A americana Addison Rae interrompeu seu show no último Lollapalooza, em São Paulo, para dizer que gosta do país por causa dos chinelos fabricados aqui. Isso foi um mês depois de Bad Bunny, uma das celebridades mais paparicadas do momento, calçar Havaianas para cantar no estádio do Palmeiras.
O canadense Shawn Mendes também não tira dos pés os chinelos de dedo, que vem usando para passear por todo o canto —na COP30, a convenção da ONU, ele uniu o calçado à calça jeans, uma combinação antes considerada desleixada. Semana retrasada, o ator americano Jason Momoa mostrou as unhas do pé bem pintadas dentro de uma papete felpuda no no tapete vermelho de “Supergirl”, em Londres.
Se antes os chinelos eram considerados peças de uso doméstico, agora o calçado passou a compor looks elegantes de famosos do mundo todo, uma mudança reforçada durante as últimas semanas de moda.
No último domingo, a Havaianas se uniu à grife P. Andrade para lançar na Semana de Moda de Paris um modelo de chinelo com um corte entre o espaço do dedão e do segundo dedo. O modelo é inspirado em tradicionais sandálias japonesas e evoca a silhueta do sapato tabi, que voltou à moda e calça celebridades como Olivia Rodrigo e Wagner Moura.
Além disso, no ano passado o chinelo também apareceu em várias passarelas, seja no modelo tradicional, feito pela minimalista Auralee, em versões mais inusitadas, com tiras volumosas, como apresentou a Louis Vuitton, ou até com plataforma na sola, sob a logomarca da Balenciaga.
Embora as marcas queiram que a ascensão do chinelo pareça orgânica, ela não deixa de ser resultado de uma ofensiva de marketing que envolve o pagamento de celebridades, influenciadores e de espaço nas passarelas para transformar o calçado em objeto de desejo.
E ficou fácil tornar o chinelo mais chique por causa de várias tendências recentes, afirmam especialistas —especialmente a “high-low”, que combina peças tidas como simplórias com aquelas mais sofisticadas.
O porto-riquenho Bad Bunny, por exemplo, posou para a capa da Vogue brasileira usando o par mais barato de Havaianas com roupas da Mondepars, a grife de roupas de luxo de Sasha Meneghel.
Essa estética atraiu também o ator britânico Jonathan Bailey, que no ano passado calçou chinelos para ir ao evento de lançamento de um filme em Londres. À época, diante do choque do público, ele disse que seus dedos dos pés também queriam participar da festa.
Bailey escolheu um modelo da minimalista The Row —que não é nada mínima nos preços, porém. O chinelo Dune Sandal, por exemplo, foi lançado pela grife americana a cerca de US$ 690, algo perto de R$ 4.000.
Mesmo assim, se tornou o item mais procurado do mundo no segundo trimestre do ano passado, segundo a plataforma Lyst, que monitora tendências de moda nas redes sociais. É um reflexo da onda “quiet luxury”, que preza por peças de luxo visualmente minimalistas.
A valorização do chinelo tem dedo também da estética “brazilcore”, que leva símbolos nacionais às passarelas. Eleita a tendência do verão pela Vogue há três anos, ela pode voltar a crescer com a Copa do Mundo. “As marcas de luxo estão em busca de cultura e de história. O Brasil tem muito disso”, diz a stylist e comunicadora de moda Deborah Gallindo.
O chinelo vive agora algo parecido com o que aconteceu no passado com o jeans, que se tornou um atalho de descontração nos looks mais arrumados, diz o professor e especialista em história da moda João Braga. “E por quê? Porque alguém como Bad Bunny ou a The Row propôs que chinelo tem prestígio.”
Para se destacar, as marcas vêm tentando repaginar esse calçado. Entre os modelos diferentões mais usados está o chamado chinelo nuvem, de sola grossa, com a tira sobre o peito do pé, que costuma ser feito de EVA, um tipo leve de borracha sintética.
Líder de mercado no Brasil e única a se consolidar fora daqui, com presença em cidades-chave para a moda como Paris, a Havaianas fez uma campanha com o filme “O Diabo Veste Prada 2” para anunciar modelos acolchoados, de base larga e tiras volumosas, que se assemelham justamente ao tal chinelo nuvem.
É parte da tentativa de tornar um produto naturalmente sem bossa em algo descolado —e caro. O Over Puffed sai a R$ 250, quase nove vezes o valor do chinelo mais barato da loja, aquele antigo conhecido de solado branco e tiras azuis.
Para virar desejo global, a Havaianas não só participou das últimas passarelas internacionais, como também lançou coleções com a italiana Dolce & Gabbana. Fez, ainda, campanhas com celebridades como a modelo Gigi Hadid, que emprestou seu nome a chinelos vendidos por US$ 40, cerca de R$ 200.
Neste ano, em São Paulo, a marca realizou um desfile assinado por Pedro Andrade, o diretor criativo da P. Andrade, nome forte do streetwear brasileiro, e lançou modelos em colaboração com a estilista francesa Isabel Marant, presença constante na Semana de Moda de Paris com sua marca de mesmo nome. As peças desta união custam até R$ 500.
Maria Fernanda Albuquerque, diretora de marketing da Havaianas, disse em entrevista no ano passado que fabricar chinelo caro não leva prestígio à marca. “Não basta ter dinheiro. Os consumidores têm que abraçar o produto.”
A Rider, especializada em chinelos masculinos, também vem tentando se remodelar, e diz querer ir além da imagem de chinelo de pai com a qual ficou conhecida. Em 2016, de olho no boom do streetwear, a Rider decidiu “passar de produto conservador para uma pegada mais jovem”, afirma Luciana Costa, que trabalha no setor de marketing da empresa.
Mas, diferentemente da Havaianas, a Rider não mira as passarelas de fora. Quer ser fashionista aqui no país, e por isso lançou modelos autorais, assinados por artistas como o próprio Pedro Andrade. O chinelo feito por ele, superestruturado, quase como uma papete, é vendido a R$ 1.000.
Foi justamente essa quebra de estilo que o movimento hippie buscava quando ajudou a popularizar o uso do chinelo nas ruas, afirma o professor João Braga.
Noutras partes do mundo, como o Japão, ele diz, o calçado representa tradição e respeito. O chinelo de dedo como conhecemos veio das sandálias japonesas de palha de arroz que migraram para o Ocidente após a Segunda Guerra Mundial. No Brasil, o calçado só ganhou força nos anos 1960 com a Havaianas.
No verão do ano passado, a marca brasileira viveu uma alta na Europa, onde as pessoas estão se acostumando a usar chinelo fora das praias, diz o influenciador de moda Lucas Brederodi, que participou da semana de moda de Copenhague em 2025.
Hoje há vários influenciadores, como ele, que ensinam combinações pouco usuais com chinelo, unindo o calçado até com calça de alfaiataria.
“Moda quer causar estranheza, mudar, não ficar na mesmice”, afirma Deborah Gallindo, a stylist. “Quando isso acontece, é porque deu certo. Se todo mundo concorda, a tendência morre.”
Colaborou João Perassolo
Fonte ==> Uol


