‘Intolleranza’ é bela obra política, nunca panfletária – 01/06/2026 – Ilustrada

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'Intolleranza' é bela obra política, nunca panfletária - 01/06/2026 - Ilustrada

Enquanto um poema com referência às guerras –históricas, campais, urbanas, diárias– ainda é projetado em primeiro plano, surge, impactante, o som a cappella do Coro Lírico Municipal —”Vivere e stare svegli”, viver é estar desperto.

Por mais que se ouça em gravações, a experiência acústica do “ao vivo” é fundamental para se alcançar a beleza imanente à escrita coral de Luigi Nono, compositor de “Intolleranza 1960” —a data se refere ao ano da composição–, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo, com direção cênica de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska.

Obviamente é uma beleza repleta de estranhezas. Engajado nas poéticas do pós-Segunda Guerra Mundial, Nono praticou a escrita serial, em que estruturas circulares organizam propriedades sonoras (com alturas, ritmos, entre outras) sem se referir aos acordes padrões da tonalidade clássica, reinantes na maioria dos sons musicais, populares ou eruditos, que nos rodeiam.

Durante o espetáculo –que o próprio Nono denominava “ação cênica”, em vez de ópera – o protagonismo desafiador do coro é respeitosamente reforçado pela direção cênica ao por no palco seu regente, Hernán Sánchez Arteaga, totalmente alinhado à maestra Priscila Bomfim que, do fosso, comanda a orquestra e os solistas virtuosisticamente.

Integrada ao cenário concebido por Renan Marcondes e Marcus Garcia, centralizada por uma réplica da cúpula de Hiroshima –edifício situado a apenas 150 metros do local da explosão atômica no Japão, e que resistiu ao impacto–, a direção cênica faz uso extraordinário, igualmente, da direção de movimento e da coreografia concebidas por Alejandro Ahmed.

Partindo de um casal de mestre-sala e porta-bandeira vestido de negro, bandeiras e flâmulas tomam vida própria e propõem um tempo dilatado, giratório, que evocam o estilo de Bertold Brecht para contaminar a movimentação das personagens.

Aliás, a narrativa de Nono utiliza textos de Brecht –como o do coro final, que choverá sobre a plateia inscrito em pedaços de papel picado–, mas não só: Jean-Paul Sartre, Paul Éluard e Vladimir Maiakóvsky, entre outros, são trabalhados meticulosamente pela arte musical e sem concessões do compositor.

O protagonista é Um Imigrante, interpretado com muita segurança na récita de domingo (31) pelo tenor Peter Tantsits. Trabalhando na mineração, ele decide romper com a vida que levava e retornar à sua terra natal.

Durante a sua jornada, ele passa por uma cidade onde há uma manifestação, na qual é envolvido sem qualquer motivo; depois é preso, torturado e enviado a um campo de concentração. Em sua trajetória passam Sua Companheira, papel de Maria Carla Pino Cury, Soprano Solo, vivida por Caroline De Comi, Uma Mulher, interpretada por Marly Montoni, Um Argelino, papel de Isaque Oliveira, e Um Torturado, vivido por Anderson Barbosa, todos vocal e cenicamente integrados à montagem.

Nenhuma tragédia é encenada gratuitamente: como todos os afetos já estão carregados pela música, as soluções visuais se expandem –sempre com rara beleza– para sonhos e divagações. É arte política, sim, mas nunca panfletária.

Em algum sentido, a poética de Nono parece seguir o caminho apontado por Arnold Schoenberg em “Um Sobrevivente de Varsóvia”, a última obra orquestral do austríaco. Ambos também compartilham o traço de terem sido absolutamente fiéis a seus princípios, sem receio de lidar com uma certa aridez, que de fato permeia as suas obras: “é preciso romper as correntes do medo”, diz o Imigrante em certo momento.

Ademais, a conexão entre os dois tem mais de uma razão: Schoenberg tornar-se-ia “sogro póstumo” de Nono após o seu casamento, quatro anos após a morte do vienense, com Nuria, filha do mestre. Nuria e Luigi Nono permaneceriam juntos até a morte do compositor, em Veneza, sua cidade natal, aos 66 anos.

Num mês em que “Fim de Partida”, peça de Samuel Beckett publicada em 1957 –outra obra referencial do pós-Guerra– foi encenada em São Paulo, podemos dizer que, em comparação ao texto do irlandês, “Intolleranza” ainda carrega certa esperança: de fato, ela integra um mundo onde ainda é possível lutar.



Fonte ==> Uol

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