Os fantasmas que o Brasil se recusa a enterrar – 22/10/2026 – Djamila Ribeiro

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Os fantasmas que o Brasil se recusa a enterrar - 22/10/2026 - Djamila Ribeiro

Em “Memórias da Plantação”, a pensadora e artista Grada Kilomba recorre à metáfora do fantasma para refletir sobre a permanência do passado colonial no presente. Para a autora, o colonialismo não seria uma história encerrada, guardada nos livros ou confinada aos museus, mas uma presença que continua a organizar relações sociais, produzir desigualdades e assombrar aqueles que se recusam a reconhecer sua existência. O fantasma retorna justamente porque aquilo que deveria ter sido enfrentado permanece sem elaboração.

Pensei muito nessa metáfora ao acompanhar as eleições brasileiras. A cada ciclo eleitoral, somos surpreendidos por manifestações de racismo, misoginia, violência e autoritarismo, como se estivéssemos diante de fenômenos inteiramente novos. Indignamo-nos com certas declarações, assustamo-nos com os resultados, lamentamos a brutalidade dos discursos. Mas talvez a pergunta mais importante não seja por que esses fantasmas retornam, mas sim por que continuamos nos recusando a enterrá-los.

O Brasil é um país que nunca realizou os ritos fúnebres de seu passado colonial. Aboliu formalmente a escravidão sem reparar a população escravizada, proclamou a República sem democratizar efetivamente o poder, reconheceu direitos políticos às mulheres sem desmantelar as estruturas patriarcais que continuam a restringir sua participação, saiu de uma ditadura sem responsabilizar adequadamente seus agentes.

Em cada uma dessas passagens históricas, preferimos anunciar um novo tempo a enfrentar as violências que sustentavam o anterior. E, assim, os fantasmas permanecem entre nós. Permanecem nas instituições, nas relações de trabalho, na distribuição da riqueza, na organização das cidades, nas famílias e nas formas pelas quais aprendemos a reconhecer quem merece respeito e quem pode ser humilhado. Permanecem também na política, onde o ódio frequentemente se apresenta como coragem, a misoginia como defesa da família e o racismo como simples opinião.

Não deveria nos surpreender que uma sociedade fundada sobre hierarquias tão profundas siga produzindo projetos políticos interessados em mantê-las. O que deveria nos inquietar é a capacidade de tratar essas manifestações como acidentes ou desvios, sem reconhecer a continuidade histórica que as torna possíveis.

É profundamente ilusório acreditar na ideia de que basta derrotar eleitoralmente uma candidatura autoritária para derrotar o autoritarismo. As eleições são fundamentais, mas não têm, sozinhas, o poder de transformar as estruturas que alimentam o ódio. Um fantasma não desaparece porque deixamos de vê-lo e tampouco desaparece porque conseguimos fechar-lhe temporariamente a porta.

A metáfora de Kilomba nos convida a compreender que o passado não elaborado continua exigindo reconhecimento, e reconhecer não significa só admitir que houve violência. É preciso assumir responsabilidades pelas consequências que essa violência segue produzindo e compreender que não existe reconciliação verdadeira sem justiça, nem democracia substantiva enquanto parte da população permanecer condenada a viver sob as hierarquias herdadas da colonização.

Precisamos realizar nossos ritos fúnebres superando a ideia de que enterrar os mortos é sinônimo de esquecimento. Enterrar os fantasmas do colonialismo, do racismo e da misoginia exige memória, verdade, reparação e transformação —uma educação comprometida com a história do país, políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades estruturais, instituições que não naturalizem a violência e uma cultura política que reconheça a dignidade humana como princípio inegociável. Exige abandonar a fantasia de que podemos construir um futuro democrático sem confrontar os fundamentos violentos do nosso passado.

Penso que essa é uma das tarefas mais urgentes que as eleições nos apresentam: não só escolher quem ocupará os cargos públicos, mas decidir que sociedade estamos dispostos a construir. Porque uma democracia não se sustenta apenas na contagem dos votos, mas também nas condições de existência daqueles que votam, que são eleitos e, sobretudo, daqueles que historicamente foram impedidos de participar plenamente da vida pública.

Que tenhamos coragem de olhar para nossos fantasmas, nomeá-los, enfrentar as estruturas que os mantêm vivos e, finalmente, realizar os ritos fúnebres que a história brasileira insiste em adiar. A cada adiamento, eles retornam mais familiarizados com nossas instituições, nossas linguagens e nossos medos.


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Fonte ==> Uol

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