A armadilha de amar e esquecer de si mesma

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Isolda Risso

Por Isolda Risso*

Ao longo de anos observando o comportamento de mulheres maduras, independentemente da idade, percebi um padrão silencioso e inquietante: muitas de nós possuímos uma capacidade extraordinária de amar, cuidar e sustentar relações, mas nunca aprendemos a nos sustentarmos emocionalmente. Existe uma fronteira perigosa que atravessamos sem perceber, quase sempre sem nome e sem cerimônia, onde passamos a confundir amor com autoabandono. Sob o pretexto do afeto, nos tornamos especialistas em mapear as necessidades do outro enquanto nos tornamos cada vez mais estrangeiras de nós mesmas.

Essa confusão não nasce do nada. Ela tem raízes profundas na história afetiva que cada uma de nós carrega desde a infância. Aprendemos, dentro das nossas famílias, que amar é servir. Que uma boa filha, uma boa esposa, uma boa mãe coloca o outro em primeiro lugar, sempre. A pergunta “o que você quer?” soa, para muitas, como um idioma desconhecido. Tão profunda é essa programação que, mesmo quando a mulher se reconhece nesse padrão, não sabe ao certo por onde começar a mudar. Ela se perdeu de si mesma há tanto tempo que não sabe mais quem é fora das suas relações.

O silêncio que nos aprisiona

A dinâmica do autoabandono é traiçoeira justamente porque se veste de virtude. A mulher que desaparece dentro do casamento, que engole a própria voz para preservar a paz, que abandona um sonho antigo porque “não é o momento certo”, ela não se percebe como alguém que se perde. Ela se percebe como alguém que ama muito. E aí está a armadilha: o autoabandono usa a linguagem do amor para se perpetuar.

Com frequência, essas mulheres sustentam relações movidas não pelo desejo genuíno, mas pelo medo. Medo de ser abandonada. Medo de não ser suficiente. Medo de ficar sozinha. Ou então pela culpa, aquela voz interna que diz “quem sou eu para querer mais?”. E ainda pela dependência emocional que, como uma âncora, mantém o barco parado mesmo quando o vento já mudou de direção.

Essa herança tem também uma dimensão histórica e cultural que não pode ser ignorada. Muitas mulheres de gerações anteriores não tiveram sequer a oportunidade de construir uma vida financeira independente ou uma carreira própria. Foram educadas para o casamento como destino. A dependência econômica criou uma submissão ao patriarcado que atravessou décadas, gerações, corpos. Mas o que mais me surpreende, e me mobiliza, é o que vejo acontecer com aquelas que já conquistaram essa independência financeira: mesmo livres economicamente, seguem presas emocionalmente. A estabilidade material não resolve o vazio interno deixado por anos de autoabandono.

O desaparecimento do “eu” raramente acontece de uma vez. Ele se dá em pequenas concessões cotidianas que vão se acumulando silenciosamente: a opinião que não foi dita, o limite que não foi colocado, o desejo que foi engavetado, a necessidade que foi minimizada. São escolhas que, isoladas, parecem insignificantes. Mas somadas ao longo de anos, redesenham por completo a identidade de uma mulher.

Para interromper esse processo, é preciso antes reconhecê-lo. E reconhecê-lo exige honestidade, não julgamento, mas uma escuta cuidadosa de si mesma. Quando foi a última vez que você fez algo que desejava, sem precisar justificar para ninguém? Quando foi a última vez que disse “não” sem sentir culpa? Quando foi a última vez que se sentiu inteira, não como mãe, não como companheira, não como profissional, mas simplesmente como você mesma?

Essas perguntas não são retóricas. Elas são o ponto de partida de uma tomada de consciência que pode transformar uma vida. Compreender a própria história afetiva, os modelos de relação que foram vividos e aprendidos dentro da família de origem, é fundamental para identificar os padrões que nos levaram a priorizar o outro em detrimento de nós mesmas. Não para culpar ninguém, mas para entender: aprendi a amar desta forma. E posso aprender de outra.

Amar sem se abandonar não é um conceito bonito para enfeitar uma conversa de autoajuda. É uma necessidade de sobrevivência emocional. É o que permite que uma mulher ocupe, enfim, o lugar que lhe cabe na própria biografia, não como coadjuvante, não como suporte para a felicidade alheia, mas como protagonista de uma história que é genuinamente sua.

O despertar dessa consciência é o primeiro passo. Não o último. Reconhecer o padrão é o começo de um caminho que exige coragem, método e, sobretudo, um espaço seguro onde esse processo de transformação possa acontecer.  

*É empresária, mãe de um lindo casal de filhos, cronista, coach de vida, mulher aos 60+, terapeuta, entusiasta da arteterapia, gastrônoma; um dos seus hobbies é a fotografia e criar arranjos florais, curiosa de nascença, aprendiz da vida e um Ser a caminho da evolução.

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