Conexões Rápidas, Laços Frágeis: O novo jeito de amar (ou evitar amar)

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foto freepik

Entre relações casuais, ghosting e medo de se envolver, jovens acumulam experiências íntimas, mas cada vez menos vínculos profundos

 “Os jovens querem amar. Mas também querem manter todas as possibilidades abertas. E, no meio desse paradoxo, muitos acabam vivendo uma sucessão de conexões rápidas e laços frágeis”, analisa a psicóloga clínica Laísla Serejo.

Ela fala sobre o tema a partir da escuta no consultório e da observação dos comportamentos contemporâneos nas relações. “O que eu percebo é que hoje existe muito envolvimento íntimo no sentido sexual, mas pouca intimidade emocional de verdade. Muitas pessoas relatam experiências como ghosting e relações extremamente passageiras, o que revela uma dificuldade crescente de construir vínculos profundos.”

Segundo ela, essa é uma das marcas mais silenciosas da geração atual. Ter relações sexuais se tornou mais simples do que dizer “eu gosto de você”. O contato íntimo acontece com facilidade, mas a vulnerabilidade emocional ainda assusta.

“Parece que dizer ‘eu estou gostando de você’ é mais difícil do que se envolver sexualmente com alguém.”

Em aplicativos como Tinder e nas dinâmicas das redes sociais, como Instagram, a oferta de possibilidades é constante. Sempre pode haver alguém mais interessante a um swipe de distância. Diante do primeiro incômodo, da primeira frustração ou desalinhamento, a tendência é partir para outra opção.

O problema é que relações reais exigem negociação. Exigem conversas desconfortáveis. Exigem dizer o que se sente e ouvir o que o outro sente. E essa intimidade emocional tem ficado de lado.

“Laços profundos exigem coragem. Coragem de dizer que gosta. Coragem de negociar. Coragem de atravessar conflitos. E as pessoas hoje parecem não ter mais paciência para construir um relacionamento”, afirma.

Ela observa que muitos jovens acumulam experiências marcadas pela intimidade física, mas têm dificuldade de encontrar alguém com quem possam falar sobre a própria vida, medos, planos e fragilidades. O vínculo corporal acontece. A intimidade emocional, não.

A ideia de que o amor deveria simplesmente acontecer, de forma perfeita e sem esforço, também contribui para a frustração. A psicanalista Ana Suy costuma lembrar que o amor não vem pronto. Ele é parte sorte e parte construção. Sorte para encontrar alguém compatível. Construção para que, juntos, seja possível criar um amor viável para os dois.

Arquivo pessoal

Laísla Serejo

Para Laísla Serejo, existe uma idealização excessiva quando o assunto é relacionamento. “Existe muito essa fantasia de que vamos encontrar alguém que já seja perfeito para nós. Mas pessoa perfeita não existe. O que pode existir é alguém disposto a construir junto uma relação segura, em que você possa ser quem é sem medo de retaliação”, afirma.

O sociólogo Zygmunt Bauman já falava sobre a fragilidade dos laços contemporâneos ao descrever o amor líquido. A socióloga Eva Illouz analisa como o capitalismo influencia a forma como amamos, atravessando o campo afetivo com a lógica do consumo e da substituição. No cenário atual, a ideia de que “sempre pode haver algo melhor” dificulta sustentar o que já está sendo construído.

Para Laísla, não se trata apenas de buscar alguém que queira ficar. “Pessoas que nos fizeram mal também quiseram permanecer. Não é só sobre alguém querer estar com você. É sobre alguém que te faz bem e te respeita.”

No consultório, ela percebe jovens cada vez mais inseguros e descrentes da possibilidade de um relacionamento saudável. O ghosting, prática em que alguém desaparece sem explicação, deixa marcas reais na autoestima. A ausência de encerramento gera dúvidas e autocrítica. O silêncio, muitas vezes, é interpretado como rejeição.

Mais do que culpar aplicativos ou redes sociais, a reflexão é mais profunda. Estamos acumulando experiências íntimas, mas evitando a intimidade que realmente sustenta um vínculo.

Talvez o maior desafio hoje não seja encontrar alguém.

Seja permanecer.

Seja construir.

Seja ter coragem de dizer: eu gosto de você.

Laísla Serejo é psicóloga clínica CRP 02/30722, com atuação da infância à maturidade, orientada pela psicanálise. Pós graduada em Mediação de Conflitos, investiga os vínculos contemporâneos, os atravessamentos do neoliberalismo na vida afetiva e os efeitos subjetivos das relações na era digital. Também atua como consultora de psicólogas clínicas, com foco na construção de uma prática ética, consistente e sustentável.

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