
Por José Valdemir Nunes Bezerra
O Brasil encerrou 2025 com um resultado histórico para o setor de rochas naturais. As exportações chegaram a aproximadamente US$ 1,48 bilhão, crescimento de 17,5% em relação ao ano anterior e o maior faturamento já registrado pela indústria brasileira. Foram mais de 2,1 milhões de toneladas enviadas ao mercado internacional, confirmando a dimensão de uma cadeia produtiva que talvez ainda seja pouco conhecida por boa parte dos brasileiros.
Os primeiros meses de 2026, porém, trouxeram um cenário diferente. No primeiro semestre, as exportações somaram cerca de US$ 705 milhões e apresentaram retração de 4,6% em valor na comparação com o mesmo período de 2025. As discussões envolvendo tarifas norte-americanas também colocaram novamente em evidência o quanto o setor depende de competitividade, logística, mercado externo e capacidade de entregar produtos com maior valor agregado.
Para quem trabalha diretamente com mármore e granito, esses números ajudam a mostrar algo que muitas vezes fica escondido atrás da beleza de uma peça pronta. Existe uma cadeia extensa entre a rocha extraída e aquilo que finalmente chega a uma residência, empreendimento comercial, projeto arquitetônico ou mercado internacional.
É justamente nesse caminho que acredito estar uma discussão importante para o futuro do setor brasileiro. Possuir uma grande diversidade de pedras naturais é uma vantagem extraordinária, mas o valor de uma rocha não termina na matéria-prima. Ele aumenta à medida que conseguimos transformá-la com projeto, tecnologia, acabamento e conhecimento técnico.
O mercado internacional está interessado em mais do que matéria-prima
Durante muito tempo, países ricos em recursos naturais conviveram com um dilema conhecido: exportar aquilo que possuem ou desenvolver capacidade para agregar mais valor antes que o produto chegue ao comprador.
No setor de rochas, essa discussão é especialmente interessante porque uma mesma matéria-prima pode percorrer diferentes níveis de transformação. Existe uma diferença significativa entre comercializar uma pedra em estágio menos processado e entregar um produto no qual já foram incorporados corte, acabamento, design e aplicação.
Quanto maior essa transformação, maior tende a ser também a participação de conhecimento naquilo que está sendo vendido.
O mercado internacional já demonstra interesse crescente por essa combinação. A Marmomac, uma das principais referências mundiais da cadeia de pedra natural, vem aproximando cada vez mais materiais, arquitetura, design, tecnologia e sustentabilidade. Máquinas CNC permitem executar cortes complexos com grande precisão, enquanto novas soluções buscam reduzir desperdício e ampliar as possibilidades de utilização da pedra.
Esse movimento deveria chamar nossa atenção no Brasil.
Não basta perguntar quanto conseguimos extrair ou exportar. Precisamos perguntar também quanto conhecimento conseguimos incorporar ao material antes que ele chegue ao consumidor.
Uma pedra ganha valor em cada etapa bem executada
Quem observa uma bancada, um revestimento ou uma peça de mármore pronta dificilmente imagina todas as etapas necessárias até aquele resultado.
Existe seleção, corte, preparação, lapidação, polimento e acabamento. Dependendo do projeto, entram ainda medidas específicas, detalhes personalizados e diferentes exigências estéticas. Cada uma dessas etapas pode acrescentar qualidade ou comprometer aquilo que foi feito anteriormente.
O acabamento possui uma importância particular porque está muito próximo da percepção final do cliente. É nele que pequenos detalhes se tornam visíveis e que a qualidade do trabalho aparece de maneira bastante concreta.
Depois de vinte anos atuando nessa área, aprendi que um bom material não garante sozinho um bom produto final. Uma pedra de grande qualidade pode perder valor quando é mal trabalhada, assim como um profissional experiente consegue destacar características de um material quando entende suas particularidades.
Isso ajuda a explicar por que falar em valor agregado significa necessariamente falar em mão de obra.
Máquinas são fundamentais e estão cada vez mais presentes no setor, mas alguém precisa conhecer o material, avaliar o resultado e compreender aquilo que o projeto exige. Quanto mais sofisticado se torna o produto final, maior tende a ser essa necessidade de integração entre equipamento e conhecimento humano.
