Só a existência deste texto já atesta seu título, porque a crítica sobre uma das melhores séries recentes sobre relacionamentos é publicada somente cinco meses após “Os Anos Novos” estrear por aqui, na Mubi.
Escondida numa plataforma de streaming conhecida pelos filmes, não por seriados, a produção espanhola conta a história do casal Ana e Óscar durante uma década, com cada um dos dez capítulos se passando na virada dos anos. Separados no nascimento por horas, ela comemora o seu aniversário em 31 de dezembro, e ele, em 1º de janeiro, com o primeiro encontro num Réveillon, no de 2016, quando ambos chegam aos 30.
O truque narrativo sugere uma série esquemática, cheia de gracejos para fisgar o espectador, mas “Os Anos Novos” vai em outra direção. Baseia-se sobretudo em ótimos diálogos, sempre naturais e com muitas falas sobrepostas, interrompidas ou recalculadas no calor do momento, como costuma acontecer na realidade.
A passagem do tempo de episódio para episódio também se mostra mais do que só uma gracinha, porque deixa para o público a tarefa de descobrir, no início do capítulo seguinte, o que se passou com Ana e Óscar no decorrer do ano anterior. A referência óbvia é a trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite”, de Richard Linklater, também porque escancara o quão complexas são as relações.
Óscar, um médico, e Ana, uma bartender que ainda tenta encontrar o que quer fazer, se conhecem pouco antes de irem a uma festa de Ano Novo com amigos em comum. Ficam juntos e transam, claro. Mas não é um daqueles encontros de novela, em que as pessoas se apaixonam de cara, e o que vem depois se parece mais com o que acontece na maioria das vezes, com vaivéns, o que evita cair em um romantismo ordinário.
A preocupação em não tirar os pés do chão é tanta que até mesmo as cenas de sexo são um tico travadas, por vezes atrapalhadas, sem idealizações, até com uma ejaculação precoce no caminho —o curioso é que ainda assim essas passagens conseguem ser excitantes. É diferente, por exemplo, das tomadas de sexo coreografadas da espetacular “Pessoas Normais”, série que também já foi comparada a “Os Anos Novos”.
Uma produção tão espartana, em que um capítulo pode ser quase todo gravado em um só ambiente, exige que seus atores sejam acima da média, como é o caso de Iria del Río e Francesco Carril. Ela interpreta uma personagem carismática, independente e por vezes egoísta, como todos somos, enquanto ele é um homem inseguro, metódico e também doce, como todos somos. O choque de temperamentos é crucial para a série.
Além do casal, destaca-se também o elenco secundário, sobretudo os atores que vivem os pais de Ana e a mãe de Óscar. O capítulo que se passa num jantar familiar, em que um papo inocente traz à tona memórias incômodas, como muitas vezes ocorre em datas do tipo, é um doutorado de atuação —pela naturalidade de entonações e gestos— e de texto —pela forma como a conversa flui até que o desconforto domine o lugar.
Esse desconforto aos poucos vai deixando de ocupar apenas a sala de jantar para tomar a relação de Ana e Óscar, mas não convém dar spoilers, ainda que a série já esteja disponível no streaming há bastante tempo e que qualquer pessoa que já tenha passado por um relacionamento complexo saiba como isso acabará.
Dirigido por Rodrigo Sorogoyen, celebrado no Festival de Cannes por “As Bestas”, filme vencedor do prêmio Goya, “Os Anos Novos” merece ser mais vista. Difícil não imaginar que, caso a série fosse toda em inglês e estivesse numa plataforma mais popular como a Netflix, não tivesse uma repercussão maior. Aqueles que gostam de discutir a relação, de ver as paisagens de Madri e de aprender tradições locais, como o costume de comer 12 uvas à meia-noite do dia 31 de dezembro, “las doce uvas de la suerte”, certamente vão gostar.
Fonte ==> Uol


