Palavra ‘tarifaço’ mostra que a língua não respeita nenhuma fronteira – 23/09/2026 – Caetano W. Galindo

0
5
Palavra 'tarifaço' mostra que a língua não respeita nenhuma fronteira - 23/09/2026 - Caetano W. Galindo

Enquanto donald Trump, doidinho para meter os dedos sujos e curtos na eleição dos outros, decreta cobranças para a importação desta ou daquela mercadoria brasileira, sempre baseado em pouco mais que estranhíssimas noções de soberania e na sua incontornável paranoia, nós ficamos aqui (ou fico eu) pensando na beleza que é a palavra “tarifaço”.

E no que ela pode até demonstrar de esperança.

O sufixo já é interessante. Primeiro porque pode ser enganador. Nem toda palavra que termina com “aço” é parte da mesma família, digamos.

Em algumas (como “sanhaço”) o que aparece é uma versão do tupi “açu”, que quer dizer “grande” e pode até ter tido um papel na popularização brasileira do uso do outro “aço”, derivado do latim “aceus”. (Aliás, é essa raiz latina que explica que a grafia “correta” do sufixo seja com cedilha.)

Como o sufixo latino e o tupi acabaram tendo valores similares, é plenamente possível que o uso de um acabasse intensificando o do outro, gerando a convergência que temos hoje. Pois nem o sentido do tal sufixo é sempre muito claro.

Ele pode ser aumentativo ou intensificador: um “filmaço”. Pode intensificar tanto força quanto qualidade: um “chutaço”. Pode até formar substantivos comuns que nem pensamos mais como aumentativos, como quando o verbo “cansar” gera “cansaço”.

Mas, além dessa história, existe também uma baguncinha ibérica que ficou ainda mais promíscua aqui no Novo Mundo.

Os argentinos adoram o seu sufixo “azo”, e seu uso especialmente futebolístico também ajudou a popularizar o nosso “golaço” (Quiçá como forma de esquecer a ligação com o fantasma do “Maracanazo”).

E eu, cá pra mim, suspeito que um comercial do começo da década de 1980 em que um pneu reforçado com cintas de aço era batizado de “pneuaço” tenha tido algo a ver com a maior difusão do sufixo entre nós. Isso pra nem falar do achado que é o “Abraçaço” de Caetano Veloso!

E, no entanto, a “tarifa” consegue ser ainda mais divertida. A palavra, afinal, é originalmente árabe. Provém de um verbo que significa algo como “informar” e tinha de início um sentido tipo “registro”, “anotação”.

Foi assim que ela se popularizou no Mediterrâneo medieval e logo foi emprestada pela língua italiana, onde passou por uma alteração de sentido, deixando de representar o “registro” de um valor e passando a significar o próprio valor registrado. Não é difícil imaginar essa troca numa frase como “qual é a tarifa dessa compra”?

Partindo desse uso comercial, a palavra ganhou o mundo. Junte-se a ela o nosso sufixaço, e abracadabra.

Um “tarifaço”, portanto, é a atestação de nada menos que a imensa liberdade de comércio e de mobilidade que sempre caracterizou a história dos idiomas humanos, que tendem a ser muito resistentes a legislações e proibições.

Um radical árabe transformado em substantivo novo na Itália, difundido por toda a Europa e, dali, para todo o Novo Mundo, que se encontra aqui em terras brasileiras com um sufixo de sentido e forma variáveis, com um pouco de latim e um molho tupi, além de ter provavelmente passado por influências dos nossos vizinhos do outro lado da tríplice fronteira.

Fronteiras, afinal, são coisas que as palavras, desde que o mundo é mundo, teimam em não respeitar.

E insistem em cruzar sem pagar tributo algum.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Fonte ==> Uol

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui