A rota entre a cidade de São Paulo e Belém do Pará leva cerca de 60 horas para ser feita sobre rodas. Pelo menos é esse o tempo que Ediandro Martins, de 30 anos —destes, nove como caminhoneiro—, demora para fazer o percurso. Em boa parte desse caminho não há sinal de internet, como é o caso de um terço das rodovias do Brasil, segundo dados da Anatel.
Durante o percurso, é necessário manter a mente alerta. O silêncio pode ser insuportável e bastante perigoso. Uma solução instintiva é ouvir música e torcer para que batidas intensas chamem a atenção do cérebro mais do que embalem o sono.
Mas um pacote pago em algum serviço de streaming, como Spotify ou Deezer, que garante músicas offline e o fim de propagandas entre as canções, é um custo que muitos caminhoneiros não podem ou não estão dispostos a pagar. Um ano de assinatura, afinal, pode chegar a cerca de R$ 300.
Pela estrada afora, ao longo das 60 horas, dá tempo suficiente para escutar por volta de mil músicas. Uma alternativa, na impossibilidade de acessar a versão gratuita desses aplicativos, que depende de internet,
é recorrer a métodos clássicos. CDs e fitas cassete podem ajudar, mas eles têm um limite baixo de músicas por unidade. Um pen drive, no entanto, pode comportar mais de 5.000 faixas, com preços a partir de R$ 20.
“O pen drive é bom por questão de qualidade. Ele chega onde não tem sinal e eu não consigo acessar a internet para ouvir uma música. Com eles, não falta música, tem o tempo todo”, diz Martins.
É nas paradas de postos de combustível e nos restaurantes de beira de estrada que o mercado físico de dados ainda sobrevive. Por alguns reais, Martins e seus colegas compram seleções prontas, com curadoria dos chamados DJs de pen drive, que entendem o ritmo da rodovia.
Há uma parte mais tecnológica desse mercado, que migrou em parte para o virtual e agora é encontrado em sites de varejo como Mercado Livre e Shopee.
Existe pen drive para todos os gostos. De acordo com uma pesquisa realizada pelo estúdio e consultoria 300Noise, a curadoria desses dispositivos atende desde o público da “roça”, que busca o som “caipira raiz”, repleto de modões e sons de viola, até os entusiastas do gospel, que buscam hinos e louvor.
O sertanejo moderno e a música eletrônica —com forte apelo para o flashback e as discotecas dos anos 1980— ocupam posições centrais na busca dos motoristas, seguidos pelo vigor do rock nacional e da MPB. Por fim, as seleções ecléticas, que reúnem os grandes sucessos e hits do momento, como faixas em ascensão no TikTok, também aparecem entre as buscas de caminhoneiros.
“Eu sou a pessoa eclética, eu escuto de tudo um pouco, desde as músicas mais antigas até as mais atuais e mais tocadas do momento”, diz Martins. “Cada dia é uma vibe diferente, um pensamento diferente, a gente escuta música de acordo com a vibe do dia.”
A rede dos pen drives funciona como um canal informal de escoamento para novas vozes de nicho, operando à margem das plataformas de streaming tradicionais. Ao circular pelas BRs, os pen drives rompem barreiras geográficas, sociais e geracionais, e permitem que artistas locais construam bases de fãs que vão do Norte ao Sul do Brasil.
A estratégia não é desconhecida. Alguns nomes do sertanejo dos anos 2000, por exemplo, utilizavam essa estratégia para a divulgação de novos trabalhos.
Ao viajar de cabine em cabine e cruzar estados, esses dispositivos ajudam a espalhar repertórios regionais e independentes entre públicos que, em muitos casos, têm acesso limitado ao mercado fonográfico digital.
Há quem opte por uma produção personalizada e configure seus próprios aparelhos. Luiz Antônio de Freitas, de 48 anos, que diz que está na estrada “desde menino”, faz sua própria seleção de músicas e afirma que “não é desse negócio de Bluetooth”.
Mais do que só selecionar músicas, esses curadores ampliam a experiência de escuta ao assumir também a função de locutores das rodovias. Como se fosse a programação de um rádio, esses pen drives trazem áudios com saudações a outros motoristas, guias comerciais de serviços regionais e orientações sobre segurança e saúde mental, abordando inclusive o uso de entorpecentes.