A tecnologia está mudando a marmoraria
Seria um erro tratar o setor de mármore e granito como uma atividade presa ao passado. A transformação tecnológica já está acontecendo e tende a acelerar.
Equipamentos de corte mais precisos, automação, sistemas digitais e máquinas CNC aumentaram as possibilidades de trabalhar a pedra. Projetos que exigiriam
enorme dificuldade em outras épocas podem ser executados hoje com maior precisão e repetibilidade.
Essa evolução também interfere na produtividade. Quando utilizada corretamente, a tecnologia pode reduzir desperdícios, melhorar aproveitamento de material e tornar algumas etapas mais eficientes.
Mas existe uma consequência importante: o perfil da mão de obra também precisa evoluir.
Quanto mais avançada fica uma operação, menos sentido existe em separar o profissional “manual” da tecnologia. O trabalhador técnico precisa compreender novas ferramentas sem perder o conhecimento sobre o material que está sendo transformado.
A máquina pode produzir um corte extremamente preciso. Ainda assim, o processo precisa terminar em um resultado que faça sentido para o projeto e para o cliente.
O profissional que conhece apenas a forma antiga de trabalhar corre o risco de ficar para trás. Por outro lado, quem conhece apenas a máquina, sem compreender a pedra, também terá limitações.
O futuro está justamente na combinação dessas duas competências.
Sustentabilidade também passa pelo aproveitamento da pedra
Outro tema que ganhou espaço no mercado internacional de rochas naturais é a sustentabilidade.
Essa discussão não deveria ficar restrita à extração. Ela precisa acompanhar toda a cadeia produtiva.
Dentro de uma operação de transformação, desperdício representa material que foi extraído, transportado e processado, mas que não chegou à sua melhor utilização. Reduzir perdas, portanto, não é apenas uma decisão financeira. Também significa utilizar de maneira mais inteligente um recurso natural.
Tecnologias capazes de melhorar o aproveitamento das peças podem contribuir muito nesse processo, assim como um projeto bem planejado. Mas novamente existe uma participação importante do profissional.
Erros de execução geram desperdício.
Uma medida incorreta, uma etapa mal realizada ou um acabamento que precisa ser completamente refeito representam consumo adicional de material, energia e tempo. Quando pensamos em sustentabilidade dentro da realidade de uma oficina ou marmoraria, evitar retrabalho talvez seja uma das atitudes mais concretas que podemos adotar diariamente.
Nem toda transformação sustentável depende de uma grande inovação. Algumas começam simplesmente fazendo melhor aquilo que já fazemos.
O acabamento brasileiro também precisa ser tratado como produto
O Brasil possui uma diversidade geológica que chama atenção internacionalmente. Essa riqueza naturalmente abre oportunidades para exportação, mas também deveria estimular uma discussão sobre aquilo que queremos vender ao mundo.
Podemos ser reconhecidos apenas pela origem da pedra ou também pela qualidade com que somos capazes de transformá-la.
Essa segunda possibilidade exige investimento.
Tecnologia faz parte desse investimento, mas formação profissional também. Não existe indústria de maior valor agregado sem pessoas preparadas para operar equipamentos, interpretar projetos, trabalhar materiais diferentes e manter um padrão de acabamento consistente.
Quando uma peça brasileira chega pronta ou mais próxima de sua aplicação final ao mercado, não estamos exportando apenas rocha. Estamos exportando também trabalho, técnica e conhecimento desenvolvidos aqui.
Essa mudança de percepção é importante porque ajuda a valorizar toda a cadeia.
O acabador, o operador, o cortador e outros profissionais envolvidos deixam de ser vistos apenas como mão de obra necessária para transformar um material. Eles passam a ser parte da construção de valor daquele produto.
O crescimento do setor aumenta a responsabilidade sobre a formação profissional
Um setor que alcança quase US$ 1,5 bilhão em exportações precisa olhar com atenção para sua capacidade de formar trabalhadores.
Máquinas podem ser adquiridas relativamente rápido. Experiência não.
