Por Fábio Salomon*
Recebi o Eduardo Feldberg, o Primo Pobre, no Café com Sal. Em algum ponto da conversa perguntei o que ele achava da turma das bets e se existia algum jeito de a pessoa comum escapar desse tipo de cilada. A resposta veio sem rodeio e mudou o ritmo do episódio.
Ele desenha o mercado de apostas com três personagens. No topo está o dono da plataforma, bilionário. No meio, o influenciador contratado para divulgar, que fica multimilionário. Na base, quem aposta.
“Você é um dos três”, ele diz. Se não é o dono e não é quem recebe para divulgar, sobrou uma cadeira, e é a única em que se perde dinheiro.
A partir desse desenho, ele explica por que as casas de aposta inundaram o futebol brasileiro. O dinheiro que patrocina camisa de Corinthians e Palmeiras sai do bolso de quem joga e perde. As cotas são altas porque a margem é alta, e a margem é alta porque a conta fecha contra o apostador.
O que ele recusa
Feldberg conta que recebe propostas de bets com frequência, sempre com números grandes. Algumas incluem um detalhe que ele faz questão de descrever: comissão sobre o que cada pessoa que abriu conta pelo link dele perder depois. Não sobre o que ela apostar. Sobre o que ela perder.
Ele diz não a todas. Nem no canal, nem no Pobre Show.
O motivo que ele apresenta não passa por lei, por regulação ou por reputação de mercado. Passa por público. A audiência dele nasceu falando com quem tem pouco. O nome da marca já anuncia com quem ele conversa. Aceitar divulgar aposta romperia o único contrato que sustenta o resto.
E ele reconhece o tamanho da tentação com honestidade incomum:
“Se eu não tenho personalidade, foco, identidade e autenticidade no meu discurso, venha.”
A distinção que ele faz
Há um momento da conversa em que ele separa duas figuras que costumam ser tratadas juntas no debate público.
De um lado, quem aposta. Ele acha que essa pessoa está sendo burra, e fala isso com todas as letras. De outro, quem divulga já sendo rico. Para essa, ele reserva um julgamento mais duro. Entre burrice e falta de caráter, prefere a burrice.
O raciocínio tem uma lógica interna. Quem é pobre e divulga aposta está atrás de sobrevivência. Quem já tem jatinho e conta cheia divulga por qual motivo?
Ele cita nomes conhecidos e joga a pergunta na mesa sem suavizar. Menciona Vini Jr. em especial, alguém que saiu da favela e, no argumento dele, deveria estar do lado de quem ainda não teve a mesma sorte.
E se coloca no exemplo. Ficou rico depois de ter sido pobre, e diz que o desejo maior hoje é ajudar quem ainda vive a vida que ele já viveu.
Por que esse trecho ficou comigo
Passo os meus dias avaliando pessoas em processos de escolha. Ouço muita gente explicar por que aceitou uma coisa. Ouço bem menos gente explicar, com clareza, por que recusou outra.
O que me chamou atenção na conversa com o Feldberg não foi o tema das apostas, que já tem gente melhor do que eu discutindo do ponto de vista econômico e de saúde pública. Foi a nitidez com que ele sabe onde fica a própria linha, e o fato de essa linha ter sido testada por dinheiro de verdade, em cima da mesa, mais de uma vez.
Ele encerrou o assunto assim: a consciência dele vale mais do que qualquer saldo bancário bombando na conta.
Concordar ou discordar do julgamento dele sobre apostadores e influenciadores é escolha de cada leitor. Achar interessante alguém que consegue formular a própria regra e sustentá-la contra o próprio interesse financeiro parece a mim algo raro o suficiente para registrar.
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O episódio completo do Café com Sal está disponível nas plataformas de áudio e no YouTube.
Como Deixar de Ser Pobre? Eduardo Feldberg (Primo Pobre) Explica Tudo
*Fábio Salomon é headhunter, sócio da BRAVA Executive Search, mentor de carreira na ALIÁ Mentoring e apresentador do podcast Café com Sal.


