Tim Maia manteve a irreverência até os últimos momentos, conta Carmelo Maia, 51, em entrevista no Festival de Curitiba. Durante uma visita ao hospital, ao perceber que o filho não compreendia o que dizia em meio à sedação, disse: “vai tomar no cu, seu burro”. Três dias depois, em 15 de março de 1998, o cantor e compositor morreu.
No musical “Tim Maia – Vale Tudo”, que fez duas apresentações lotadas no festival, a despedida entre os dois é afetuosa e poética. O episódio encerra o espetáculo em que Carmelo é um dos narradores e destaques da história —o cantor Léo Maia, que afirma ser filho afetivo do artista, não aparece na narrativa.
Em temporada no Teatro Casa Grande até o dia 12, no Leblon, zona sul do Rio, o musical já fez temporada em São Paulo e em Curitiba foi visto por mais de 5.000 pessoas na terça (31) e quarta (1º), no Teatro Guaíra. O público, empolgado, cantou, dançou e interagiu com o protagonista, Thór Júnior, 37, ator baiano que chama a atenção pela semelhança física e vocal com o cantor.
“Meu pai foi um cara com uma grande potência vocal, um cara sem filtro, um gênio indomável e é isso que faz o legado ser cada vez mais atual”, diz Carmelo, curador da obra de Tim e um dos produtores do espetáculo.
O herdeiro foi criado pela avó paterna, Maria Imaculada, e por uma tia, mas sempre conviveu com o pai. A mãe, Geisa, seguiu outro caminho quando ele tinha 45 dias de vida. Carmelo afirma ser fiel à obra do cantor e exerce o papel de curador “sem passar a mão na cabeça”.
Na primeira versão, estrelada por Tiago Abravanel, a dramaturgia dava mais espaço para a biografia cheia de percalços do cantor.
Nesta nova versão, em clima de festa, o elenco liderado pelo baiano quebra a quarta parede em diversos momentos, o que inclui pedidos para que o público dance, brincadeiras com a plateia e um final em que atrizes e atores descem do palco para dançar ao lado dos espectadores.
É impossível não falar sobre as ausências de Tim Maia em vários shows e programas de TV e do uso exagerado de álcool e drogas, descrito por Nelson Motta, autor da biografia em que a peça se inspira, como um consumo industrial. Porém, tudo é tratado com humor e leveza —o foco é nos sucessos irresistíveis do tijucano. Em vários momentos, é o coro musical que conta trechos da vida do artista, com letras criadas para o espetáculo.
“Tim Maia teve dez erros, mas cem acertos. O legado positivo é mais importante do que o negativo”, opina Thór.
Foi Carmelo quem deu a palavra final sobre a escolha do protagonista, após uma etapa de testes com mais de mil artistas. Thór, segundo ele, participou da seleção “com sangue nos olhos”. Na mesma noite, começou a ser chamado de pai pelo curador e produtor.
Ator, cantor e dublador, Thór estava em Brasília um dia antes do teste, enfrentou um voo atrasado, cortou o próprio cabelo, pegou roupas largas para usar como figurino e encarou a audição. “Se não for agora, na próxima vez eu já terei idade para interpretar o pai do Tim”, pensou. Ele esperava interpretar o papel desde 2011, quando estreou a primeira versão.
Nos ensaios, Carmelo e o ator orientaram os integrantes do elenco sobre a relação de Tim Maia com nomes como Roberto Carlos, Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Jorge Ben Jor e Sandra de Sá. A parceria com Sandra, ao som de “Vale Tudo”, é usada no musical como uma oportunidade para exaltar a importância dos artistas negros —em Curitiba, o momento foi aplaudido pelo público em pé.
A relação conflituosa com Roberto Carlos também aparece e tem uma explicação bem-humorada de Thór. “Tornaram o Roberto Carlos rei, mas na cabeça de Tim o rei era ele.”
O filho segue os passos de valorizar o talento do cantor e chegou a negociar a produção de um musical na Broadway. A ideia era que o espetáculo começasse em Nova York e rodasse o mundo. As conversas com produtores internacionais emperraram e, a partir disso, surgiu a nova versão do espetáculo no Brasil.
Em Curitiba, Carmelo encerrou a entrevista pedindo para o elenco cantar junto “Primavera”, um dos grandes sucessos de Tim Maia, tratada por ele como uma declaração de amor de um filho para o pai.
Fonte ==> Uol


