A ideia de juntar um grupo de pessoas para um roubo não é propriamente original. A de juntar um casal de idosos a outro, de jovens, é menos banal. As idades divergentes favorecem o desenvolvimento da trama: velhos e jovens têm ambições diferentes.
No caso de “Velhos Bandidos”, o objetivo, ao menos o declarado, de Rodolfo —Ary Fontoura— e Marta —Fernanda Montenegro— é recuperar o dinheiro que um banco lhes deve para ter no fim de suas vidas um longo e feliz cruzeiro naval. Já os jovens Sid —Vladimir Brichta— e Nancy —Bruna Marquezine— pretendem subir na vida o bastante para se estabelecerem em Saquarema —sugestão dele— ou Bora Bora —dela.
Para uns, portanto, trata-se de um ato de justiça; para outros, de realizar um desejo. Talvez aí comecem os problemas desta comédia simpática e frouxa de Claudio Torres. Não era preciso desenvolver uma grande crítica da ganância nacional, apenas dedicar-se um pouco a esquadrinhar os atos de cada um.
Se o casal de velhos sofreu uma injustiça, como alega, de onde vem ela? Do sistema bancário, de um gestor fraudulento, de um sistema injusto ou inadequado? Já os jovens parecem não ter razão para serem bandidos além dos próprios nomes. Sid e Nancy —em referência ao polêmico casal formado pelo baixista do Sex Pistols e sua namorada groupie—, remetem ao punk, ao comportamento antissocial, à recusa completa dos hábitos burgueses.
Não é o caso dos nossos heróis aqui: eles querem a todo custo entrar no mundo burguês. Mas no que consiste esse desejo exatamente? Tornar-se empreendedores? Consumistas enlouquecidos? O filme não nos permite saber.
Sabemos apenas que são todos boas pessoas, no fundo. Pessoas, não. Apenas personagens de comédia. Essa acomodação entre todos e tudo parece uma preocupação central do filme, enquanto a do roteiro limita-se a sincronizar os atos e fatos de modo a não haver incoerências maiores. Mas é como o funcionamento de uma máquina, “tic-tac”.
É o que temos —uma concepção da comédia que se confunde com a inocência. Ela se manifesta até mesmo na mudança de Sid, que começa parecendo um hábil arrombador de cofres, para mais tarde ser apenas aquele que não entende muito nada do que está acontecendo, a menos que os outros lhe expliquem as coisas.
Tudo isso, diga-se, não parece resultar de pouca intimidade com o gênero. A impressão que deixa “Velhos Bandidos” é a de desenvolver a comédia como algo necessariamente inocente, incapaz de incomodar a quem quer que seja.
Nesse sentido, a frouxidão é, justamente, o que pode compensar. No Brasil, a comédia pisa em ovos desde o fim da década passada, quando termina sua era de grandes sucessos de público.
Como reencontrar seu público é um problema. A condescendência com os personagens —e, portanto, com os espectadores— pode ser uma resposta, embora isso não seja garantido. Digamos, então, para começar, que o investimento no elenco parece substituir o rigor na evolução e nas justificativas da trama.
No princípio, existe um casal de idosos que se sente lesado por um banco. Mas, atenção, não tão lesado assim. Suas economias parecem bem consistentes; a casa em que moram é mais que confortável.
Ainda assim, o estratagema que usam para atrair o jovem casal para o seu golpe é bem arquitetado —embora reste, para mim, ao menos uma dúvida: será que deixaram de embarcar no cruzeiro por estratégia ou por terem esquecido um passaporte?
De todo modo, o início é promissor. Era uma ocasião para desenvolver melhor os personagens. Como isso não acontece, toda a trama se torna supérflua ou quase isso.
Assun, a única personagem com alguma consistência é o detetive Oswaldo, de Lázaro Ramos, que ao menos tem um motivo para entrar na história.
Se a aposta de “Velhos Bandidos” era na superficialidade acomodatícia encoberta por um grupo de atores famosos, não é impossível que dê certo. Se a ideia era agradar o público idoso, cada vez maior, vamos ver.
Se era reencontrar a comédia que começou a fazer sucesso com “Se Eu Fosse Você”, fraquejou no fim dos anos Dilma, agonizou no governo Temer e encerrou seu ciclo com a pandemia e a morte de Paulo Gustavo, parece difícil —embora não impossível.
Digamos, em todo caso, que lhe falta um núcleo dramático —como “Minha Irmã e Eu”, de 2023— capaz de animá-lo. Resta a simpatia, é verdade. Mas o humor é ralo e raro.
Fonte ==> Uol


