Com Selic ainda em 14% ao ano e crédito mais seletivo, Sistema de Consórcios alcança recorde de 13,36 milhões de participantes; Oscar Neto, cofundador e diretor comercial do Consórcio Nordeste, explica quando a modalidade pode ser uma estratégia e como separar planejamento de falsas promessas
Comprar um imóvel, trocar de carro ou ampliar patrimônio sem comprometer o orçamento de uma só vez voltou ao centro das decisões financeiras de milhões de brasileiros em 2026. Em um ambiente no qual o custo do crédito permanece elevado, cresce a busca por modelos de aquisição baseados em planejamento de médio e longo prazo — movimento que tem impulsionado especialmente o mercado de consórcios.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (ABAC) mostram que o Sistema de Consórcios encerrou o primeiro semestre de 2026 com 13,36 milhões de participantes ativos, alta de 12,6% em relação a junho de 2025. De janeiro a junho, foram comercializadas 2,82 milhões de cotas, crescimento de 14,6%, enquanto o volume de créditos contratados chegou a R$ 278,99 bilhões, avanço de 25,5% em um ano.
O avanço ocorre mesmo após o início do ciclo de redução dos juros básicos. Em agosto, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic para 14% ao ano, ante 15% no início de 2026. Apesar das quedas graduais, a taxa permanece em nível elevado. Dados mais recentes do Banco Central mostram ainda que, em junho, a taxa média das operações de crédito livre para as famílias chegou a 64% ao ano, 4,6 pontos percentuais acima do registrado doze meses antes.
Para Oscar Neto, cofundador e diretor comercial do Consórcio Nordeste, esse cenário ajuda a explicar por que uma parcela crescente dos consumidores passou a comparar não apenas o valor da parcela, mas o custo e a estratégia envolvidos na aquisição de um bem.
“Durante muito tempo, a compra foi tratada quase exclusivamente pela ótica da urgência: eu quero o bem agora e depois descubro como pagar. O que percebemos é um consumidor cada vez mais interessado em inverter essa lógica. Primeiro ele organiza o fluxo financeiro, estabelece o objetivo e entende quanto tempo pode esperar. Quando existe capacidade de planejamento, surgem alternativas que talvez não fossem consideradas numa decisão impulsiva”, afirma Neto.
Imóveis lideram expansão em 2026
O segmento imobiliário é o retrato mais expressivo dessa mudança. Somente no primeiro semestre, foram vendidas 838,03 mil cotas de consórcios de imóveis, número 41,9% superior ao mesmo período de 2025. O volume de créditos comercializados chegou a R$ 163,48 bilhões, avanço de 38,4%. O total de participantes ativos do segmento saltou de 2,39 milhões para 3,23 milhões, crescimento de 35,1% em apenas um ano.
Nos veículos leves, o movimento também permanece robusto. Quase 1 milhão de cotas — 995,83 mil — foram vendidas de janeiro a junho, enquanto o número de participantes ativos chegou a 5,52 milhões, alta de 8,9%. O segmento movimentou mais de R$ 73 bilhões em créditos comercializados no semestre.
Para Neto, os números indicam que o consórcio deixou de ser visto apenas como uma forma de comprar o primeiro carro.
“O mesmo instrumento pode entrar em planejamentos muito diferentes. Há o jovem construindo a primeira aquisição, a família programando a troca do veículo, o empresário pensando em expansão e também o investidor que está estruturando patrimônio imobiliário. O ponto central é entender que a modalidade não deve ser vendida como solução universal. Ela precisa fazer sentido para o prazo, para a renda e para o objetivo daquela pessoa”, explica.
Consórcio não tem juros, mas isso não significa custo zero
Uma das principais diferenças em relação ao financiamento tradicional é que o consórcio funciona como autofinanciamento coletivo. Os integrantes formam um fundo comum e, ao longo do prazo do grupo, recebem o direito de utilizar o crédito por meio das contemplações.
Não há cobrança dos juros típicos de uma operação de empréstimo ou financiamento. Isso, porém, não significa que o consórcio seja gratuito. O contrato prevê taxa de administração e pode conter outros componentes, como fundo de reserva e seguros, além dos critérios de atualização do valor do crédito. A taxa de administração remunera a empresa responsável por organizar e administrar o grupo.
Essa distinção, segundo Oscar Neto, é essencial para uma contratação responsável.
