
Com apenas 22% da população adulta com diploma universitário, Brasil enfrenta o desafio de reduzir a evasão e transformar a expansão do ensino superior em formação efetiva.
Na semana passada, durante uma visita à sede da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris, no âmbito da missão internacional promovida pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), da qual sou o presidente, me peguei refletindo sobre um dado que deveria inquietar todos aqueles que se preocupam com o futuro do Brasil. Segundo o relatório Education at a Glance 2026, apenas 22% dos brasileiros entre 25 e 64 anos possuem formação superior, praticamente a metade da média dos países da OCDE, de 43%.
O contraste é expressivo e revela o tamanho do desafio que temos pela frente. Mas, enquanto analisava esses números, outra questão me veio à mente: de que adianta ampliarmos as oportunidades de ingresso na educação superior se não conseguimos assegurar que os estudantes permaneçam nas instituições até a conclusão dos cursos?
A pergunta ganha ainda mais relevância quando observamos os indicadores de evasão. Dados calculados a partir do Censo da Educação Superior 2024, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontam taxas de 21,25% na modalidade presencial e de 57,39% na educação a distância (EAD).
Nas últimas décadas, o Brasil avançou na democratização do acesso à educação superior. A expansão das instituições privadas, a interiorização da oferta, o crescimento da EAD e a implementação de políticas públicas de financiamento e concessão de bolsas contribuíram para que milhões de brasileiros pudessem chegar à faculdade.
Entretanto, ampliar o acesso é apenas uma parte da equação. A outra, igualmente decisiva, consiste em criar condições para que os estudantes concluam suas trajetórias acadêmicas. E é justamente nessa dimensão que precisamos concentrar esforços, sobretudo quando consideramos a realidade daqueles que pertencem às famílias de menor renda.
Para esses estudantes, a decisão de cursar uma faculdade frequentemente envolve desafios que ultrapassam os limites da sala de aula. É necessário conciliar estudos e trabalho, administrar despesas com transporte, alimentação e materiais didáticos, além de lidar com responsabilidades familiares e dificuldades acumuladas ao longo da formação básica.
Não podemos tratar essas circunstâncias como questões exclusivamente individuais. A evasão representa uma perda para o estudante, que vê interrompida sua formação; para a instituição, que deixa de cumprir integralmente sua missão educacional; e para o país, que desperdiça oportunidades de qualificação profissional, inovação e desenvolvimento econômico e social.
“O verdadeiro avanço da educação superior não está apenas em abrir as portas da faculdade, mas em garantir que os estudantes tenham condições de atravessá-las até a conquista do diploma.”
Janguiê Diniz
Por isso, precisamos superar a visão de política educacional concentrada predominantemente no ingresso. Iniciativas como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) e o Programa Universidade para Todos (ProUni) desempenham papel relevante na ampliação das oportunidades de acesso, especialmente para estudantes de menor renda. Contudo, é fundamental que essas iniciativas sejam acompanhadas de estratégias permanentes de apoio à continuidade dos estudos.
Isso significa pensar a permanência como uma política pública estruturante, e não como uma responsabilidade restrita às instituições de ensino. Medidas de apoio financeiro, acompanhamento acadêmico, orientação profissional, acolhimento e identificação precoce de dificuldades precisam integrar uma estratégia articulada entre poder público, instituições e sociedade.
Outro aspecto essencial é a utilização dos dados educacionais para orientar decisões. O próprio Inep disponibiliza indicadores de fluxo que permitem acompanhar permanência, conclusão e evasão. Essas informações precisam ser transformadas em instrumentos efetivos de gestão e formulação de políticas públicas, permitindo identificar grupos mais vulneráveis, compreender obstáculos e direcionar recursos para iniciativas com maior potencial de impacto.
A comparação internacional apresentada pela OCDE reforça a urgência dessa agenda. O Brasil não conseguirá reduzir a distância que o separa dos países mais escolarizados apenas ampliando vagas ou elevando o número de ingressantes. Será necessário aumentar, de maneira consistente, a proporção de brasileiros que efetivamente concluem a educação superior.
A visita à OCDE reforçou minha convicção de que o Brasil precisa estabelecer uma nova prioridade para a educação superior: fazer da conclusão dos cursos um compromisso tão importante quanto a democratização do ingresso. Isso exige políticas públicas integradas, responsabilidade institucional e, sobretudo, a compreensão de que o sucesso educacional não pode ser medido exclusivamente pelo número de pessoas que entram na faculdade.
Se desejamos aproximar o Brasil dos indicadores internacionais de escolaridade e construir uma sociedade mais justa, produtiva e desenvolvida, precisamos assegurar que as portas abertas pela expansão da educação superior conduzam, de fato, à conquista do diploma. Porque o verdadeiro avanço não está apenas em permitir que mais brasileiros iniciem uma graduação, mas em garantir condições para que tenham a oportunidade de concluí-la.
Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação – Fórum Brasileiro da Educação Particular; fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.