Esse é um desafio particularmente importante nas profissões em que boa parte do conhecimento ainda é transmitida durante a prática. Um trabalhador mais novo pode aprender o funcionamento básico de determinado equipamento, mas desenvolver percepção sobre acabamento, comportamento do material e qualidade exige contato com diferentes situações.
Por isso, profissionais experientes possuem uma responsabilidade que talvez não fosse tão evidente anos atrás: transmitir conhecimento.
Durante muito tempo, muitos ofícios foram aprendidos observando alguém mais velho trabalhar. Esse modelo possui valor, mas pode ser insuficiente para uma
indústria que quer aumentar produtividade, incorporar tecnologia e competir internacionalmente.
Precisamos encontrar formas de preservar o conhecimento prático e, ao mesmo tempo, aproximá-lo dos novos processos.
A experiência não deve servir como resistência à modernização. Ela deveria ajudar a modernização a acontecer sem perda de qualidade.
O momento de alta também exige cautela
Resultados recordes naturalmente produzem entusiasmo. E 2025 merece ser reconhecido como um ano muito importante para as rochas naturais brasileiras.
Mas nenhum setor deveria planejar seu futuro imaginando que crescimento será permanente.
Os números de 2026 já mostram um ambiente mais desafiador. Questões tarifárias, dependência de determinados mercados compradores, câmbio, logística e concorrência internacional podem alterar rapidamente as condições comerciais.
É justamente nesses momentos que valor agregado ganha ainda mais importância.
Quando uma empresa compete somente por preço, possui menos alternativas diante de uma mudança de mercado. Quando consegue diferenciar seu produto por qualidade, acabamento, design ou capacidade técnica, cria outros argumentos para o comprador.
Isso vale para uma indústria exportadora e também para uma pequena empresa que atende clientes em sua própria região.
Competir apenas pelo menor preço costuma ser uma estratégia frágil. Construir reputação pela qualidade demora mais, mas tende a criar relações diferentes com o mercado.
O cliente está olhando cada vez mais para o resultado final
Há também uma mudança importante acontecendo fora das fábricas e marmorarias.
Arquitetura e design vêm explorando a pedra natural de maneiras cada vez mais variadas. Grandes superfícies, peças personalizadas, mobiliário, detalhes decorativos e aplicações que valorizam os desenhos naturais do material aumentam a exigência sobre quem trabalha na transformação.
Quanto mais a pedra deixa de ser vista apenas como revestimento e passa a ocupar um papel de destaque no projeto, mais o acabamento aparece.
Isso é uma oportunidade para profissionais técnicos.
Durante muito tempo, o trabalho de quem transforma o material permaneceu praticamente invisível para o consumidor. Ele enxergava a pedra pronta, mas não necessariamente compreendia quanto conhecimento existia no processo.
Projetos mais personalizados ajudam a mudar essa percepção porque tornam evidente que resultado não depende somente da matéria-prima escolhida.
A mesma pedra pode produzir resultados muito diferentes dependendo de como foi trabalhada.
O próximo salto precisa acontecer depois da extração
O recorde alcançado pelas exportações brasileiras mostra que existe demanda e reconhecimento internacional pelas nossas rochas naturais. Isso precisa ser valorizado.
Ao mesmo tempo, acredito que os próximos anos deveriam ampliar uma pergunta: quanto do valor final desse mercado queremos produzir dentro do Brasil?
Temos matéria-prima. Temos empresas. Temos profissionais com décadas de experiência. Temos uma indústria que incorpora tecnologia e um mercado internacional interessado em novas aplicações para a pedra natural.
Transformar essas vantagens em maior valor agregado exige conectar esses elementos.
Para quem trabalha diariamente no acabamento, essa discussão é bastante concreta. Valor agregado aparece quando uma peça é bem executada, quando o material é aproveitado corretamente, quando existe menos retrabalho e quando o cliente percebe qualidade no resultado.
Em escala maior, a lógica não é tão diferente.
O Brasil já mostrou que sabe colocar suas rochas no mundo. O próximo desafio é fazer com que cada vez mais tecnologia, design, acabamento e conhecimento brasileiro viajem junto com elas.
Porque vender uma pedra é participar de um mercado.
Transformá-la com excelência é ocupar uma posição mais valiosa dentro dele.