“Dizer apenas que ‘consórcio não tem juros’ sem explicar o restante é uma comunicação incompleta. O consumidor precisa saber quanto vai pagar, qual é a taxa de administração, como o crédito será atualizado, qual o prazo do grupo e quais são as regras para sorteio e lance. Planejamento financeiro começa pela informação”, afirma.
A contemplação ocorre, de acordo com as regras do grupo, por sorteio ou lance. E há um ponto fundamental: entrar em um consórcio não garante receber o crédito imediatamente. No sorteio, a contemplação pode acontecer em diferentes momentos durante a duração do grupo; no lance, o participante aumenta a possibilidade de antecipá-la conforme as regras previstas em contrato.
Por isso, para quem precisa comprar um imóvel ou veículo em uma data obrigatoriamente imediata, a modalidade pode não ser a mais adequada.
“Consórcio não deve ser confundido com crédito de emergência. Se a pessoa precisa do dinheiro amanhã, é preciso analisar outra solução. A vantagem aparece justamente quando existe capacidade de esperar e transformar tempo em estratégia financeira”, acrescenta Neto.
“Consórcio é golpe?” A resposta está em quem administra
O crescimento do setor convive com uma resistência antiga entre consumidores: a associação da palavra “consórcio” a golpes, promessas falsas e dificuldades para receber o crédito.
A modalidade, entretanto, integra um sistema formalmente regulado. O Banco Central é responsável pela autorização, normatização, supervisão e controle das administradoras de consórcio, que também precisam enviar periodicamente informações sobre suas operações à autoridade monetária.
Isso não significa que fraudes não existam. Golpistas podem utilizar o nome de empresas, anunciar cotas contempladas inexistentes ou prometer condições que não fazem parte do contrato. Justamente por isso, o próprio Banco Central orienta o consumidor a confirmar se a administradora está autorizada a funcionar, pesquisar reclamações no BC, Procon e Consumidor.gov.br e ler integralmente o contrato antes de realizar qualquer pagamento.
Outro alerta oficial é direto: não existe garantia de contemplação imediata simplesmente porque o consumidor aderiu ao grupo. Promessas desse tipo devem acender um sinal de atenção.
“Existe uma diferença enorme entre o consórcio regulamentado e alguém usando a palavra consórcio para fazer uma promessa que o produto não permite. O consumidor não precisa confiar apenas na fala de um vendedor. Ele pode conferir a administradora no Banco Central, consultar histórico, verificar o contrato e exigir que todas as condições estejam documentadas”, afirma Oscar Neto.
Para ele, a transparência é também a melhor maneira de superar a desconfiança criada por experiências ruins no mercado.
“Quando alguém diz que tem medo de consórcio, eu não acho que a resposta correta seja simplesmente dizer ‘não tenha medo’. A resposta é explicar o produto. Quem administra? Qual é a taxa? Quanto dura? Como funciona o reajuste? Quais são as condições de lance? O que acontece se a pessoa desistir? Quanto mais o cliente entende antes de assinar, mais segura tende a ser a decisão.”
Planejamento ganha espaço no orçamento
Os dados de 2026 mostram que a procura não está restrita a um único perfil. Dos 13,36 milhões de participantes ativos registrados em junho, 5,52 milhões estavam em grupos de veículos leves e 3,23 milhões no segmento imobiliário. Juntos, esses dois mercados concentravam mais de 65% dos consorciados do país.
O desempenho ocorre em um momento no qual as famílias continuam convivendo com custo elevado de crédito. E, embora consórcio e financiamento atendam necessidades diferentes e não devam ser comparados apenas por uma taxa isolada, o ambiente econômico aumenta a importância de avaliar alternativas antes de assumir uma dívida de longo prazo.
Para Oscar Neto, essa tende a ser uma das principais mudanças no comportamento financeiro dos próximos anos.
“O patrimônio normalmente não é construído numa única decisão extraordinária. Ele é consequência de várias decisões planejadas. Para algumas pessoas, o financiamento será a melhor resposta; para outras, será o consórcio; e há situações em que nenhum dos dois é indicado naquele momento. A decisão madura é aquela em que o consumidor entende o próprio orçamento e escolhe o instrumento em vez de deixar o instrumento escolher o orçamento dele”, conclui.
Fontes dos dados utilizados
• ABAC — Dados do Sistema de Consórcios (junho/1º semestre de 2026)
• Banco Central do Brasil — Comunicados do Copom / Selic
• Banco Central do Brasil — Administradoras de consórcio
• Banco Central do Brasil — Perguntas e respostas sobre consórcio


