No penúltimo episódio de “História de Amor: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette”, o casal de protagonistas assiste às notícias da morte da princesa Diana, em 1997. Na trama, a cena catalisa uma discussão sobre as consequências nocivas da fama, que assolam tanto Lady Di quanto os personagens.
Mas há outros paralelos possíveis. A minissérie produzida por Ryan Murphy para o FX —no Brasil, no catálogo do Disney+— é uma óbvia tentativa de surfar no êxito que teve “The Crown”, da Netflix, sobre a família real britânica. E é evidente que qualquer tentativa de replicar aqueles dramas de alcova do lado de cá do Atlântico miraria o único clã americano em que isso seria possível, os Kennedy.
O país que se gaba de não se curvar a reis e rainhas nutre uma devoção obsessiva em torno dessa dinastia. Uma dinastia que paira há mais de um século sobre a política dos Estados Unidos e que teve seu ápice quando o jovial JFK dominou os recém-criados debates eleitorais na TV para desbaratar um suado Richard Nixon e garantir a vitória em 1960.
Hoje, o único neto homem do presidente assassinado, o influenciador Jack Schlossberg, de 33 anos, usa sua popularidade nas redes sociais para tentar uma vaga como deputado por Nova York pelo Partido Democrata. Faz oposição dura à atual Casa Branca e tem espezinhado a série de Murphy.
Pária da família, Robert Kennedy Jr. se bandeou para o outro lado e agora comanda a pasta da Saúde com teorias negacionistas. Enquanto isso, seu chefe deu um jeitinho de enfiar o próprio sobrenome no hoje rebatizado Trump Kennedy Center, em Washington. Não é por acaso.
Tragédia e fofoca não faltam para apimentar o interesse em torno dessa família.
O patriarca, Joseph Patrick, era neto de imigrantes que fugiram da fome na Irlanda para engrossar a comunidade católica de Boston. Na geração seguinte, já acumulavam uma fortuna com importação de uísque e, depois, com negócios na área bancária e imobiliária que se espraiaram para a política. Uma verdadeira história de sonho americano. Os detratores, contudo, sempre acusaram o magnata de ter tirado uma boa grana do contrabando de bebida durante os anos da Lei Seca.
Primogênito de seus nove filhos, o militar Joseph Jr. era quem ele desejava um dia ver se tornar presidente. Mas uma explosão no avião que pilotava durante uma missão na Segunda Guerra lhe tirou a vida. Restou ao pai transferir o encargo ao segundo rebento, que na juventude só acumulava problemas de saúde, encrencas na escola e pouca inclinação para a política. Era John Kennedy, o JFK.
O filho que era plano B acabou tendo um governo curto, mas movimentado, marcado pela crise dos mísseis de Cuba, pela malfadada invasão da baía dos Porcos e pela escalada da Guerra do Vietnã. Quando a sala de TV se firmava como núcleo de convivência da família americana, a então primeira-dama Jackie Kennedy abriu as portas da Casa Branca e fez um tour televisionado para mostrar o restauro que empreendia no lugar —o programa foi visto por 80 milhões de pessoas e chegou até à União Soviética.
Hoje, Trump também mantém seus planos de reforma na residência presidencial. Salpicou a decoração com adornos dourados, pavimentou um jardim e demoliu a ala leste para construir um salão de baile ao custo de US$ 400 milhões.
O governo de JFK terminou, como se sabe, com aqueles dois tiros em Dallas que se tornaram um trauma nacional em 1963. Seu irmão Bobby teve um fim parecido, assassinado cinco anos depois, quando era o favorito a levar a indicação dos democratas para disputar as eleições presidenciais de 1968.
O caçula Ted foi o único dos filhos homens que morreu velho, em 2009, um decano no Senado americano, mais símbolo do que força ativa. Nunca conseguiu explicar muito bem o acidente de carro causado por ele e que ceifou a vida de sua suposta amante —mais uma das várias anedotas dramáticas que marcaram o clã Kennedy.
O que nos traz de volta a John Jr., o herdeiro de JFK que morreu após o monomotor que pilotava se chocar com o oceano, em 1999, e matar também sua mulher, Carolyn. Os dois são os protagonistas da série de Ryan Murphy que virou hit de audiência e nas redes sociais.
O drama em si é uma história com quê de Cinderela, embalada pelo minimalismo fashion dos anos 1990. Ele é o partidão, o príncipe sem coroa que falha nos exames da Ordem dos Advogados de Nova York e tenta encontrar o próprio caminho como editor de uma revista política. Ela é a garota descolada, relações-públicas da Calvin Klein que flagra o olhar do solteirão mais cobiçado das galáxias e desmorona quando vê a sua privacidade ser devassada pelos paparazzi.
Tudo ganha aquele filtro típico das produções do criador de “American Crime Story”, “Pose” e “Monstros”, com estética carregada, rigorosa recriação de época, trilha sonora marcada e alguns excessos que por vezes descambam para o cafona.
O mais interessante da trama está fora da relação dos dois protagonistas. Está em especular o quanto é fato e o quanto é ficção no entorno da família mais famosa dos Estados Unidos.
Nos primeiros episódios, a coadjuvante que rouba a cena é a Jackie Kennedy dos últimos dias, interpretada por Naomie Watts. É a mãe coruja e durona que carrega a aura estoica de viúva da América, a mesma que se recusou a tirar o vestido manchado de sangue após o assassinato do marido no Texas. Algo disso já foi abordado por Hollywood em “Jackie”, a cinebiografia de Pablo Larraín com Natalie Portman no papel-título.
Em “História de Amor”, a personagem faz contraponto a outra matriarca da trama, Ethel. A minissérie retrata a viúva de Bobby como uma megera que costumava sabatinar seus convidados à mesa do casarão de veraneio da família, em Hyannis Port, no litoral de Massachusetts. Carolyn foi reprovada num desses testes, insinua a obra. Ao que consta, isso ocorreu mesmo.
Em Martha’s Vineyard, outra localidade litorânea carimbada pelo clã Kennedy e onde esteve este repórter, os guias turísticos são ávidos por apontar locais que têm a ver com a família, como o sítio de Jackie e a ponte onde ocorreu o acidente de Ted. Também costumam apontar a direção no mar em que foram encontrados os destroços do avião conduzido por John Jr. —o evento deve guiar o último episódio da série, que foi ao ar nesta quinta (26).
Enquanto isso, a família continua rendendo fofocas fora das telas. Uma das mais recentes envolve o Brasil, mais especificamente a cantora carioca Giulia Be, que se casou neste mês com Conor Kennedy, filho do chefe da Saúde do governo Trump. O pai dela é o empresário Paulo Marinho, ex-aliado de Jair Bolsonaro que, nas últimas eleições, declarou apoio a Lula. É tudo meio rocambolesco mesmo com os Kennedy.
Fonte ==> Uol


