Em 1981, quando Sam Raimi dirigiu seu primeiro filme independente, certamente não imaginava que aquele seria apenas o início do caminho para a explosão de uma das maiores franquias do gênero de terror. “Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio” é um verdadeiro clássico, e sua proposta é tão bem-sucedida que seu impacto permanece irretocável.
Dentre seus maiores triunfos, estão os efeitos práticos, que se mantêm atuais e talvez sejam até mais assustadores do que tantas outras produções contemporâneas que usufruem, às vezes exclusivamente, da computação gráfica para impactar seu público.
Agora, 45 anos, cinco filmes e uma série depois, “A Morte do Demônio” segue contabilizando mortes, sustos e demônios, expandindo seu microcosmo e sustentando sua base com histórias conectadas entre si —e pela quantidade de sangue derramado. É o caso de “A Morte do Demônio: A Ascensão”, de 2023, e o mais recente, “Em Chamas”, que chega aos cinemas nesta quinta.
Na trama, após a perda repentina do marido, Alice, vivida por Souheila Yacoub, vai para a casa isolada da família dele numa tentativa de acolher e viver o luto juntos. Contudo, tudo se transforma em um pesadelo quando seu sogro é possuído por forças demoníacas, ao passo que segredos do passado são descobertos.
Existe um fio invisível ligando as obras, claramente na intenção de perpetuar a atmosfera “gore” e a dinâmica aterrorizante dos demônios conhecidos como “deadites”. O livro dos mortos e as palavras amaldiçoadas, elementos tão conhecidos da mitologia da franquia, estão lá.
Contudo, no longa dirigido pelo francês Sébastien Vanicek, há algo diferente no ar. No que diz respeito ao terror puro, o tom está sempre um nível acima: há muito sangue, muita violência gráfica e as cenas são realmente grotescas. O cineasta não tem medo de pesar a mão no choque visual e aproveita bem a limitação de seus ambientes confinados. A casa antiga e escura é uma grande armadilha.
Mas a grande virada do roteiro está na sobreposição de um tema que não envolve possessão por demônios e que independe do sobrenatural. Se o longa anterior aborda a maternidade e os medos que podem surgir com ela, este incorpora a violência física e emocional dentro de um relacionamento amoroso. E é com essa sombra que a protagonista e “final girl” Alice precisa lidar —ao mesmo tempo em que tem de confrontar as temidas criaturas.
Nesta interessante intersecção, o longa encontra seu maior desafio. Ao usar o terror como um atalho para materializar o trauma do abuso, Vanicek transforma o parceiro morto e seus familiares tóxicos em monstros literais. E mais: insere leves momentos de humor enquanto os personagens se perdem em discussões dramáticas sobre o passado.
O isolamento dos personagens também intensifica o “gore”, uma vez que todos ali estão sofrendo com o luto. É como se a violência física fosse uma extensão da dor psicológica da perda e, no caso de Alice, do choque em ter se libertado do abusador. Os desmembramentos —que não são poucos— funcionam como uma representação visual de uma família despedaçada pelo ressentimento.
Ao encurtar a distância entre o terror sobrenatural e o trauma humano, “Em Chamas” é um novo exemplar de como o gênero pode ser, entre tantas coisas, um dispositivo para falarmos sobre nossos próprios fantasmas. Mas é claro que, a ver pela última cena pós-créditos, a franquia —que já tem um novo filme com lançamento marcado para 2028— também quer continuar entretendo os fãs com sua própria mitologia.
Fonte ==> Uol


