A criançada está de boa. Um youtuber de 20 anos lançou um dos mais perspicazes filmes de terror em anos —justamente em tempos perniciosos, em que todo autor metido prefere fazer um “horror elevado” porque confunde caricatura com metáfora e demagogia com comentário social.
No papel, “Backrooms: Um Não-Lugar” lembra boa parte dos filmes de terror americanos da última década. Seus personagens são atravessados por quantidades cômicas de trauma e luto, e todo elemento sobrenatural é, antes de mais nada, uma metáfora para a condição contemporânea.
Chiwetel Ejiofor interpreta Clark, um pretenso arquiteto que ganha a vida vendendo mobiliário de ponta de estoque e bebe para esquecer a dor do divórcio. Renate Reinsve é Mary, a terapeuta de Clark, que vende fitas de autoajuda, e sofre com as memórias da sua mãe esquizofrênica.
Como outros filmes do gênero, esses intensos fios dramáticos não são explorados com carinho, mas isso pouco importa. Aqui, o trauma é a metáfora, e a metáfora é o trauma.
O “não lugar” do subtítulo é inspirado numa “creepypasta” —uma lenda urbana criada na internet. A partir de um estímulo sinistro, mas vago —como um texto, uma foto ou um vídeo—, uma comunidade online descreve em conjunto uma mitologia que o justifique. Uns acabam tomando as rédeas da narrativa, como o diretor Kane Parsons.
“Backrooms” transpõe essa dinâmica na relação paciente-psicanalista, que, juntos, tentam desenhar uma saída, ou apenas o contorno, dos ciclos de miséria que o ego e a memória nos prendem. O mobiliário e a geografia dos “backrooms” são o mobiliário e a geografia interior de Clark; um labirinto de caminhos impossíveis e abstratos, povoado por criaturas grotescas que lembram pessoas e coisas da vida real.
A perspicácia do filme está em condicionar essa interioridade a forças ainda maiores e malignas, que achatam a vida exterior na mesma medida que a interior —isto é, os quereres do capital.
O mobiliário barato e homogêneo, a luz fluorescente, o carpete de escritório mofado cercam e degradam a vida de Clark por dentro e por fora. Ambientado no início dos anos 1990, o filme é repleto de mídias analógicas —fitas cassete e VHS, TVs de tubo, sintetizadores—, como se tentasse atestar o tangível por essas tecnologias. Mas tudo ao redor é tacanho, barato e desimportante; é a fantasia de vida vendida por uma loja de mobiliário.
A certa altura, o vasto não lugar —espaço maldito onde as memórias se corrompem e onde a relação entre território e mapa não importa— passa a ser mais sedutor que o mundo lá fora. Coincidência ou não, o início dos anos 1990 é um importante momento de transição, em que migramos da concretude do analógico e descemos ao inferno do digital.
“Backrooms” é a impactante estreia de um cineasta com sensibilidade para explorar o delírio contemporâneo de formas mais inteligentes que muitos dos seus pares. É um filme sobre trauma, que também faz uma sátira do trauma. Um terror metafórico que parece superficial, mas é elegante na sua simplicidade. O escopo da sua leitura se expande em arquiteturas impossíveis, como as próprias “backrooms”.
Fonte ==> Uol


