Selic cai, mas crédito continua caro e pressiona caixa das empresas brasileiras

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Roberto Neaime

Mesmo com cinco cortes consecutivos da taxa básica de juros, custo médio do crédito empresarial subiu para 25,4% ao ano; inadimplência alcança 9,2 milhões de CNPJs no país

A redução da Selic ainda não se traduziu em alívio significativo para o caixa das empresas brasileiras. Em 2026, mesmo após cinco cortes consecutivos da taxa básica de juros, que recuou de 15% para 13,75% ao ano, o custo médio do crédito livre para pessoas jurídicas aumentou de 23,5% para 25,4% ao ano entre dezembro de 2025 e julho de 2026.

O movimento ocorre em meio ao avanço da inadimplência empresarial e à permanência das recuperações judiciais em patamares elevados. Dados do Monitor RGF-BizDoc apontam 6.341 empresas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026, número quase 58% superior ao registrado no início de 2023.

O cenário levanta uma questão para empresários de diferentes setores: se a taxa básica está em trajetória de queda, por que o crédito continua caro e mais difícil de obter?

Selic não determina sozinha o custo do crédito

Para Roberto Neaime, CEO da B2Grow e especialista em reestruturação empresarial, a diferença está principalmente na percepção de risco das instituições financeiras.

“O empresário olha para a queda da Selic e naturalmente espera que o custo financeiro da empresa caia na mesma velocidade. Isso não acontece. O banco não olha apenas a Selic. Ele olha geração de caixa, endividamento, garantias, histórico de pagamento e capacidade futura de honrar a dívida. Quando o risco percebido aumenta, o spread permanece elevado e o crédito pode ficar mais caro mesmo com a taxa básica em queda.”

Além da taxa básica, a formação do custo de um financiamento empresarial considera fatores como risco de crédito, probabilidade de inadimplência, garantias, prazo da operação e capacidade de pagamento da companhia.

O comportamento financeiro e a qualidade das informações apresentadas pela empresa também podem influenciar as condições oferecidas pelas instituições.

Inadimplência empresarial bate recorde

Os dados da Serasa Experian mostram a dimensão da pressão financeira enfrentada pelas companhias. Em julho de 2026, o Brasil chegou a 9,2 milhões de CNPJs inadimplentes, com 67,2 milhões de dívidas que somavam R$ 238,6 bilhões.

As micro e pequenas empresas concentram a maior parcela desse universo, com aproximadamente 8,7 milhões de CNPJs negativados e R$ 206 bilhões em dívidas.

Em média, cada empresa inadimplente possui 7,3 contas negativadas.

Outro dado chama atenção: apenas 24,3% das pendências estavam concentradas em instituições financeiras. A maior parte das dívidas estava relacionada a outras obrigações, incluindo compromissos ligados à própria operação das empresas.

Na avaliação de Neaime, o endividamento muitas vezes representa o resultado de uma deterioração financeira que começou anteriormente.

“A dívida é o sintoma. O problema normalmente começa no caixa. A empresa perde margem, aumenta estoque, financia cliente, alonga recebimentos, atrasa fornecedor e começa a utilizar crédito de curto prazo para financiar uma necessidade estrutural. Quando percebe, está pagando dívida velha com dívida nova.”

Segundo o executivo, esperar que a redução da Selic resolva automaticamente as dificuldades financeiras pode levar a decisões equivocadas.

“Uma empresa não quebra necessariamente porque tem dívida. Ela quebra quando perde capacidade de gerar caixa suficiente para sustentar sua operação e cumprir seus compromissos. Por isso, em uma reestruturação, antes de discutir dívida precisamos entender onde o caixa está sendo consumido.”

Risco elevado mantém os juros pressionados

Para Gustavo Antoniazzi, diretor da B2Grow, o custo final de uma operação de crédito é resultado de diversos fatores, e não apenas da Selic.

“A Selic é uma referência importante, mas não é o preço final do crédito. Duas empresas com o mesmo faturamento podem receber propostas completamente diferentes. A diferença está na percepção de risco e na forma como cada companhia apresenta sua capacidade de pagamento.”

Com o aumento da inadimplência, as instituições financeiras tendem a adotar critérios mais rigorosos para a concessão de crédito. Na prática, isso pode resultar em limites menores, prazos reduzidos, exigência de garantias adicionais e spreads maiores.

