Empresas de transporte aceleram debate sobre governança para sobreviver à pressão por eficiência e sucessão familiar

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Huérinton Dal Magro

Dependência dos fundadores, falta de indicadores e decisões concentradas ainda travam crescimento de transportadoras brasileiras; especialista defende profissionalização urgente da gestão

O transporte rodoviário de cargas continua sendo uma engrenagem central da economia brasileira, responsável por movimentar praticamente toda a cadeia produtiva nacional, do agronegócio à indústria, passando pelo varejo e o comércio eletrônico. Mas, por trás da relevância econômica do setor, cresce uma preocupação silenciosa entre empresários e executivos da logística: a fragilidade da governança corporativa dentro das transportadoras brasileiras.

Em um mercado pressionado por aumento de custos operacionais, juros elevados, escassez de mão de obra e necessidade crescente de eficiência, empresas excessivamente dependentes dos próprios fundadores começam a enfrentar dificuldades para crescer de forma sustentável.

O problema é especialmente recorrente entre companhias familiares, perfil predominante no setor de transporte. Entidades empresariais e estudos de governança estimam que cerca de 90% das empresas brasileiras possuem perfil familiar. Levantamento da CNT mostra que o transporte rodoviário interestadual de passageiros é amplamente dominado por empresas familiares, que representam 93,3% do setor.

Apesar da forte presença econômica, a longevidade dessas empresas ainda é um desafio. Estudos recentes mostram que apenas 30% das empresas familiares conseguem chegar à segunda geração e menos de 12% alcançam a terceira, fatores frequentemente associados à falta de planejamento sucessório e à baixa profissionalização da gestão.

Para Huérinton Dal Magro, especialista em governança corporativa e eficiência operacional no segmento logístico, muitas transportadoras cresceram comercialmente, mas sem construir estruturas internas capazes de sustentar a expansão.

“Existe uma cultura muito forte de centralização dentro do transporte. Em muitas empresas, praticamente todas as decisões passam pelo dono, desde negociação comercial até questões operacionais do dia a dia. Isso cria gargalos, reduz velocidade de resposta e limita a capacidade de crescimento”, afirma.

Com mais de duas décadas de atuação no setor, Dal Magro construiu carreira em empresas como Transportadora Plimor, Transportes Translovato Ltda, Frozilog Soluções Logísticas e Irapuru Operador Logístico, liderando projetos voltados à estruturação comercial, implantação de indicadores de desempenho e fortalecimento da governança operacional.

Segundo ele, um dos maiores problemas do setor está na gestão baseada em percepção, urgência e improviso, e não em dados.

“Muitas transportadoras ainda operam sem indicadores confiáveis, sem processos claros e sem definição objetiva de responsabilidades. Quando isso acontece, a empresa perde previsibilidade, aumenta desperdícios e reduz margem operacional”, diz.

O ambiente corporativo brasileiro também atravessa um momento de maior pressão financeira. Segundo a Serasa Experian, o país encerrou 2025 com recorde histórico de inadimplência empresarial, atingindo 8,9 milhões de empresas negativadas e mais de R$ 213 bilhões em dívidas.

No transporte, onde margens já operam pressionadas por combustível, manutenção de frota, seguros, pedágios e infraestrutura rodoviária precária, falhas de gestão podem rapidamente comprometer a saúde financeira da operação.

Dal Magro afirma que governança deixou de ser um conceito restrito a grandes corporações e passou a ser uma questão de sobrevivência competitiva.

“Governança não significa burocratizar a empresa. Significa criar clareza, previsibilidade e capacidade de decisão. Empresas que dependem exclusivamente do fundador para funcionar carregam um risco operacional enorme”, afirma.

Nos últimos anos, o executivo liderou projetos ligados à implementação de dashboards gerenciais, KPIs operacionais e estruturas de Control Tower para ampliar o controle sobre operações logísticas complexas. O tema também foi aprofundado em seu estudo acadêmico publicado em 2026 na revista Artefactum, sobre gestão proativa e desempenho operacional em empresas de transporte.

Na avaliação de Dal Magro, a falta de governança também costuma distorcer a própria percepção de crescimento dentro das transportadoras. Segundo ele, muitas empresas ainda associam expansão apenas ao aumento de volume transportado ou ao avanço do faturamento, sem analisar indicadores essenciais ligados à rentabilidade e à eficiência operacional.

“Muitas empresas comemoram crescimento de faturamento sem analisar margem, eficiência operacional ou capacidade de execução. Crescer transportando mais carga sem controle pode gerar exatamente o efeito contrário: perda de rentabilidade e aumento de risco”, afirma.

O avanço da digitalização, da rastreabilidade logística e da exigência crescente por eficiência operacional também tem elevado a pressão por profissionalização no setor. Segundo Dal Magro, transportadoras que conseguirem estruturar governança, sucessão e gestão baseada em dados terão vantagem competitiva relevante nos próximos anos.

“O setor de transporte sempre foi muito resiliente, mas o mercado mudou. Hoje, competitividade depende de gestão, disciplina operacional e capacidade analítica. As empresas que entenderem isso antes terão mais condições de crescer de forma sustentável e atravessar ciclos econômicos com mais estabilidade”, conclui.

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