De acordo com uma pesquisa da Coordenadoria Nacional de Defesa do Meio Ambiente e do Trabalho, 50% dos condutores com jornadas acima de 16 horas recorrem a substâncias químicas para continuarem acordados e em alerta.
A curadoria feita pelos DJs de pen drive é essencialmente humana, distante de qualquer mediação por inteligência artificial, como é o caso das plataformas de streaming. São os próprios DJs — muitas vezes inseridos no cotidiano das estradas — que definem o que entra ou não nos dispositivos, a partir de repertórios testados na prática e de conversas com os caminhoneiros.
A locução estabelece uma comunicação direta com quem atrás do volante, utilizando gírias do setor para discutir desde a espiritualidade até lendas das estradas, diz Felipe Alves, que trabalhou na pesquisa da 300Noise.
Para muitos motoristas, esses DJs funcionam como um suporte psicológico. O tom oscila entre o humor e o acolhimento, ajudando a lidar com o isolamento e, principalmente, a saudade da família nas longas distâncias.
O grande precursor desse tipo de comércio foi DJ Wagner, que não só reúne as músicas em um pequeno estúdio do lado de uma parada de caminhão, como se intitula caminhoneiro até morrer. Nas estradas, ele é um dos nomes mais conhecidos das mixagens.
Outros vieram depois, como DJ Adré Zanella e Pilha, DJ Acarajé e os locutores Maicon Lima e Edson Mídia. Apesar de sempre ter tido vontade, Nilton Júnior, conhecido como poeta dos caminhoneiros, não conseguiu seguir a profissão. Mas encontrou na escrita uma forma de se aproximar dessa realidade. “Eu sempre tive vontade de ser caminhoneiro. Como não tive oportunidade, passei a retratar a rotina deles, a estrada”, afirma.
As histórias que se transformam em poesia partem de experiências concretas. “Tem a de alguém que venceu, que conseguiu ser caminhoneiro, e a de quem infelizmente perdeu a vida na estrada. Isso faz delas únicas.”
“Os próprios caminhoneiros contam as histórias pra mim, e eu só transformo em rima”, diz Júnior. Segundo ele, a aposta inicial de gravar seu trabalho parecia improvável. “As pessoas achavam que poesia não era comum entre caminhoneiro, mas eles são um público carente, cheio de dores, de saudade, de ansiedade.”
Com o tempo, os áudios passaram a circular junto das músicas nos pen drives. “O caminhoneiro é muito solitário, passa a maior parte do tempo ouvindo alguma coisa na estrada”, afirma. “E vai atualizando, cada posto tem um pen drive diferente.”
O retorno, diz, aparece na recepção do público. “Eu acredito que a gente formou muito caminhoneiro. Muita gente que tinha desistido do sonho passou a ter outros olhos. O caminhoneiro passou a ser visto de forma diferente, por meio de uma poesia que enaltece a classe”, diz.
A circulação desses conteúdos escapa a mecanismos formais de controle. Sem métricas confiáveis de execução ou alcance, não é possível dimensionar quantas vezes uma música é reproduzida nem mapear com precisão sua difusão pelas estradas. Por isso, não dá para dizer, por exemplo, que artista deve uma parcela de sua popularidade aos ouvintes sobre rodas.
O pen drive opera como um circuito paralelo de circulação musical. Fora das lógicas de recomendação das plataformas, ele amplia o alcance de artistas e gêneros que raramente aparecem nos algoritmos dominantes.
A prática, porém, levanta questionamentos sobre direitos autorais e pirataria. Para Júnior, que produz seus poemas e publica o trabalho no Spotify, isso não é uma preocupação. Ele não se incomoda de ter seus trechos gravados em pen drives sem permissão. “O mais importante é a mensagem ser passada adiante”, diz.
Felipe Alves, da 300Nois, diz que esse circuito revela uma outra forma de pensar a música. É um jeito de não depender exclusivamente do meio digital e ainda manter um resquício da mídia física. Além disso, os pen drives levam a música para lugares que não são ditados pela lógica do mercado, baseada em números.
Numa indústria em constante transformação pela tecnologia, esse mercado paralelo se mantém presente, em parte pela fidelidade de seus ouvintes. “Eu nunca vou deixar de escutar músicas por pen drive”, diz Luiz Antônio.
Fonte ==> Uol


