Biografia resgata Xica Manicongo, primeira trans do Brasil – 04/06/2026 – Ilustrada

0
2
Biografia resgata Xica Manicongo, primeira trans do Brasil - 04/06/2026 - Ilustrada

A história da primeira mulher trans do Brasil colonial é uma saga que abrange três continentes, o confronto entre a Inquisição e as religiões tradicionais da África e a trajetória trágica do reino do Congo, monarquia africana que se tornou oficialmente católica, mas nem por isso escapou da sanha escravista dos portugueses.

A documentação que permite reconstruir uma pequena parte da biografia de Xica Manicongo, como a personagem histórica ficou conhecida recentemente, está registrada em português do século 16 e italiano do século 17.

Mas o antropólogo e ativista Luiz Mott, de 80 anos, decidiu inserir outro ingrediente nessa salada linguística. Trata-se do pajubá, dialeto com influências do idioma iorubá empregado por travestis, mulheres trans e gays na mesma Salvador em que a “traviarca” (matriarca trans) viveu há mais de 400 anos.

“Normalmente, o meu jeito de escrever é mais tradicional. Gosto de latinismos e expressões antigas —a inteligência artificial vive me corrigindo por isso. Mas, como quero que a história atinja a população-alvo, as transsexuais e travestis, optei por ser jocoso, irreverente, e por dialogar com o leitor de forma menos convencional”, diz Mott à Folha. “Xica Manicongo, se fosse nossa contemporânea, certamente seria craque em pajubá.”

Em seu novo livro, “Xica Manicongo, Primeira Transexual do Brasil” —que apresenta neste sábado (6) numa mesa da Feira do Livro— Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, afirma que o mais provável é que a personagem originalmente fosse uma quimbanda, categoria de sacerdotisas responsáveis pelo sacrifício de animais nos cultos de regiões nos atuais Congo e Angola.

Relatos de missionários europeus indicam que as quimbandas eram biologicamente do sexo masculino, mas, desde o começo da infância, eram criadas para adotar modos, vestimentas e comportamento femininos.

“Xica” é uma designação surgida a partir do ativismo moderno, esclarece Mott. Na Bahia dos anos 1590, o nome que lhe impuseram seus escravizadores foi Francisco Manicongo —essa segunda parte só aparece na documentação dela (embora também chamem a personagem de “Francisco de Congo”). Entre todos os escravizados brasileiros, não há outro “Manicongo”.

Esse dado pode ser bastante significativo, já que esta era a designação dada aos reis congoleses, cristianizados por sua ligação diplomática com Portugal desde 1485 —o primeiro monarca adotou o nome luso de João 1º ao ser batizado.

No entanto, nada disso foi suficiente para impedir que expedições escravistas carregassem súditos dos monarcas africanos para os navios negreiros. “Temos a carta de um dos reis reclamando que estavam levando até parentes dele para o Brasil e para Portugal”, afirma Mott.

“A hipótese que eu defendo é que provavelmente Xica Manicongo era um membro relativamente distante da família real, que vivia em alguma das aldeias na periferia do reino, foi apanhada e vendida”, resume.

Por outro lado, também não se pode descartar que ela tenha inventado a ligação com os monarcas africanos e sua posição de prestígio como quimbanda como forma de autopromoção entre os demais escravizados da Bahia.

O certo é que as breves menções à figura, todas oriundas de documentos da Inquisição portuguesa, mencionam o que hoje chamaríamos de uma “performance de gênero” feminina, assim como o uso de roupas que remetem à indumentária tradicional das quimbandas, descrita e até retratada na documentação da época colonial.

Esses documentos foram redigidos em 1591, durante a primeira visitação do Santo Ofício à Bahia. O termo se refere ao fato de que não havia um tribunal da Inquisição fixo na então colônia portuguesa (na verdade, “ibérica”, já que nessa época Portugal estava unido à Espanha numa só monarquia).

Os “visitadores” enviados de Portugal vinham periodicamente ao Brasil para investigar a presença de desvios na doutrina católica e transgressões morais consideradas graves, como a sodomia (termo que englobava tanto a homossexualidade quanto outras práticas sexuais desaprovadas pela Igreja).

Nessas visitações, os moradores eram instados tanto a confessar suas próprias violações quanto a denunciar práticas consideradas ilícitas de outras pessoas. Foi assim que o nome de Francisco de Congo ou Manicongo foi parar nos registros do visitador Heitor Furtado de Mendonça.

Matias Moreira, português que morava em Salvador, contou ao inquisidor que dois africanos escravizados tinham tentado roubar o colégio dos jesuítas e foram presos. Como Moreira entendia o idioma dos africanos, por ter vivido nas áreas invadidas pelos portugueses do outro lado do Atlântico, ouviu os escravizados dizendo que um tinha levado o outro a “cometer o pecado nefando” (ter relações homossexuais).

O português acrescentou então que “Francisco de Congo”, escravizado por um sapateiro, também teria esse hábito e agia assim de forma mais ou menos aberta na pequena cidade (então somando, no centro urbano e regiões vizinhas), poucos milhares de habitantes.

Segundo Moreira, “é costume entre os negros gentios trazerem um pano cingido com as pontas por diante, que lhe fica fazendo uma abertura”, mais ou menos como uma toalha enrolada no corpo, compara Mott.

Essa roupa seria típica “dos negros somítigos [homossexuais] que no pecado nefando servem de mulheres pa­cientes [ou seja, passivas], aos quais chamam, na língua de Angola e Congo, ‘imbandaa’, o que quer dizer somítigos pacientes”, registra a denúncia.

É justamente a semelhança do termo com “quimbanda”, bem como a roupa feminina que bate com as descrições das sacerdotisas africanas, que levou especialistas modernos como Mott a concluir que Francisco Manicongo provavelmente se encaixava nessa categoria.

Embora as relações sexuais não aprovadas pela doutrina da Igreja pudessem até ser punidas com a morte, não há registros de autoridades portuguesas realizando esse tipo de execução no Brasil colonial, diz o antropólogo. Houve, porém, sentenças de açoitamento público.

O nome “Xica” passou a ser aplicado à personagem em 2010 pela militante travesti carioca Majorie Marchi. Com essa designação, ela foi tema do samba-enredo “Quem Tem Medo de Xica Manicongo?”, da escola de samba carioca Paraíso do Tuiuti. “É uma carnavalização que eu apoio”, diz Mott.



Fonte ==> Uol

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui