Quando caminhamos pelas ruas da cidade, sabemos nomear as espécies de árvores que vemos pelo caminho? Será uma sibipiruna, uma tipuana ou um manacá-da-serra? As pessoas muitas vezes reconhecem com facilidade animais exóticos da savana africana, mas silenciam diante da flora que sombreia suas próprias calçadas. Essa desconexão com o meio ambiente revela um sintoma da nossa época: a crença de que a humanidade está separada da natureza, como se o mundo natural fosse apenas um cenário distante, e não a nossa própria casa.
É justamente para encurtar essa distância, trocando a frieza dos dados pelo calor do afeto, que Regina Casé retorna aos palcos em 2026 com o espetáculo “Viva! Vida!”, marcando um reencontro aguardado após mais de três décadas de ausência física do teatro.
Sob a direção de Daniela Thomas e Estevão Ciavatta, a atriz costura astrofísica, biologia evolutiva e as complexidades da nossa rotina hiperconectada. Longe de soar como palestra acadêmica cheia de termos difíceis ou um manifesto ecológico, a peça se constrói no olho no olho e no desabafo sincero. O humor vira a chave principal para digerir temas urgentes sobre o destino do planeta e a nossa própria escala diante da imensidão do universo.
No palco, Regina assume a palavra para aproximar a termodinâmica e a crise climática global da nossa sensibilidade, desarmando o peso da ciência com o frescor de uma crônica do cotidiano. Ela rebate o purismo de quem critica seu ativismo com o argumento simples de que a arte existe justamente para cruzar fronteiras e exercitar a nossa capacidade de se colocar no lugar do outro.
A própria origem do projeto traz essa mistura entre o estudo e a vivência de casa. Tudo começou quando Ciavatta, seu companheiro, começou a pesquisar para um documentário sobre processos de desertificação e envolveu Regina em conversas com cientistas como Antônio Nobre e Fábio Scarano. Fascinada pela poesia que existia na fala dos pesquisadores, ela percebeu que aquele conhecimento precisava ganhar o mundo.
Visualmente, o cenário concebido por Daniela Thomas ajuda a dar corpo a esse sentimento, sem recorrer a caminhos óbvios. O palco se transforma em uma paisagem abstrata com estruturas rochosas áridas que lembram o solo de Marte, um lembrete silencioso do que acontece com um mundo que desiste da vida.
No centro, um globo terrestre azulado fica suspenso e recebe o toque delicado, quase de mãe, da atriz, simbolizando a extrema fragilidade do nosso ecossistema. A imersão ganha profundidade com a tela de LED do Estúdio Radiográfico, que projeta poeira cósmica e constelações, em perfeita sintonia com a luz acolhedora de Beto Bruel e a trilha viva do pianista Amaro Freitas, cujo jazz contemporâneo conversa com as nossas raízes afro-brasileiras.
A beleza de “Viva! Vida!”, contudo, está na recusa em deixar quem assiste na posição de espectador passivo. Vinda da escola do grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone”, que sacudiu o teatro brasileiro nos anos 1970 com o improviso e o olho no olho com o público, Regina subverte as regras logo na introdução da peça.
Em vez de pedir que os celulares sejam guardados, ela convida todos a usarem os aparelhos. O celular passa a fazer parte do jogo: serve para rir do nosso próprio vício digital e do isolamento das telas, mas também vira um motor de imprevistos. Ao descer até a plateia para espiar os perfis reais do Instagram das pessoas, Regina transforma o acaso em roteiro vivo, provando que a imensidão do cosmos e a nossa vidinha conectada caminham lado a lado.
Três perguntas para…
… Regina Casé
Como a gente faz para reaprender a olhar para o que está perto? Como reatar esse cordão umbilical com a terra no meio do caos urbano?
Para reaprender a olhar para o que está perto precisamos lembrar de quando a gente era pequeno, que tinha aquela curiosidade danada, que você podia ficar uma hora olhando para um parafuso. Na casa da minha avó, por exemplo, tinha um negócio que enroscava na cristaleira e eu podia passar o dia só olhando para ver como é que aquilo funcionava. Eu acho que é isso.
Tem que ativar a curiosidade de quando você era criança, que às vezes você perdeu. Já para reatar o nosso cordão umbilical com a Terra no meio do caos urbano eu acho que a gente deve pensar em todos os elementos que existem, né? Do céu até o fogo, a água, a terra, o ar e pensar “Quanto tempo eu não coloco o pé na terra? Quanto tempo eu não entro dentro d’água? Quanto tempo eu não tomo banho de chuva ou não olho para o céu?”
Acho que você pode ter até um pequeno diário para ir marcando, do mesmo modo que as pessoas que desejam emagrecer fazem, quando elas vão anotando tudo o que comem. Então é meio isso, você vai fazendo um diário para você.
Para você, onde é que a ciência e a poesia se encontram? Como transformar conceitos que parecem tão distantes e acadêmicos em algo que mexe com o nosso afeto e com o nosso coração?
Elas se encontram naturalmente, sem precisar marcar na pracinha ou em algum lugar porque a linguagem científica, às vezes, é tão bonita que você acha que aquilo ali já é uma releitura poética. E não é. É a ciência por si só. E eu acho que a poesia é uma ciência também, uma ciência de olhar para o ser humano e olhar para as coisas do mundo de um outro jeito.
Por exemplo, no espetáculo “Viva! Vida!” aparece uma célula super ampliada, tamanho gigante e todo mundo acha que aquilo é uma arte que alguém fez sobre uma célula, mas não é, aquilo é uma célula mesmo. Ela por si só é uma obra de arte.
E eu acho que o único jeito de transformar conceitos que parecem distantes e acadêmicos, o único jeito de chegar nas pessoas, principalmente com assunto cabeludo, é pelo humor e pela emoção. Quando você faz o cara chorar, você quebra ela; quando você faz ele dar uma risada, ele está na sua mão.
Você sempre teve uma ligação forte com o improviso. Em uma época em que tudo parece tão programado e editado, como manter o espaço para o acaso e para o erro vivo na nossa vida?
O teatro é o melhor lugar para isso. Inclusive, eu não lembrava que era tanto, porque tem gente que fala: “Ai, você vai na plateia? Ah, então eu não vou porque eu tenho medo…” Você imagina eu, se eu pego alguém na plateia para falar, é um corpo a corpo, um a um.
Mas quando eu me jogo na plateia, são mil pessoas do Teatro Sérgio Cardoso e eu correndo um risco danado. Mas é uma delícia correr esse risco. Nós somos seres humanos, somos iguais e a gente vai se entender.
Teatro Sérgio Cardoso – Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, região central. Quinta a sábado, 20h e domingo, 19h. Até 2/8. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: livre. Ingressos com democratização de acesso a partir de R$ 25 (meia-entrada) em sympla.com.br
Fonte ==> Uol


