Como será o mercado para o meu filho?

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Por Fábio Salomon

Essa pergunta me ocupa mais do que qualquer projeção sobre inteligência artificial que eu tenha lido nos últimos dois anos. Continuo sem resposta, e desconfio de quem já tem uma.

Trabalho com executive search há quase duas décadas. Minha rotina é ler pedidos de contratação, e pedido de contratação é o documento mais honesto que existe dentro de uma empresa. Ali não cabe discurso institucional. Ali está escrito o que a organização realmente precisa, quanto está disposta a pagar por isso e, principalmente, o que ela decidiu parar de comprar.

O que mudou nos últimos dezoito meses não foi o topo da pirâmide. Foi a base.

O DEGRAU QUE SUMIU

A discussão sobre IA começou na advocacia, mas ficaria mal explicada se parasse lá. O mesmo movimento aparece na auditoria, na engenharia de projetos, nos bancos de investimento, na análise de crédito, na redação de jornal, na programação.

Todas essas profissões tinham em comum um andar térreo feito de trabalho repetitivo e mal remunerado: conferir, revisar, tabular, formatar, checar, refazer. Ninguém gostava desse andar. Ele era tratado como pedágio.

Só que o pedágio era a escola.

Quem já contratou um diretor jurídico ou um CFO sabe que julgamento não se ensina em treinamento. Julgamento se acumula. Ele nasce de ter feito a mesma tarefa trezentas vezes, errado nas primeiras cinquenta, sido corrigido por alguém mais velho e, em algum momento impreciso, começado a enxergar o padrão antes que ele aparecesse.

Repetição com correção é o único método conhecido de fabricar discernimento. E era exatamente esse trabalho de base que a tecnologia absorveu primeiro, porque era o mais fácil de descrever para uma máquina.

Eliminamos o degrau e mantivemos intacta a exigência de quem chega ao topo.

O PASSIVO QUE NINGUÉM CONTABILIZA

Aqui está o ponto que me parece pouco discutido, e é o ponto que enxergo do meu lugar: o ganho de produtividade entra no resultado deste trimestre. O custo entra daqui a oito anos, e entra na conta de outra pessoa.

Quando uma empresa corta a camada júnior, o efeito que ela registra é uma redução de despesa. O que ela contraiu foi um passivo de balanço sem linha contábil e sem auditor que o cobre.

Esse passivo é a ausência de candidatos internos para as cadeiras que ela vai precisar preencher na próxima década. Eu sei que ela vai precisar, porque é para isso que ela me liga hoje.

E o que ela me pede, quando liga, permaneceu rigorosamente o mesmo: alguém capaz de liderar equipe, de desenvolver cliente, de decidir com informação incompleta, de sustentar uma posição difícil na frente de um conselho.

Nenhuma dessas coisas foi automatizada. Nenhuma delas dá para aprender lendo sobre elas.

Os pedidos que chegam à BRAVA hoje descrevem um profissional formado por um processo que a mesma empresa está desmontando. Há uma contradição instalada, e ela ainda não doeu o suficiente para ser tratada.

A PERGUNTA ERRADA

A maior parte do debate público sobre IA e emprego gira em torno de quantos postos vão desaparecer. É uma pergunta ruim porque só tem resposta no agregado, e ninguém vive no agregado.

Cada pessoa vive uma trajetória específica, e trajetória depende de degraus.

A pergunta melhor é: onde alguém de 23 anos vai errar, com supervisão, sem que o erro custe caro?

Historicamente, o mercado oferecia esse espaço de graça, quase sem perceber. O estagiário conferia o contrato, alguém revisava, e o custo do erro era baixo.

Esse arranjo acabou por motivos econômicos legítimos: ficou mais barato conferir com software. Mas o arranjo produzia um subproduto que a economia não estava comprando, e agora não sabe repor.

Se ninguém desenhar deliberadamente uma substituição, a formação vai virar privilégio. Vai continuar existindo, mas restrita a quem tem um pai, um padrinho ou um mentor disposto a bancar o custo do aprendizado de alguém.

Já vi esse filme em outros contextos. Ele não termina bem para a diversidade do topo.

O QUE EU DIRIA A ELE

Meu filho vai entrar num mercado onde ser muito bom de execução não vale mais quase nada, porque execução deixou de ser escassa.

Isso soa como uma boa notícia e é uma armadilha, porque a competência que passa a valer, o julgamento, era construída justamente pela execução que sumiu.

Então a resposta honesta que tenho para dar é desconfortável: ele vai precisar caçar a exposição que o meu tempo entregava de graça.

Pedir responsabilidade cedo demais para o cargo. Escolher o chefe em vez do salário inicial, mesmo quando a diferença for de 20%. Aceitar, por alguns anos, um trabalho cujo retorno não aparece no fim do mês.

Para quem contrata, a conta é outra.

Passamos cinquenta anos terceirizando a formação para a própria estrutura de trabalho sem nunca admitir que era isso que estávamos fazendo, e agora que a estrutura mudou, formar gente virou um projeto que precisa de dono e de orçamento.

Fingir que o problema é do sistema educacional custa pouco hoje e resolve nada.

Não sei como será o mercado do meu filho. Sei que passamos tempo demais discutindo se os cargos de entrada vão sobreviver, quando a pergunta que decide o resultado é quem vai pagar pela formação da geração que a gente pretende contratar como líder em 2040.

Por enquanto, ninguém levantou a mão.

Fábio Salomon é Managing Partner da BRAVA Executive Search, mentor na ALIÁ Mentoring e apresentador do podcast Café com Sal.

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