Especialista em gestão farmacêutica afirma que o sucesso no varejo depende menos do tamanho da empresa e mais da capacidade de controlar estoques, atender às exigências regulatórias e oferecer serviços que fidelizem o consumidor
O Brasil possui uma das maiores redes de farmácias do mundo. Segundo dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), o setor mantém trajetória de crescimento há anos, registrando faturamento recorde de mais de R$ 114 bilhões em 2025, impulsionado pelo envelhecimento da população, pela maior demanda por cuidados preventivos e pela ampliação da oferta de serviços farmacêuticos. Ao mesmo tempo, milhares de pequenos estabelecimentos encerram as atividades todos os anos, pressionados pela concorrência, pela alta carga tributária, pela dificuldade de gestão e pelas margens cada vez mais apertadas.
Para Amanda Glacy da Silva Boto de Almeida, farmacêutica, empresária e executiva com mais de 15 anos de atuação no varejo farmacêutico, o diferencial entre crescer e fechar as portas raramente está apenas no volume de vendas.
“Existe a percepção de que basta vender medicamentos para manter uma farmácia saudável financeiramente. Na prática, o negócio depende de gestão. Controle de estoque, negociação com fornecedores, conformidade regulatória, formação de equipes e relacionamento com o cliente fazem muito mais diferença do que simplesmente abrir as portas todos os dias”, afirma.
De acordo com dados do Conselho Federal de Farmácia (CFF), o Brasil possui centenas de milhares de farmacêuticos registrados e uma das maiores capilaridades de estabelecimentos farmacêuticos da América Latina. O setor também é regulamentado por normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que exigem rigor na dispensação de medicamentos, armazenamento de produtos, controle de medicamentos sujeitos a controle especial e presença de responsável técnico.
Segundo Amanda, muitas empresas concentram esforços exclusivamente em preço, enquanto negligenciam processos internos.
“Preço é importante, mas não sustenta uma empresa sozinho. Uma compra mal planejada pode gerar perdas enormes por vencimento de medicamentos. Da mesma forma, estoques insuficientes afastam clientes. Encontrar esse equilíbrio exige indicadores e acompanhamento diário”, observa.
Outro fator apontado por ela é a profissionalização da gestão.
“O empreendedor precisa deixar de agir apenas como balconista e assumir o papel de gestor. Isso significa acompanhar fluxo de caixa, margem por categoria, produtividade da equipe, desempenho dos fornecedores e indicadores operacionais. Sem números, qualquer decisão vira tentativa.”
Nos últimos anos, o próprio perfil das farmácias mudou. Além da dispensação de medicamentos, muitas unidades passaram a oferecer serviços farmacêuticos autorizados pela regulamentação vigente, como aferição de pressão arterial, testes rápidos, aplicação de medicamentos e vacinação, quando devidamente habilitadas e conforme a legislação aplicável. Esse movimento ampliou o papel da farmácia dentro da atenção primária à saúde.
Na avaliação de Amanda, esse novo cenário também altera o perfil competitivo do setor. “O consumidor busca conveniência, confiança e orientação. A farmácia deixou de ser apenas um ponto de venda para se tornar um espaço de cuidado. Quem entende essa mudança consegue construir relacionamento de longo prazo.”
A digitalização também passou a influenciar diretamente os resultados do varejo farmacêutico. Ferramentas de gestão, sistemas integrados de estoque, programas de fidelidade, canais digitais e análise de dados permitem reduzir desperdícios e melhorar o atendimento.
“Hoje é possível identificar padrões de consumo, antecipar demandas e tomar decisões muito mais rápidas. A tecnologia deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade competitiva”, afirma.
Ao longo de sua trajetória, Amanda fundou e expandiu uma operação farmacêutica que evoluiu de uma unidade para uma rede de múltiplas farmácias, liderando processos de expansão, conformidade regulatória, gestão de equipes, compras, controle de estoque e desenvolvimento operacional. Sua atuação também inclui a implementação de práticas voltadas à ampliação do acesso da população a medicamentos e serviços farmacêuticos.
Para ela, o futuro do setor continuará favorecendo empresas capazes de unir eficiência operacional e atendimento humanizado.
“A farmácia continuará sendo um dos principais pontos de contato entre a população e o sistema de saúde. As empresas que investirem em gestão, qualificação profissional e experiência do paciente terão mais condições de crescer de forma sustentável. As que permanecerem baseadas apenas em improviso encontrarão cada vez mais dificuldades para competir”, conclui a executiva.


