em “Stasilândia”, livro de 2003, ela também se costurou à história das pessoas que se mobilizaram pela queda do muro de Berlim.
A autora não espera que o livro seja um acerto de contas com Orwell, muito menos o cancelamento do autor. É, na verdade, uma tentativa de compreendê-lo como uma figura complexa e humana.
“Se George Orwell tivesse sido esse personagem ficcional que os biógrafos e fãs gostariam que ele fosse —um homem honesto, heterossexual, íntegro, um bom marido, uma pessoa simples, bem ajustada—, nunca poderia ter escrito os livros que ele escreveu, nunca teria tido os insights que ele teve.”
Fonte ==> Uol