Forma-se, assim, um ciclo de pressão sobre o caixa: a empresa precisa de capital de giro para manter a operação, mas justamente por apresentar sinais de deterioração financeira pode encontrar crédito mais caro e restrito.

Antoniazzi destaca ainda que muitas companhias procuram financiamento somente quando a necessidade de caixa já se tornou urgente.

“Crédito precisa ser tratado como estratégia e não como emergência. Quando a empresa chega ao mercado pressionada, sem planejamento financeiro, com concentração de vencimentos e indicadores deteriorados, sua capacidade de negociação diminui. A melhor hora para estruturar crédito é antes de precisar desesperadamente dele.”

Estrutura da dívida também pode comprometer a empresa

A redução dos juros, por si só, não necessariamente resolve uma crise financeira. Uma empresa pode ter uma dívida com custo relativamente baixo e, ainda assim, enfrentar problemas de liquidez caso os prazos dos compromissos não sejam compatíveis com sua geração de caixa.

Financiar investimentos de longo prazo com linhas de curto prazo, utilizar capital de giro para cobrir prejuízos operacionais recorrentes ou concentrar grandes amortizações em poucos meses são situações que podem aumentar a pressão sobre o caixa.

Para Neaime, a análise precisa ir além do valor total da dívida.

“Em uma crise, o empresário costuma perguntar: ‘quanto eu devo?’. A pergunta mais importante é outra: ‘quanto caixa minha operação consegue gerar para pagar essa dívida sem destruir o negócio?’. É essa resposta que deveria determinar prazo, carência, amortização e estrutura da renegociação.”

Reestruturação pode começar antes da recuperação judicial

O aumento das recuperações judiciais reforça a importância de identificar sinais de deterioração financeira com antecedência.

As 6.341 empresas registradas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026 representam um estoque de processos em andamento, e não necessariamente novos pedidos realizados durante o período. Ainda assim, a evolução do indicador demonstra a pressão enfrentada pelo setor empresarial.

Antes que a situação chegue a um estágio irreversível, uma reestruturação financeira pode envolver medidas como revisão do fluxo de caixa, redução da necessidade de capital de giro, renegociação de passivos, alongamento de dívidas, obtenção de carência, venda de ativos não estratégicos, revisão de custos e margens e busca por novas fontes de financiamento.

Para a B2Grow, o objetivo é identificar alternativas antes que a empresa dependa exclusivamente de uma solução judicial.

“Recuperação Judicial é um instrumento legítimo e importante quando necessário, mas não deveria ser a primeira estratégia. Quanto antes o empresário reconhecer o problema e iniciar uma reestruturação, maior tende a ser o número de alternativas disponíveis”, afirma Neaime.

Gestão de caixa ganha espaço na estratégia empresarial

A trajetória de queda da Selic pode contribuir gradualmente para melhorar as condições financeiras da economia, mas seus efeitos não são automáticos e podem variar de acordo com o perfil de cada empresa.

O cenário de 2026 mostra essa diferença: enquanto a taxa básica de juros recuou, o custo médio do crédito livre para empresas aumentou.

Em um país com 9,2 milhões de empresas inadimplentes e R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas, gestão de caixa, estrutura de capital e acesso ao crédito passam a fazer parte não apenas da rotina financeira, mas também das decisões estratégicas das companhias.

Para Roberto Neaime, o caixa deve ser o ponto de partida em períodos de dificuldade.

“O empresário pode discutir faturamento, margem, patrimônio ou valuation. Mas, em uma crise, existe uma variável que vem antes de todas as outras: caixa. Caixa manda.”

Na mesma linha, Gustavo Antoniazzi destaca que a capacidade de obtenção de financiamento começa antes da conversa com o banco.

“Crédito não começa no banco. Começa dentro da empresa. Quanto melhor a qualidade financeira, a previsibilidade do fluxo de caixa e a estrutura da dívida, maior tende a ser a capacidade da companhia de negociar crédito.”

Em um ambiente de juros ainda elevados e maior seletividade dos credores, a queda da Selic pode representar uma melhora gradual nas condições econômicas. Para muitas empresas, no entanto, a redução efetiva do custo financeiro dependerá também da capacidade de reorganizar o caixa, equilibrar a estrutura da dívida e recuperar a previsibilidade financeira.

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