‘Privadas de Suas Vidas’ mistura comédia, luto e terror – 17/09/2026 – Ilustrada

0
4
'Privadas de Suas Vidas' mistura comédia, luto e terror - 17/09/2026 - Ilustrada

Em “Privadas de Suas Vidas”, as privadas de um condomínio começam a matar seus moradores. Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner levam a premissa sem pudor, e transformam vasos sanitários em monstros de uma comédia de terror escatológica, com direito a sangue, fezes, vômito e gente engolida pelo encanamento.

Exibido na noite de quarta (16) na competição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o longa tem Martha Nowill, protagonista e corroteirista de “Vermelho Russo”, como Malu, uma mulher que tenta lidar com a morte de um dos filhos num acidente com uma privada. Ela sofre de constipação crônica e tem uma relação conflituosa com Gênesis, seu filho adolescente transgênero.

A ideia do filme começou anos atrás, numa conversa entre os dois diretores após terem se conhecido no Festival de Roterdã, em 2015. A partir de um texto do crítico Eduardo Valente sobre “O Elevador Assassino”, os dois começaram a discutir filmes em que objetos inanimados matam pessoas.

“Não existe filme de privada assassina”, lembrou Vinagre, diretor de “Três Tigres Tristes”, no debate que aconteceu na manhã desta quinta. A partir daí, os dois passaram a trocar mensagens e áudios e criaram um arquivo digital para reunir ideias. Entre as referências estavam “O Elevador Assassino”, “The Mangler”, “Camisinha Assassina” e “Shivers”, de David Cronenberg.

A dificuldade era transformar um objeto que não se move num monstro. Gewdner diz que justamente aí estava a graça. “É meio que o monstro estático. A pessoa precisa ir até o monstro, e não o monstro vai até ela”, afirma. “Só que a privada é fácil, porque todo mundo vai ao banheiro. Você nem precisa atrair.”

O projeto ganhou outro tamanho quando chegou a Rodrigo Teixeira, produtor brasileiro cuja RT Features esteve por trás de filmes como “Me Chame pelo Seu Nome”, “A Bruxa”, “O Farol”, “Ad Astra” e “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de filme internacional.

Vinagre conta que Teixeira havia lhe oferecido um livro para uma possível adaptação. O diretor não gostou da obra e apresentou uma proposta de adaptação bastante livre. Isso não entusiasmou o produtor, que pediu outra ideia.

“Eu falei: ‘Gente, Rodrigo Teixeira, produtor poderoso, ele deve estar me zoando. Não é possível, ele não vai fazer um filme meu’. Aí falei: ‘Vou falar a ideia mais absurda que eu tenho, que é o filme com o Gurcius, que a gente vinha há anos elaborando’.”

A reação foi oposta à esperada. “Ele caiu para trás e começou a rir. E falou: ‘Eu quero agora, quero agora’.”

Com a entrada de Martha Nowill, que também é mãe de gêmeos, o filme ganhou um núcleo dramático. Para a atriz, a constipação da personagem funciona como uma manifestação física da incapacidade de elaborar a perda do filho.

“A constipação é a somatização dela de não conseguir liberar esse luto, não conseguir liberar essa dor”, diz. “Eu terminei o primeiro argumento e o Rodrigo me ligou rindo, falando: ‘Muito legal!’. E eu falei: ‘É, mas é um drama também’.”

Nowill conta que os diretores lhe enviaram uma lista de 75 filmes de terror como preparação. Ela, que diz ter medo do gênero, pediu que separassem quais davam menos medo.

O drama da protagonista contrasta com personagens deliberadamente mais caricatos. Um dos melhores é Kátika, vivida por Olivia Torres, de “Ainda Estou Aqui”, como uma espécie de estrangeira fabricada pelo cinema de gênero.

Torres buscou referências nas protagonistas de filmes de terror de décadas passadas, que descreve como uma combinação estranha entre sensualidade e ingenuidade. “As protagonistas sempre são um pouco pueris e muito sexys. É uma mistura muito esquisita.”, conta ela.

“Eu estou fazendo uma estadunidense brasileira. Eles estão fazendo isso com a gente, com todo mundo do mundo inteiro, há anos”, diz.

A atriz criou o sotaque da personagem e enviou um teste aos diretores. Segundo ela, Rodrigo Teixeira respondeu imediatamente: “Fala mais, fala mais”. Torres acabou passando cerca de três semanas falando como Kátika mesmo fora das filmagens.

Também partiu dela a ideia de uma cambalhota que a personagem dá em uma das cenas. Torres não sabia executar o movimento. “Terminei toda roxinha.”

Ela conta que a própria construção das interpretações obedecia a uma espécie de escala. “Quanto mais distantes do drama central de Malu e Gênesis [personagem não-binário interpretado por Benjamin Damini], mais a gente podia colocar cor na comicidade, no caricatural.”

Os banheiros onde boa parte dessa mistura termina em sangue são, em sua maioria, cenários. Gewdner diz que foram construídos com paredes removíveis e espaço inferior para permitir que câmeras, equipe e atores circulassem por baixo das privadas.

“Dava para ficar brincando de entrar nas privadas que nem escorregador”, ele conta. Partes dos apartamentos também foi construída em estúdio, enquanto outras cenas foram feitas em prédios reais de São Paulo, principalmente nas regiões da Bela Vista e da República.

Antes de chegar a Brasília, “Privadas de Suas Vidas”, que internacionalmente circula como “Bowels of Hell”, teve estreia mundial no Festival de Roterdã e passou pelo Fantasia, em Montreal. No festival canadense, recebeu o prêmio da Associação Quebequense de Críticos de Cinema, concedido por um júri a partir de uma seleção de 11 longas.

O percurso internacional dá uma resposta à pergunta que originou o projeto anos atrás. Filme de privada assassina não havia. Agora há.



Fonte ==> Uol

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui