‘Larry e a Busca da Infelicidade’ é divertida e insolente – 28/06/2026 – Ilustrada

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'Larry e a Busca da Infelicidade' é divertida e insolente - 28/06/2026 - Ilustrada

O título em inglês de “Larry e a Busca de Infelicidade” é um pouco diferente, mas mais divertido e inteligente que em português. “Life, Larry and the Pursuit of Unhappiness: An Almost History of America” —vida, Larry e a busca da infelicidade, uma quase história da América. O título faz referência direta a uma das expressões mais famosas da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

No texto de 1776, redigido principalmente por Thomas Jefferson, as então 13 colônias britânicas da América do Norte deixavam de reconhecer a autoridade do rei George 3º e passavam a se considerar estados livres e independentes.

No documento, o monarca, que ocupava o trono da Grã-Bretanha desde 1760, é citado como responsável por uma série de abusos e decisões consideradas opressivas pelos colonos, como a imposição de impostos altos, restrições ao autogoverno colonial e interferência nas instituições locais.

Mas a frase mais romântica da declaração é a que afirma que todos os seres humanos possuem direitos inalienáveis, entre eles à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Não eram todos os seres humanos, no entanto, que se encaixavam na pomposa descrição, já que a escravidão ainda era vigente e, mesmo depois de seu fim, no século 19, a segregação racial continuou existindo legalmente em alguns estados até os anos 1960.

E eis que, nos 250 anos da independência, que serão comemorados no próximo 4 de julho, o primeiro ex-presidente negro do país, Barack Obama, decide comemorar o feito produzindo uma série cômica capitaneada por um comediante judeu que rejeita tudo associado à tal busca da felicidade.

Larry David, cocriador de “Seinfeld”, inventou para si próprio um alter ego que sai do próprio caminho para se irritar com as pequenezas da vida —em geral, da alheia.

Na série que o consagrou e o fez milionário, o personagem que o representa era George Costanza, o amigo inseguro, mentiroso e grande autossabotador, que funcionava na trama mais como anti-vilão do que anti-herói.

Depois, quase como uma provocação à legião de fãs de “Seinfeld”, ele criou e protagonizou “Curb Your Enthusiasm”, mais um título que perdeu a graça na tradução.

Aqui virou “Segura a Onda”, um nome aleatório que não diz a que vem. Mas, enfim, teve 12 temporadas e ficou no ar, com intervalos de anos entre uma e outra, de 2000 a 2024, e cimentou a imagem de Larry David como um cara rabugento, reclamão, antissocial e neuroticamente obcecado pelas regras não ditas do convívio social.

Ou seja, o oposto da imagem pública que temos de Obama, um sujeito que parece à vontade em qualquer situação, nunca perde a compostura e é sempre articulado, sem nunca cair em armadilhas, provocações ou reagir a agressões.

O que os une é o senso de humor. E que um vá com a cara do outro a ponto de colaborarem num projeto tão ousado e insolente quanto o que estreia agora na HBO é, talvez, a maior revelação deste primeiro episódio.

“Larry e a Busca da Infelicidade” é apresentado por Obama como se fosse de verdade uma celebração de eventos, pessoas e acasos que moldaram o que veio a ser a história dos Estados Unidos. A começar pela já citada Declaração de Independência.

E aí o episódio segue por esquetes em ordem cronológica, em que David aparece vestido a caráter, o que já é bem engraçado, mas agindo como se fosse o Larry David de “Curb Your Enthusiasm” em situações marcantes da história.

Logo na abertura, ele é Robert Livingston, o quinto elemento entre os chamados pais fundadores, ao lado de Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, John Adams e George Washington.

Como Livingston, Larry tenta uma primeira versão do documento histórico, mas, no lugar dos grandes ideais da carta, escreve um texto cheio de picuinhas, como a proibição de desejar feliz Ano-Novo depois do dia 7 de janeiro, a de homens se abanarem com um leque em público ou dividir uma sobremesa ou um guarda-chuva.

Enquanto isso, outros homens solenes, com suas perucas elaboradas, tentam manter a dignidade e discutir a sério os absurdos do personagem, que protesta.

Outro grande momento do primeiro episódio é ainda mais provocador, e o coloca como um passageiro de um ônibus segregado que se senta ao lado de Rosa Parks, a mulher negra que se recusou a dar seu lugar a um passageiro branco, foi presa por isso e se tornou um símbolo da resistência contra as leis segregacionistas.

Na esquete, Larry está casualmente sentado ao lado de Parks quando entra um passageiro branco exigindo que ela vá para o fundo do ônibus para que ele possa sentar. Mas o personagem de Larry se revolta mais do que Parks, porque teria que levantar para ela sair, depois para o homem entrar, e, como é um branco, é ouvido sem tanta revolta.

Mas ele é um chato de galocha, “cri-cri” até não poder mais, um solitário cheio de assunto que perturba tanto a mulher com suas histórias sem fim nem nenhum sentido que ela opta, por si só, sair dali e ir para o fundo do ônibus.

Haverá outros seis episódios, um novo a cada sexta-feira, e muitos nomes fortes terão participações especiais, inclusive Obama, testando seu talento como ator.

Jerry Seinfeld, Lin-Manuel Miranda, Bill Hader, Sean Hayes, Jon Hamm, Vince Vaughn, Susan Essman, Jeff Garlin e J.B Smoove são alguns dos que aparecerão nas próximas semanas.

Se o primeiro episódio tiver dado o tom, este pode até não ser o melhor trabalho de Larry David, mas é bem divertido e melhor do que 99% das séries cômicas e atuais da TV.



Fonte ==> Uol

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