O governo do presidente Donald Trump autorizou agências federais dos Estados Unidos a firmarem parcerias com o setor privado de segurança cibernética para a realização de operações ofensivas na rede. A iniciativa mira grupos criminosos estrangeiros responsáveis por fraudes e invasões contra cidadãos, corporações e sistemas americanos.
A decisão foi formalizada por meio de um Memorando Presidencial de Segurança Nacional, assinado em 12 de agosto de 2026. O texto amplia as determinações da Ordem Executiva 14390, editada em março. A Casa Branca justificou a nova estratégia ao afirmar que “o setor privado americano é o mais inovador e tecnologicamente avançado do mundo”, porém que suas capacidades “foram historicamente subutilizadas nos esforços para identificar e desarticular redes criminosas que operam no ciberespaço”.
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Diante desse cenário, o memorando estabelece como política nacional “utilizar todos os instrumentos de poder do país, incluindo a capacidade inovadora do setor corporativo, para combater o crime digital”.
Os dados apresentados pelo governo sustentam a urgência da medida: consumidores norte-americanos relataram prejuízos superiores a US$ 20,8 bilhões decorrentes de golpes e fraudes virtuais em 2025. Somado a esse impacto financeiro, 73% dos adultos no país afirmaram já ter sofrido algum tipo de ataque online.
Funcionamento do programa
A coordenação das atividades ficará a cargo do Centro Nacional de Coordenação (NCC), vinculado à Força-Tarefa de Segurança Interna. A supervisão direta será exercida em conjunto por dois diretores executivos, indicados pelo Departamento de Justiça e pelo Departamento de Segurança Interna.
Para participar, as companhias privadas devem passar por um processo rigoroso de verificação técnica e assinar contratos formais com as autoridades. As regras exigem a manutenção de uma garantia financeira mínima de US$ 1 milhão, valor sujeito a perda e retenção caso ocorra descumprimento das cláusulas operacionais.
As ações autorizadas incluem a vigilância e a desestabilização de redes cibercriminosas. Contudo, nenhuma operação poderá ocorrer sem aprovação prévia, por escrito, das lideranças do programa. O memorando também veta de forma expressa intervenções que possam resultar em “perda de vidas ou ferimentos graves”, ou que atinjam o patamar de “uso de força ou ataque armado segundo o direito internacional”.
Riscos de conflito e reações do setor
A medida provocou reações imediatas entre especialistas e lideranças da indústria de tecnologia, dividindo opiniões sobre a eficácia e os riscos da estratégia.
Cofundador da empresa de cibersegurança Veracode, Chris Wysopal avaliou a decisão como uma transformação relevante. “Esta é uma grande mudança na política cibernética dos Estados Unidos. Não é exatamente ‘hackear de volta’, mas definitivamente representa uma grande expansão do papel do setor privado em operações cibernéticas ofensivas”, escreveu o executivo, nas redes sociais.
Por outro lado, pesquisadores e analistas de mercado demonstraram preocupação com os desafios técnicos de identificar a autoria exata de crimes virtuais. Nick Carr, diretor técnico da equipe do Centro de Inteligência de Ameaças da Microsoft (MSTIC) e ex-analista da agência governamental CISA, alertou para o perigo de erros operacionais.
“Minha maior preocupação com ações ofensivas do setor privado contra o crime é a dificuldade de atribuição em operações criminosas, além de quão poucas organizações conseguem fazer isso de maneira precisa e repetível”, destacou Carr, ao pontuar que erros de identificação ocorrem com frequência no setor.
Outro ponto de atenção envolve a diplomacia internacional. O pesquisador independente de segurança digital Lukasz Olejnik advertiu que a destruição de infraestruturas controladas por criminosos pode afetar sistemas indiretamente vinculados a governos estrangeiros, o que eleva o risco de escalada e tensões entre Estados.
A iniciativa americana se aproxima de movimentos adotados por outros países. No Reino Unido, a Força Cibernética Nacional (NCF), criada em 2020 em parceria entre agências de inteligência e o Ministério da Defesa, também adota operações ofensivas com o objetivo de desestruturar grupos adversários, embora mantenha diretrizes para acionar essas ferramentas apenas quando outras alternativas não forem suficientes.
Fonte Tecmundo


