Em ‘Copan’, complexidade do edifício foge pelas beiradas – 02/06/2026 – Ilustrada

0
5
Em 'Copan', complexidade do edifício foge pelas beiradas - 02/06/2026 - Ilustrada

Como o próprio nome diz, “Copan” é um documentário sobre o Edifício Copan, que completou seis décadas neste mês. Mas isso traz à diretora, de imediato, um enorme problema —por onde apanhar esse edifício? O momento da construção, a importância urbana na São Paulo das décadas de 1950 e 1960, quando ela era “a cidade que mais cresce no mundo”?

Ou seria a solução explorar de que forma ele persiste como um cartão-postal da cidade tantas décadas depois e apesar de terem construído um edifício horrível bem na sua frente? Ou o que restou do projeto de Niemeyer, um prédio onde convivessem diferentes classes sociais? E que fosse um centro comercial que antecipava, de certa forma, as superquadras brasilienses, ou, ainda, os altos e baixos de sua história?

Tudo isso esteve, certamente, nas preocupações da diretora Carine Wallauer. Sabendo que a história do Copan era necessariamente mais ampla do que as possibilidades do filme, ela priorizou alguns aspectos. O ponto de partida foi construir um Copan que evitasse entrevistas habituais com os moradores do local.

Já no início, somos jogados diante da figura principal do Copan —seu síndico, em pleno trabalho. É alguém que chamam até de subprefeito, aquele que comanda uma estrutura enorme e complexa de funcionários e atividades. Um homem estressado, que precisa falar por telefone com um condômino que acusa o vizinho de tê-lo xingado. Ele sugere qualquer coisa e desabafa: “Preciso agora ensinar as pessoas a terem educação?”

O síndico pode ser importante nessa história, mas não o centro. Estamos em um edifício que tem desde apartamentos confortáveis até quitinetes. O que cada um pede dele? Há situações em que ele mostra um quê ditatorial, ou ao menos autoritário.

Há outros aspectos. O arquitetônico, evidente, é outro: é nele que possivelmente Wallauer melhor se sai. Explora não o óbvio, mas aquilo que raramente o passante vê com os seus olhos: rampas, o subsolo, as escadarias, as portarias, os trabalhadores, o andar superior, os corredores, janelas.

Há planos belíssimos, mas sempre fica a sensação de que o aspecto arquitetônico não explica tudo. Nem poderia. A ideia de evitar entrevistas nos priva de conhecer a diversidade dos habitantes ou passageiros —hoje é um lugar onde há até Airbnb.

Quanto aos proprietários, há os que compraram apartamentos “na baixa”, quando o centro estava fora de moda e o edifício andava em estado precário, e os que chegaram nos bons tempos, agora, com o centro em revitalização e o edifício com boa fama.

Com tanta coisa, é difícil evitar a dispersão. A diretora não dá conta de tudo. Apenas no final, na verdade, parece achar um eixo para ancorar sua narrativa. Estamos a certa altura no dia das eleições presidenciais de 2022. Segundo turno. É evidente que num edifício dessas proporções se encontrem adeptos e mesmo propagandistas de um e de outro candidato. O filme parece não ligar tanto para o fervilhar na cidade, ao menos até o momento decisivo da apuração.

Pode-se ver a ansiedade dos partidários de Lula —apesar de pouco, o que é uma pena— e a progressiva desesperança de bolsonaristas, que escutam ao longe o ruído das festividades petistas. Podemos ver a festa feita num bar —ou restaurante— no térreo do Copan, mas é apenas uma festa genérica, sem mais.

É uma pena que Carine Wallauer não tenha feito das eleições o eixo central de sua empreitada. Não para explorar o lado político, mas trazer as diferentes formas de ver o país, a vida, o mundo, mostrar por que alguns se desconsolam enquanto outros se alegram. O que esperam ou esperavam do futuro?

Pois a eleição é, em boa medida, feita de fantasia e projeção de futuro. Assim, também a vida dos condôminos de um edifício, que não se limita a ser um lugar de habitação, mas de convívio de diferenças.

É um pouco dessa vida, dessas trocas que o filme deixa escapar. O lado dos petistas, dos antipetistas ou mesmo dos indiferentes. Este confronto, que habitava os apartamentos, sua decoração, suas roupas, mas também as conversas, lojas, praças de entrada, teria criado a unidade que o filme busca, mas não alcança.

Era mesmo difícil —o Copan não é só um edifício, é também um labirinto. Algo que o filme, com seus altos e baixos, até consegue, de tempos em tempos, sugerir.



Fonte ==> Uol

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui