Profissão de bibliotecário ganha novo peso na era digital – 09/04/2026 – Ilustrada

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Profissão de bibliotecário ganha novo peso na era digital - 09/04/2026 - Ilustrada

Uma pessoa chega à biblioteca procurando um livro de capa vermelha, sem lembrar o título nem o autor. Em meio a centenas de estantes e milhares de obras, encontrar o volume certo parece impossível —ao menos para quem não conhece os sistemas que organizam aquele pedaço de mundo literário.

Esse é o tipo de desafio diário que só um bibliotecário pode resolver e que todos eles já enfrentaram, como diz Adriana Luccisano, 56, que exerce a profissão há 25 anos.

Gerente de acervo da organização social SP Leituras e responsável pelas coleções das bibliotecas de São Paulo e Parque Villa-Lobos, ela é uma das 11 mil profissionais da área registradas no estado.

Luccisano faz parte também do montante feminino que domina a profissão —as mulheres representam cerca de 80% dos bibliotecários paulistas—, apesar de, como aponta o Conselho Regional de Biblioteconomia de São Paulo, o número de homens ter visto um crescimento de 2% nos últimos cinco anos.

A formação em biblioteconomia prepara o profissional para atividades relacionadas à organização, tratamento, preservação e disseminação de acervos e informação. Luccisano conta que a rotina de um bibliotecário envolve pensar principalmente em quem vai acessar esses recursos.

“Os livros podem tratar de qualquer tipo de assunto e, quando mediados, têm o potencial de transformar o leitor,” diz.

O Dia do Bibliotecário, celebrado em 12 de março —pelo nascimento de Manuel Bastos Tigre, o primeiro bibliotecário concursado do país—, destaca um trabalho que começa muito antes de o leitor pegar um título na estante e vai muito além disso.

Segundo o bibliotecário Jorge Luis Rodrigues, 43, a profissão ganha novo peso em um momento em que as informações circulam rapidamente, especialmente nas redes sociais. “Em meio às notícias falsas, a biblioteca pública se torna ainda mais importante, pois valoriza o acesso a fontes confiáveis, informação organizada e conhecimento produzido com responsabilidade.”

Ele trabalha no CEU Vila Rubi, na zona sul de São Paulo, onde atende sobretudo crianças e leitores em formação, fase que exige maior orientação dos bibliotecários. “A biblioteca pública muitas vezes é o primeiro lugar onde elas têm contato com os livros fora da escola ou de casa. Então esse é o momento de ajudar a despertar a curiosidade”, diz.

Esse alcance deveria ter sido potencializado com a Lei da Universalização das Bibliotecas —a lei federal 12.244/2010—, que, desde 2010, estabelece a obrigatoriedade de bibliotecas com profissionais da área em todas as instituições de ensino do país, mas não foi o que aconteceu.

“O governo paulista e diversos de seus municípios têm caminhado na contramão da legislação”, diz a presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia do Estado de São Paulo, Ana Cláudia Martins. Ela aponta como exemplo a extinção de bibliotecários do quadro administrativo estadual, instituída no início deste mês em meio a reformas no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“A ausência desses espaços em São Paulo não é uma impossibilidade técnica, mas uma escolha política. São 16 anos de um direito da população sendo ignorado”, afirma Martins.

Procurado, o governo estadual diz que a decisão da extinção de cargos faz parte do plano São Paulo na Direção Certa, que compreende toda a estrutura da administração pública. Em nota, a gestão ressalta que os cargos serão extintos à medida que ficarem vagos.

“Não há qualquer prejuízo aos servidores em exercício nestes cargos que estão ocupados, que permanecem resguardados pelos princípios constitucionais da estabilidade e da segurança jurídica”, diz a nota.

O governo diz ainda que a lei 12.244/2010 se aplica exclusivamente às bibliotecas escolares e que, há 17 anos, a Secretaria da Educação de São Paulo mantém o Programa Sala de Leitura nas escolas estaduais. Segundo a gestão, a iniciativa, conduzida por professores com formação continuada, promove atividades pedagógicas voltadas à leitura, à escrita e à pesquisa.

Para Marta Nosé Ferreira, 62, gestora da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, dar vez e voz a quem visita uma biblioteca é o principal objetivo da profissão. “Sempre digo que, ao passar pela porta, a pessoa tem que querer entrar. Ao entrar, que queira ficar. E, ao sair, que queira voltar e trazer alguém.”

Um dos frequentadores mais assíduos da Monteiro Lobato, ela conta, não vai lá para ler, mas para tocar piano, instrumento que não tem em casa.

Para Bruna Pimentel, 31, bibliotecária e supervisora de acervo da Biblioteca Mário de Andrade, “já passou o tempo em que a biblioteca era vista apenas como um espaço de silêncio absoluto e contemplação”. “São lugares cada vez mais vivos e dinâmicos.”

“Virar bibliotecária foi uma maneira de retribuir aquilo que o acesso ao conhecimento proporcionou na minha própria trajetória”, diz Pimentel. Como ela, todos os profissionais entrevistados contam que, antes de escolher a carreira, sempre foram frequentadores de bibliotecas e leitores assíduos.



Fonte ==> Uol

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