‘Competency porn’ une experts em problemas em meio ao caos – 14/04/2026 – Ilustrada

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'Competency porn' une experts em problemas em meio ao caos - 14/04/2026 - Ilustrada

Em meio ao caos que ronda o mundo, é natural recorrer a especialistas em solucionar problemas. É o que diz Jada Yuan, repórter cultural do jornal The Washington Post, que resolveu diagnosticar seu vício em “The Pitt”, série ambientada exclusivamente num hospital e que acompanha o dia a dia de profissionais excelentes.

A produção da HBO Max, vencedora do Emmy, divide os seus episódios entre as horas de um plantão. Ao longo do turno, os pacientes se multiplicam, a saúde deles piora e os conhecimentos médicos são levados ao limite.

Obcecada por seu ritmo intenso, em que muitos quadros clínicos são solucionados em minutos, Yuan enquadra o seriado entre exemplos do que apelidou de “competency porn” —a pornografia da competência—, uma onda de atrações com personagens que buscam a excelência acima de tudo.

Ela contempla não apenas o trabalho sobre o centro médico, cuja segunda temporada chega ao fim nesta quinta-feira, mas também “O Urso”, sobre a cozinha do compenetrado chef Carmen Berzatto, atrás de uma estrela Michelin, entre outras.

“Um mérito de ‘The Pitt’ é mostrar como as ciências de saúde procuram mitigar os vieses emocionais por meio de protocolos e estudos científicos, sempre citados ou demonstrados, fazendo a alegria dos profissionais que se identificam nesse tipo de atuação”, diz o médico e jornalista Gustavo Villas Boas, um dos profissionais convidados pela Folha para comentar o realismo dessas produções.

Da mesma forma, a chef Gisela Schmitt vê, em “O Urso”, um retrato fiel da urgência de uma cozinha profissional. “A série não oferece alívio. Não entrega soluções rápidas. Apenas lembra que talento sem estrutura vira exaustão. E que cozinhas melhores não nascem do caos, mas da clareza.”

Para Yuan, uma das razões do sucesso está numa busca do público por controle em meio ao excesso de notícias trágicas nas redes sociais. Ela cita a captura de Nicólas Maduro por tropas americanas e a violência do ICE contra imigrantes —que dita um dos episódios da temporada atual de “The Pitt”— entre acontecimentos do tipo.

Já em “Industry”, outro exemplo dessa moda televisiva, o público segue a ascensão de jovens ambiciosos no mercado financeiro. Entre golpes e disputas por informações confidenciais, eles se tornam craques nesse jogo obscuro, e, na quarta temporada, lançada em janeiro, estão mais confiantes do que nunca ao investir em impérios de dinheiro.

É semelhante ao que acontece em “A Diplomata”, série da Netflix que flerta com os bastidores da política americana. Na terceira temporada, do ano passado, a protagonista vivida por Keri Russell se torna a escolha óbvia para assumir a vice-presidência dos Estados Unidos, mesmo que a roupa suja deixada por colegas corruptos insista em assombrá-la.

“Os roteiristas optaram por espetacularizar a profissão, e a vida diplomática de Wyler é apresentada num desfile de estereótipos”, diz o escritor e diplomata Alexandre Vidal Porto, para quem o aspecto mais realista da produção é “o impacto que a vida profissional de um diplomata pode ter sobre sua vida familiar”.

Mas o prazer estaria, sobretudo, em ver figuras que não abrem mão de se aprimorarem para alcançar seus objetivos. É o caso de Noah Wyle, protagonista de “The Pitt”, e também de Idris Elba, da série “Sequestro”, do Apple TV, que transmitem confiança graças à disciplina de seus papéis. No caso de Elba, o ator dá vida a um negociador corporativo que tem de lidar, na primeira temporada, com o sequestro de um avião.

“O mantra é ‘a arte de ouvir é muitas vezes ofuscada pelo desejo de falar.’ Exercitamos a escuta ativa durante todo o processo de negociação, seja num sequestro com reféns, seja com uma pessoa com propósito suicida”, diz Tomas Perroni, negociador do GER, o Grupo Especial de Reação da Polícia Civil do Estado de São Paulo.

Além do drama, mesmo séries de comédia, como “Abbott Elementary” e “Falando a Real”, sabem aproveitar as habilidades de seus personagens. Na primeira, a excelência e as boas intenções de um grupo de professores domesticam uma escola pública cujas reservas estão sempre no vermelho. Já a segunda faz do consultório de terapeutas um espaço em que falhas são motivo de risadas, mas com um roteiro que nunca menospreza o talento dos protagonistas.

Nisso, “O Urso” —que gera debates entre os que veem a produção como um drama e os que a consideram uma comédia—, talvez seja o meio-termo ideal entre um mundo imperfeito e personalidades infalíveis. Na trama, os dramas pessoais de cada um se chocam com as cobranças do chef Carmen, nunca satisfeito com as próprias conquistas. É um lembrete de que, dentro ou fora das telas, todos carregamos vozes que nos impedem de desistir.



Fonte ==> Uol

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