“Todos aprendem”: Ângela Mathylde defende uma educação que reconheça as diferentes formas de aprender

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Ângela Mathylde Soares

Neurocientista, pedagoga e psicopedagoga defende que transtornos, síndromes ou dificuldades não devem determinar o potencial de aprendizagem e reforça a importância de uma atuação psicopedagógica científica, ética e individualizada

Uma criança demora mais para compreender determinado conteúdo. Outra precisa que a explicação seja apresentada de uma maneira diferente. Há quem tenha facilidade com palavras e encontre obstáculos diante dos números. Em uma mesma sala de aula, alunos da mesma idade podem percorrer caminhos completamente distintos até chegar ao aprendizado.

Para a professora e pesquisadora Ângela Mathylde Soares, reconhecer essas diferenças deveria ser um dos pontos de partida da educação.

“Eu acredito em uma coisa: todos aprendem. Não existe cérebro descartável, existe sujeito que aprende de maneiras diferentes. É por isso que a Psicopedagogia importa”, afirma.

A frase resume uma ideia que acompanha sua trajetória profissional: a educação pode ser para todos, mas a aprendizagem é singular.

A própria experiência de Ângela ajuda a explicar por que essa discussão se tornou central em seu trabalho. Em sua apresentação profissional, ela relata dificuldades vividas durante a trajetória escolar e conta que somente mais tarde, já avançando nos estudos, recebeu a identificação de dislexia. A partir daí, conhecimento e formação passaram a ocupar um lugar ainda mais importante na maneira como compreende a educação.

Um diagnóstico não determina até onde alguém pode chegar

Transtornos, síndromes e dificuldades de aprendizagem fazem parte da realidade de milhares de estudantes, mas não deveriam funcionar como uma sentença sobre aquilo que uma pessoa conseguirá ou não aprender.

É nesse ponto que Ângela questiona uma educação baseada exclusivamente em comparação.

“Eu não acredito em uma aprendizagem determinada pelo rótulo, pela comparação ou pelo preconceito. Acredito no sujeito, na sua história, nas suas possibilidades e, principalmente, na necessidade de compreender como ele aprende.”

A afirmação desloca a pergunta.

Em vez de simplesmente questionar por que determinado aluno não aprende da mesma maneira que os demais, o olhar passa a investigar como aquela pessoa aprende e quais estratégias podem favorecer seu desenvolvimento.

Tempo, experiências anteriores, aspectos cognitivos, afetivos, sociais e culturais podem participar desse processo.

No trabalho psicopedagógico apresentado por Ângela, avaliação e intervenção consideram justamente diferentes dimensões relacionadas à aprendizagem e às particularidades de crianças, adolescentes e adultos.

A aprendizagem é individual

A defesa de que “todos aprendem” não significa afirmar que todas as pessoas aprenderão o mesmo conteúdo, da mesma maneira ou no mesmo tempo.

Para Ângela, a individualidade precisa ser considerada.

“Cada pessoa tem seu tempo, sua maneira de construir conhecimento, suas experiências e suas singularidades.”

Essa compreensão ganha relevância especialmente diante de estudantes com dificuldades de aprendizagem, transtornos do neurodesenvolvimento, altas habilidades ou outras necessidades educacionais específicas.

Em sua atuação de formação, Ângela trabalha temas como assistência educacional a pessoas com Transtorno do Espectro Autista, altas habilidades e superdotação, diagnóstico psicopedagógico e Programa Educacional Individualizado, além de estratégias de intervenção nos ambientes clínico, escolar e familiar.

A proposta não é diminuir expectativas diante de quem aprende de maneira diferente, mas encontrar caminhos compatíveis com suas necessidades.

Psicopedagogia entre conhecimento e escuta

A Psicopedagogia ocupa um espaço importante nessa discussão justamente por voltar seu olhar ao processo de aprendizagem.

Para Ângela, isso exige mais do que sensibilidade ou boa intenção.

“É justamente aí que está a importância da Psicopedagogia: olhar para a aprendizagem com conhecimento, responsabilidade, ciência e compromisso humano.”

A atuação envolve investigar dificuldades, compreender particularidades e construir estratégias de intervenção. Em sua trajetória, Ângela também tem defendido a aproximação entre Psicopedagogia, Neurociência e outras áreas relacionadas ao desenvolvimento e à educação.

Ela integra a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp) como psicopedagoga titular e aparece entre as conselheiras nacionais da entidade. Também participou da comissão científica do XIII Congresso Brasileiro de Psicopedagogia e VII Simpósio Internacional de Psicopedagogia.

Reconhecimento profissional também entra no debate

Ao falar sobre aprendizagem, Ângela acrescenta outra discussão que considera necessária: o fortalecimento e a delimitação da própria Psicopedagogia.

Para ela, defender a área significa também qualificar a formação dos profissionais e estabelecer com clareza suas responsabilidades e atribuições.

“Minha contribuição para essa área também está nessa defesa: valorizar a aprendizagem, qualificar a prática psicopedagógica e defender o reconhecimento de uma profissão que precisa ter seus limites, responsabilidades e atribuições claramente estabelecidos.”

Essa preocupação aparece também em sua produção acadêmica. Em artigo publicado em 2025 ao lado de Neide de Aquino Noffs, Ângela discutiu Psicopedagogia, vulnerabilidade e desigualdade educacional no Brasil, relacionando a atuação profissional às condições sociais que atravessam os processos de aprendizagem.

A defesa da profissão, segundo ela, não deve ocorrer por meio de uma disputa de espaço com outras especialidades.

“Não queremos ocupar o lugar de ninguém. Queremos ocupar, com responsabilidade, o nosso lugar.”

Uma trajetória dedicada à aprendizagem

A experiência de Ângela Mathylde reúne atuação acadêmica, clínica, institucional e produção de conhecimento.

Ela é pedagoga e psicopedagoga, mestre, doutora e pós-doutora em Estudos Psicanalíticos e também mestre, doutora e pós-doutora em Neurociências, conforme sua apresentação profissional. É CEO do Instituto Professora Ângela Mathylde Soares (IPAMS) e da Clínica Aprendizagem e Companhia – Saúde Integral, além de dirigir o Grupo de Investigação Internacional para a Intervenção Terapêutica na Educação e na Saúde (GI3TES-UE).

Também atua como escritora, palestrante e formadora. Seu site registra a autoria e organização de mais de 80 livros, incluindo coleções, além de sua atuação como colunista do Estado de Minas e editora científica da Revista Inclusão.

A produção acompanha o mesmo tema presente em sua atuação profissional: compreender os diferentes caminhos pelos quais o conhecimento pode ser construído.

Educação para todos, aprendizagem singular

Reconhecer diferenças não significa abandonar objetivos educacionais. Significa compreender que oferecer a mesma estratégia para todos nem sempre representa oferecer a cada pessoa as condições necessárias para aprender.

Uma escola pode ensinar coletivamente e, ao mesmo tempo, reconhecer singularidades. Famílias podem acompanhar o desenvolvimento sem transformar comparações em parâmetros absolutos. Profissionais podem investigar dificuldades sem reduzir uma pessoa ao diagnóstico que recebeu.

É nesse ponto que a frase repetida por Ângela ganha sentido dentro de sua trajetória.

“Todos aprendem. A aprendizagem é individual.”

Para ela, não se trata apenas de uma frase sobre educação.

É uma maneira de compreender quem está do outro lado do processo de aprendizagem: antes do diagnóstico, da dificuldade ou do desempenho, existe uma pessoa com uma forma própria de aprender.

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