A nova moeda da economia global:

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Thaïs Arnaut

Durante décadas acreditamos que o poder econômico seria determinado principalmente por tecnologia, capital e produtividade. No entanto, um movimento silencioso vem reorganizando o cenário global. Países, empresas e plataformas passaram a disputar narrativas com a mesma intensidade com que disputam mercados.

Histórias, símbolos e imaginários coletivos, antes tratados como entretenimento, tornaram-se uma infraestrutura estratégica de influência econômica e cultural.

Mas por que histórias passaram a ocupar esse espaço na economia global? Como narrativas culturais se transformaram em um ativo econômico capaz de movimentar bilhões de dólares e influenciar mercados inteiros?

O historiador Yuval Noah Harari costuma afirmar que a capacidade humana de cooperar em grande escala depende da criação de histórias compartilhadas. Em suas análises sobre a evolução das sociedades, ele argumenta que mitos, instituições e narrativas coletivas permitem que milhões de pessoas se organizem em torno de valores comuns e projetos de longo prazo. Em outras palavras, economias não se estruturam apenas sobre contratos, tecnologia ou infraestrutura física — elas também se sustentam sobre imaginários coletivos capazes de orientar comportamentos, expectativas e ambições.

Se histórias têm esse poder de organizar sociedades, o que acontece quando elas passam a movimentar mercados inteiros? Quanto vale economicamente a capacidade de produzir cultura que mobiliza milhões de pessoas ao redor do mundo?

Os números ajudam a responder essa pergunta. Segundo dados da UNESCO, as indústrias culturais e criativas movimentam hoje mais de US$ 2 trilhões por ano e empregam aproximadamente 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Esse ecossistema reúne atividades como cinema, televisão, música, design, editorial, publicidade, videogames, plataformas digitais e a exploração global de propriedade intelectual. Em diversas economias, o crescimento dessas indústrias supera o de setores tradicionais como manufatura e energia, consolidando a cultura como um ativo estratégico de desenvolvimento econômico.

Mas esses números não contam toda a história. O impacto da cultura na economia global é ainda maior quando observamos como ela se conecta a outras indústrias.

Em 2023, por exemplo, a indústria global de entretenimento e mídia ultrapassou US$ 2,8 trilhões, segundo estimativas da PwC, e projeta-se que esse valor ultrapasse US$ 3,4 trilhões até o final da década. Streaming, cinema, música digital e videogames formam hoje um dos maiores sistemas econômicos do planeta. Não por acaso, empresas de tecnologia e plataformas digitais passaram a investir bilhões na produção de conteúdo original, reconhecendo que narrativas são ativos de retenção de audiência, construção de marca e expansão global.

E se a cultura movimenta trilhões, quem realmente controla esse poder de influência? Países, artistas ou plataformas digitais?

Esse debate não é novo. O cientista político Joseph Nye, criador do conceito de Soft Power, argumenta que a influência global de um país não depende apenas de força militar ou poder econômico. Ela depende também da capacidade de projetar valores, símbolos e estilos de vida por meio da cultura. Durante décadas, Hollywood funcionou como uma das ferramentas mais poderosas de projeção internacional dos Estados Unidos, difundindo narrativas que moldaram imaginários sobre sucesso, consumo, liderança e modernidade em praticamente todos os continentes.

Hoje esse poder cultural se tornou ainda mais visível porque pode ser medido em números. O artista Bad Bunny, por exemplo, movimentou em sua última turnê mundial mais de US$ 435 milhões em bilheteria, segundo dados da indústria musical internacional, transformando sua presença cultural em impacto econômico direto para cidades, turismo, publicidade e plataformas digitais. Fenômenos culturais dessa escala geram efeitos em cadeia: aumento de consumo em streaming, vendas de produtos licenciados, crescimento de turismo em destinos associados à cultura pop e expansão de novos mercados para marcas globais.

Mas o alcance da cultura contemporânea não se limita à indústria do entretenimento. Narrativas culturais passaram também a influenciar movimentos políticos, debates públicos e reorganizações geopolíticas. Nos Estados Unidos e na Europa, discussões sobre identidade, valores e pertencimento cultural ocupam hoje o centro das disputas eleitorais e institucionais. Ao mesmo tempo, economias emergentes buscam afirmar sua presença global por meio de novos polos culturais e narrativos. O crescimento da cooperação entre países do BRICS, por exemplo, não envolve apenas comércio e infraestrutura, mas também o fortalecimento de identidades culturais e visões de mundo capazes de disputar espaço simbólico na economia global. Em um cenário internacional cada vez mais fragmentado, cultura e narrativa passaram a desempenhar um papel central na forma como sociedades interpretam poder, liderança e futuro.

O Brasil também começa a experimentar esse tipo de impacto cultural em escala internacional. A música brasileira ultrapassou US$ 2 bilhões em receitas anuais, segundo a IFPI, e tornou-se uma das maiores indústrias culturais da América Latina. O crescimento do streaming musical no país supera dois dígitos ao ano e artistas brasileiros passaram a ocupar posições relevantes em rankings globais de plataformas digitais. Ao mesmo tempo, eventos culturais, festivais e produções audiovisuais passaram a movimentar cadeias econômicas que incluem turismo, tecnologia, publicidade e varejo.

Talvez a pergunta mais interessante seja outra: por que empresas e marcas passaram a disputar esse território cultural com tanta intensidade?

Estudos da consultoria Deloitte indicam que empresas estão migrando parte relevante de seus investimentos de publicidade tradicional para estratégias de conteúdo e storytelling. Em vez de depender exclusivamente de anúncios, muitas marcas passaram a participar diretamente da produção cultural por meio de filmes, documentários, séries e projetos narrativos capazes de gerar conexão emocional com o público. A lógica é simples: campanhas publicitárias vendem produtos no curto prazo, mas narrativas culturais constroem significado e reputação de longo prazo.

A filósofa política Hannah Arendt defendia que a vida pública depende de histórias que deem sentido às ações humanas no espaço coletivo. Em períodos de transformação histórica, sociedades tendem a buscar novas narrativas que expliquem quem somos e para onde estamos indo. Talvez por isso se observe um interesse crescente por histórias sobre liderança, construção institucional e trajetórias capazes de iluminar como indivíduos e ideias moldam estruturas sociais e econômicas.

Durante muito tempo, descrevemos a economia global apenas em termos de inovação tecnológica, capital financeiro e produtividade. Esses fatores continuam fundamentais.

Um novo vetor começa a se tornar evidente: a disputa por narrativas capazes de mobilizar pessoas, mercados e imaginação coletiva.Empresas compreenderam isso. Governos também.

A pergunta que começa a emergir no horizonte econômico é simples: quem contará as histórias que moldarão o próximo ciclo econômico?

Porque, no final, mercados também são construídos a partir de ideias, e ideias quase sempre começam como histórias.

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