Investimentos recordes em inteligência artificial esbarram em cultura organizacional; 70% das transformações digitais ainda falham por falta de gestão de mudança, dizem consultorias.
A corrida global pela supremacia na Inteligência Artificial (IA) atingiu um novo patamar de frenesi financeiro. Segundo dados recentes do Gartner, os gastos mundiais com IA totalizaram cerca de US$ 1,5 trilhão em 2025, um salto significativo que reflete a urgência das corporações em integrar modelos generativos e agentes autônomos em suas operações. No entanto, por trás das cifras bilionárias, surge um abismo de execução: a incapacidade das organizações em gerir a mudança humana necessária para sustentar a inovação.
O paradoxo é evidenciado por estudos da McKinsey e do Boston Consulting Group (BCG), que indicam que aproximadamente 70% das iniciativas de transformação digital fracassam em atingir seus objetivos originais. O motivo, apontam especialistas, raramente é a falha do código ou do algoritmo, mas sim a resistência cultural e a falta de preparo das lideranças e equipes.
O Fator Humano como Eixo Central
No Brasil, o cenário não é diferente. O Índice de Transformação Digital Brasil (ITDBr) 2025, desenvolvido pela PwC em parceria com a Fundação Dom Cabral, revelou que, embora as empresas tenham avançado em infraestrutura e dados, a dimensão de “Pessoas e Cultura” continua sendo um dos maiores entraves.
Para Ana Paula Ribeiro Santana, especialista da prática de Talent & Organization da Accenture e uma das vozes influentes em gestão de mudança no país, a tecnologia está evoluindo em uma velocidade que as estruturas organizacionais tradicionais não conseguem acompanhar.
“O erro clássico é tratar a IA como um ‘plug-and-play’ tecnológico”, afirma Santana. “A verdadeira transformação digital é, na verdade, uma transformação da força de trabalho. Sem uma estratégia clara de Change Management, o investimento em IA torna-se um custo irrecuperável.”
A Ascensão da IA Agêntica e o Gap de Valor
Um dos dados mais críticos de 2025 aponta para o surgimento da “IA Agêntica”, sistemas que não apenas geram conteúdo, mas executam tarefas de forma autônoma. O BCG estima que esses agentes já representam 17% do valor total gerado por IA este ano, com previsão de chegar a 29% até 2028.
Contudo, apenas 5% das empresas no mundo são classificadas como “construídas para o futuro”, conseguindo extrair valor real dessas tecnologias. Essas líderes investem pesadamente em requalificação e em modelos de governança que colocam o ser humano no centro da decisão.
Considerações Estratégicas: O Olhar de Ana Paula Ribeiro Santana
Em um cenário global de rápida transformação digital, a brasileira Ana Paula Ribeiro Santana, única representante do país no seleto grupo de autores do white paper global “Navigating the Future of Change Management” da ACMP (Association of Change Management Professionals), destaca pilares essenciais para o sucesso das organizações na jornada de implementação da Inteligência Artificial.
Santana enfatiza que a liderança ambidestra é crucial. Executivos devem ser capazes de gerenciar as operações atuais enquanto simultaneamente projetam o futuro com a IA evitando o que ela descreve como “teatro da inovação”. A gestão da mudança, segundo a especialista, deve ser iniciada no nível C-level para garantir uma adoção genuína e eficaz.
Outro ponto vital é a alfabetização de dados e IA. Não basta apenas contratar cientistas de dados; é imperativo que os colaboradores em todos os níveis compreendam como a IA pode potencializar suas funções, dissipando o receio de substituição. Este entendimento coletivo é fundamental para a integração bem-sucedida da tecnologia.
A agilidade organizacional é apresentada como um fator determinante. Santana argumenta que a mudança deixou de ser um evento com início e fim, tornando-se uma constante. Estruturas rígidas e hierárquicas são, portanto, o maior obstáculo para a implementação da IA exigindo das empresas uma capacidade de adaptação contínua.
Por fim, a ética e governança são pilares inegociáveis. A transparência no uso da IA é fundamental para construir confiança interna, um elemento sem o qual a adoção da tecnologia não se concretiza, comprometendo o retorno sobre o investimento.
Ana Paula Ribeiro Santana conclui com uma reflexão poderosa: “No fim, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia que as empresas possuem, mas na rapidez com que conseguem preparar suas pessoas para evoluírem junto com ela.”


