
Feira bateu recorde de público e negócios em Ribeirão Preto, mas expôs um agronegócio pressionado por juros altos, clima instável e desafios reputacionais.
A 30ª edição da Agrishow, encerrada no último dia 2 de maio em Ribeirão Preto (SP), terminou com números históricos e, ao mesmo tempo, sinais claros das tensões que atravessam o agronegócio brasileiro. A feira registrou R$ 14,6 bilhões em intenções de negócios e recebeu cerca de 197 mil visitantes, maior público da história do evento.
Mais do que uma vitrine de máquinas e tecnologia, a edição deste ano acabou refletindo um setor pressionado por uma combinação de fatores econômicos, climáticos e institucionais que hoje redefinem o ambiente do agro brasileiro.
O cenário combina custos elevados de produção, retração no preço das commodities agrícolas, crédito mais restrito e insegurança climática crescente. Ao mesmo tempo, o setor convive com um dos menores índices de cobertura de seguro rural da última década, cenário que amplia a exposição dos produtores a perdas e eventos extremos.
A instabilidade energética internacional também impactou diretamente os custos de insumos, pressionando margens em um ambiente de juros elevados e menor previsibilidade econômica. Produzir no Brasil, especialmente em um setor altamente dependente de financiamento e clima, tornou-se uma operação ainda mais complexa.
Para Maurilio Biagi, a Agrishow deste ano mostrou um setor tecnicamente preparado, mas inserido em um ambiente cada vez mais desafiador.
“O agro brasileiro continua demonstrando capacidade de inovação e produtividade, mas hoje enfrenta uma pressão simultânea econômica, climática e institucional. Não é mais apenas uma questão de eficiência no campo. Existe também uma disputa de percepção e narrativa sobre o setor”, afirma.
Essa disputa reputacional aparece justamente em um momento em que segurança alimentar, sustentabilidade e transição energética ocupam o centro das discussões globais. Enquanto o agro brasileiro é apresentado em eventos como a Agrishow como potência tecnológica e produtiva, em fóruns internacionais ligados à agenda ambiental o setor frequentemente surge associado a críticas e pressões políticas.
O contraste evidencia uma dualidade cada vez mais presente no ambiente internacional: de um lado, um dos setores mais competitivos da economia brasileira; do outro, um segmento constantemente inserido em debates ambientais e geopolíticos sensíveis.
Os números, porém, reforçam o peso estratégico do agro nacional. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com aproximadamente 50% de fontes renováveis, além de uma geração elétrica que ultrapassa 90% de participação renovável, uma das maiores entre os países do G20.
No campo, os avanços tecnológicos também transformaram a produtividade nas últimas décadas. Desde os anos 1980, a produção brasileira de grãos cresceu mais de 500%, enquanto a expansão da área plantada avançou pouco mais de 100%, resultado associado à agricultura de precisão, ao plantio direto e ao uso crescente de bioinsumos.
O agronegócio também teve papel decisivo no desempenho recente da economia brasileira, respondendo por parcela significativa do crescimento do PIB e pela sustentação do superávit comercial do país.
Para Maurilio Biagi, o setor precisará ampliar sua capacidade de diálogo e posicionamento institucional nos próximos anos.
“O Brasil tem um dos agro mais eficientes do mundo, produz energia limpa, preserva e alimenta mais de 1 bilhão de pessoas globalmente. O desafio agora também passa por comunicação, posicionamento e capacidade de ocupar esse debate internacional de maneira mais estratégica”, diz.
A Agrishow 2025 terminou reforçando justamente essa percepção: além da força produtiva e tecnológica, o agronegócio brasileiro passa a disputar também espaço político, reputacional e narrativo em escala global.

